Só perde gol quem tá na área, artigo de Montserrat Martins

[EcoDebate] Na adolescência, fiz um teste para jogador de futebol. O treinador perguntou onde eu jogava e respondi firme: “centroavante”. Em 5 minutos de treino, recebi três lançamentos na área e perdi três gols. Ele me tirou do treino, com cara de brabo. Eu saí, mas não ma abalei. Porque eu tinha lido, em algum lugar, uma frase que explicava o que tinha acontecido, na verdade: “Só perde gol quem tá na área”.

Uma frase pode mudar uma vida: aquele treinador não conhecia aquela frase. Mas ainda bem que eu conhecia, porque, com ela, minha dignidade estava salva. Acabei fazendo Medicina, por ter sido barrado na minha verdadeira vocação, centroavante.


No dia-a-dia, o ego de cada um de nós passa por provações constantes no trabalho, em casa, na rua, no ambiente escolar. Não é à toa que foi necessário criar uma lei para tentar coibir o “bullying”, a “pegação no pé”, os apelidos ridicularizantes. As pessoas vivem cada vez mais na defensiva, com medo de serem criticadas e ridicularizadas pelas outras, na sociedade competitiva em que vivemos.

Movimentos comunitários, ONGs diversas e novas lideranças sociais e ambientais vem surgindo, no país e no mundo, com coragem de enfrentar os preconceitos e derrotismos e lutar pelas mudanças necessárias neste século XXI (sem as quais Lèvi-Strauss acertará a previsão de que “o planeta começou sem o ser humano e vai terminar sem ele”). São tachados de “sonhadores”, mas seus questionamentos são necessários.

Também há líderes empresariais que investem na chamada “sustentabilidade”, enfrentando as desconfianças naturais dos que questionam “o que eles querem ganhar com isso” e se as mudanças que implementam em suas organizações são sérias, ou apenas artifícios de marketing.

É difícil “separar o joio do trigo” no nosso ambiente cultural, em que os jovens são “criados” pela internet onde rola muita fofoca, mas não tanta informação confiável. E mesmo sem saber em quem confiarmos exatamente, em cada caso, precisamos ter coragem de criar alternativas. Como a UFRJ, que lançou em maio o primeiro ônibus a hidrogênio com tecnologia nacional – para vermos que no RJ há coisas melhores que petróleo.

Só a cultura pode nos ajudar em situações como aquela do treinador que não estava preparado para compreender nosso talento. Você não vai mais passar vergonha, sabendo citar o autor que disse que “a pergunta idiota é o primeiro vislumbre de algum desenvolvimento totalmente novo”. Te mete, hein, hein?

Montserrat Martins, Psiquiatra, é articulista do EcoDebate.

EcoDebate, 18/06/2010

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