Moradores de favelas cariocas cobram participação nos projetos destinados às suas comunidades

Nove comunidades populares cariocas, representando uma população favelada de 650 mil habitantes, entregaram ontem (17) aos governos estadual e municipal projetos de integração social com objetivo de tornar os moradores das favelas protagonistas de sua história de transformação.

Os projetos foram entregues ao vice-governador Luiz Fernando Pezão e ao vice-prefeito carioca Carlos Alberto Muniz, durante a abertura do 22º Fórum Nacional. O fórum é promovido anualmente pelo Instituto Nacional de Altos Estudos (Inae), na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

O ex-ministro do Planejamento João Paulo dos Reis Velloso, coordenador do evento, disse que a questão do desenvolvimento com inclusão é essencial para o surgimento de uma nova sociedade no Brasil, que seja ativa, “porque se manifesta”, e moderna, “porque defende o interesse público”.

Para Marcelo Radar, que representou os moradores das favelas do Complexo de Manguinhos, é importante trazer para a sociedade que vive fora a visão de dentro das comunidades, a fim de que os filhos dos favelados possam participar da transformação social que levará o Brasil a ser um país mais desenvolvido.

Ele destacou a importância dessa articulação para evitar a implantação de projetos sem que a comunidade tenha sido consultada sobre a sua necessidade. “A importância é você ter a oportunidade de mostrar o que realmente a comunidade precisa, sem pressão de quem está lá fora”, disse.

Vitor Onofre, da Favela de Vigário Geral, disse que a cultura é uma forte alavanca para a transformação social, especialmente de crianças e jovens. “Se todos trabalharmos juntos, mudaremos a nossa realidade para melhor”.

Um consenso entre os representantes das comunidades populares é que os projetos saiam do papel e promovam a integração das comunidades com a vida da cidade. No caso da Rocinha, Carlos Costa destacou que a integração poderá ser alcançada por meio da capacitação e da qualificação profissional da mão de obra local, para que seja aproveitada pelo potencial turístico do Rio de Janeiro.

A líder comunitária da Cidade de Deus, Cleonice Dias, defendeu a presença dos moradores na elaboração de projetos destinados às suas comunidades. “Já foi o tempo em que nós aceitávamos os projetos prontos, os pacotes estabelecidos nos escritórios e gabinetes”. Ela disse ainda que hoje o enfrentamento da desigualdade é de responsabilidade dos governos, dos empresários, da sociedade civil e das comunidades. “O que queremos é a participação na preparação e na gestão [dos projetos]. Uma participação deliberativa e ativa”, completou.

Mônica Francisco, da Favela do Borel, na Tijuca, afirmou que os projetos têm que ser elaborados sob a ótica da favela e mirar os moradores como protagonistas do processo. “Enquanto os pobres não forem colocados no centro do debate, essa construção não vai se dar concretamente”. O fórum é, no seu entender, uma oportunidade de mostrar para a sociedade que os moradores do Borel têm capacidade de se organizar e estruturar projetos consistentes e efetivos.

Morador da Favela da Maré, Francisco Marcelo da Silva enfatizou que as comunidades populares devem ser analisadas também como uma cidade, “uma cidade que reconheça a contribuição que os moradores dos espaços populares, tidos como favelas, têm dado para a sua construção”. Não se pode fechar os olhos para essa população, defendeu.

Do Pavão-Pavãozinho, em Ipanema, a líder comunitária Antonia Ferreira Soares salientou a necessidade de implementação de políticas que atendam, em especial, as mulheres, as crianças, os jovens e os idosos. Elas devem abranger da educação e habitação, até o esporte e o lazer. Antonia acredita que “só por meio da inclusão social que as comunidades podem se desenvolver e crescer. E o Pavão-Pavãozinho está batalhando por isso”, disse.

Luiz Bezerra do Nascimento, presidente da Associação de Moradores do Cantagalo, em Copacabana externou que os projetos sociais necessários à comunidade se misturam às obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em curso na localidade. Habitação, infraestrutura e abastecimento de água são prioridades na favela. Ele prevê que oito mil pessoas serão beneficiadas.

José Mário Hilário, presidente da Associação de Moradores do Morro de Santa Marta, em Botafogo, vai cobrar dos secretários de Cultura, do Esporte, de Obras e do Trabalho que atuem na comunidade, de modo a promover uma transformação social na comunidade.

Reportagem de Alana Gandra, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 18/05/2010

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