A classe operária vai ao ‘paraíso’ (do consumo), artigo Roberto Naime

trânsito

[EcoDebate] São freqüentes as notícias da imprensa sobre a possibilidade de produção em breve, tanto na China como no Brasil, de veículos automotores de transporte individual ou familiar, na faixa de seis mil real ou três mil dólares.

Nosso assunto é meio ambiente, mas inegavelmente cabe um comentário de natureza sociológica, que explicitamos no próprio título do artigo.

Ninguém é contra que a classe operária chegue ao que imagina ser paraíso, que consiga obter um bom padrão de consumo e uma qualidade de vida cada vez melhor.

O que nós vamos discutir são os conceitos, e não apenas para a classe operária. O consumidor de classe média americana adora caminhonetões que fazem poucos kilômetros por galão de gasolina.

Esta postura implica em uma enorme contribuição para a emissão de gases de efeito estufa, com a queima descontrolada de combustíveis fósseis (hidrocarbonetos).

E ninguém faz nada de mais impositivo para obrigar este consumidor a ter uma atitude mais responsável. Tem o que fazer, basta cobrar um imposto que torne o preço do combustível proibitivo para este tipo de consumo irresponsável. Mas nada é feito e a situação existe e não é resolvida.

Pois quando os carros da faixa ultra-popular de seis mil reais ou três mil dólares se tornarem maciços no mercado de consumo, uma ampla faixa de consumidores que hoje não tem acesso a este bem de consumo, poderá passar a ter. Nada mais justo.

Mas o que acontecerá com o meio ambiente se milhões de carros baratos, sem a devida tecnologia para evitar emissões danosas (como catalisadores) inundar as ruas e espaços dos continentes, da América Latina até a Ásia?

Podemos condenar os novos ingressantes no mercado de consumo de carros? Vamos dizer pra eles que agora que eles podem comprar carro, não devem fazer isto, por consciência ambiental. Mas se nunca dissemos ou agimos para desestimular os caminhonetões americanos, porque vamos fazer isto com a nova classe que entra no mercado de consumo?

Vamos dizer assim: “Agora que vocês chegaram na festa não pode, porque terminaram os comes e bebes?” É justo? Claro que não.

Portanto estamos vislumbrando mais problemas de intensidade relevante para a humanidade? Sim, com certeza, a extensão dos efeitos deste desmesurado aumento de produção de gases de efeito estufa é difícil de ser simulado ou projetado.

Mas com certeza, soluções terão que ser pensadas. E que sejam soluções justas. A humanidade vai ter que alterar seus paradigmas de felicidade. Vai ter que alterar seus padrões de consumo. Mas é bom que o início seja pelos americanos e suas caminhonetonas.

Na internet a gente encontra um teste chamado “ecological footprint” (http://www.earthday.net/Footprint/index.asp) ou pegada ecológica. Neste teste a gente responde um questionário com nossos hábitos de consumo e o programa define quantos planetas terra seriam necessários para sustentar nosso padrão de vida e de consumo.

A aplicação generalizada deste teste pode mostrar que pelas várias dimensões, aqueles que desperdiçam os galões de gasolina podem também ser os que mais gastam outros recursos e as modificações começam por eles para terem relevância.

Roberto Naime, Programa de pós-graduação em Qualidade Ambiental, Universidade FEEVALE, Novo Hamburgo – RS, é articulista do EcoDebate.

EcoDebate, 15/04/2010

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