Construindo a família do futuro: Os instáveis alicerces familiares do passado, artigo de Américo Canhoto

[EcoDebate] Estamos sendo centrifugados pela velocidade com que se processam as informações e, acuados pela mídia de ação rápida, seus desejos, interesses e valores. Em tudo e até na vida em família; nada mais será como antes.

Não adianta ter saudades do chamado por algumas pessoas: bons tempos.

Houve tempo em que as condições do ambiente social não desencadeavam influência tão forte nos indivíduos, na família e na sociedade, quanto nos incríveis dias de hoje.

Antes de um julgamento apressado de mais ou menos evolução de uns ou de outros; como se faz com freqüência, é preciso que se dê o devido desconto às gerações anteriores: nos últimos 50 anos a velocidade com que as transformações aconteceram foi inimaginável; se comparadas a períodos anteriores da evolução humana, aos milênios anteriores, mas o que é o tempo? – Defina o seu conceito.

É fundamental rever alguns conceitos que entram nas nossas avaliações.

1) A disciplina:
Antes, até pouco tempo, as famílias davam a impressão de fortes, coesas e disciplinadas a ponto de coibir as idéias capazes de criar mudanças aos princípios sociais pré/ estabelecidos. É que a maioria das pessoas questionava menos; e, é natural que os “velhos de hoje” rotulem os “jovens de hoje” como: rebeldes que contestam demais; desobedientes; perdidos; “sem valores morais”; “uma geração desorientada”… Diríamos, que hoje forçosamente, é que o ser humano começa a se encontrar consigo mesmo e com os outros de forma clara.

Quando os “jovens de hoje” rotulam os “velhos de ontem” de múmias, não estão sendo cruéis, rebeldes, irreverentes, irresponsáveis ou maldosos, estão sendo absolutamente, “verdadeiros”, sem que o saibam, pois basta procurar no dicionário o conceito do que seja uma múmia. * (vá ao dicionário)…

2) Valores morais:
Mumificados que estávamos na hipocrisia cultural ao acordar hoje, estamos mais ou menos perplexos com essa movimentação toda denominada globalização; que provoca uma necessidade de reestruturação do comportamento humano o que provoca nas pessoas mais imaturas: insegurança; estresse crônico; medo; ansiedade; intranqüilidade – num turbilhão, estamos sendo jogados de encontro a nós mesmos e de encontro aos outros. – estamos, subitamente, nos libertando de nossos medos e ao mesmo tempo nos libertando uns dos outros. Porém, a aceleração da interatividade faz com que caiam rapidamente as máscaras da hipocrisia nos deixando nus; pelados…, os lobos “metidos a cordeiros”…

3) Liberdade:
Quanto mais se pensa mais se exercita o livre-arbítrio e, mais livre se torna o ser humano. E, como nada ainda é perfeito: a liberdade para nós quase seres pensantes, é um paradoxo como tantos outros. Pois, ansiamos por ela, mas não sabemos ainda o que fazer com o direito de ser livre; como usá-la – tal e qual uma criança.

Um exemplo: a libertação dos dogmas e das superstições religiosas – quando o homem se libertou do antigo dogma: sexo é pecado; ficou um tanto quanto perdido, sem referências. Quando se libertou dessa camisa de força, o ser quase pensante tendeu à permissividade; o que é absolutamente lógico; já que retidos tendemos a ir de um pólo ao outro até que atingirmos o ponto de equilíbrio.

4) Materialismo:
Como ela não existe, é uma ilusão de conceito e dos sentidos, nada mais paradoxal para um ser humano do que assistir à própria morte.

E, nada mais cruel para um materialista do que assistir e participar do fim da era materialista (leia e estude Einstein, seus postulados, seus conflitos íntimos, sua vida).

O materialismo pregando a liberação dos instintos sem o crivo da razão em nome da liberdade sem responsabilidade; introduz nos arquivos mentais e emocionais do homem a anarquia emotiva; e o conduz à doença e à loucura; porque o esvazia de conteúdo ético; o que mantém o indivíduo na condição de troglodita; pois, retira-lhe a perspectiva da inteligência e a busca da espiritualidade que faz parte de sua estrutura psicológica, daí criam-se conflitos e explodem paixões.

Essa bagunça íntima gera perturbações e ansiedade doentia como: Estresse, Depressão, Angústia Existencial, Medo Mórbido e Pânico.

A pessoa penetra e, não consegue sair do penoso labirinto da insatisfação negativa; porque na sua intimidade o indivíduo tem noção da medida da sua responsabilidade e dignidade. E, quando se precipita na irresponsabilidade; na perversão; a vergonha e a culpa se instalam em seu coração desequilibrando-lhe a vida e, perturbando os que com ele convive.

5) Estabilidade:
Algum tempo atrás, os vetores de estímulo capazes de gerar instabilidade no seio das famílias eram infinitamente menos intensos e em menor número. Hoje as pessoas são estimuladas intensamente pela mídia, na qual indivíduos sem o menor preparo para a vida formulam teorias sobre comportamento humano. Os meios de comunicação veiculam procedimentos de pessoas extravagantes que cultuam vícios, e vendem seus produtos pela propaganda enganosa que estimula paixões.

Esses ícones; esses indivíduos acham que só existe um lado da moeda na lei de causa/efeito – daí, eles agem levianamente; ajudando a “massa” a desgastar as energias, dilapidando a vida e o tempo – Mas, dia menos dia; quando a vida reage, as respostas são contundentes para quem dispõe de pouca consciência; daí uns e outros, condutores e conduzidos levantam as mãos para os céus, e como pedintes correm para os templos e para as igrejas; porém a vida não dá a mínima para isso; e se manifesta na aplicação da Lei da Evolução; e não, apenas, no acatamento de rogos, protestos e petitórios.

Inegável as interpretações quase estúpidas de dor, sofrimento, de mundo cruel que muitos fazem – fingem não saber que: ações, atos, desejos projetam respostas no tempo e no espaço, em inevitável ciclo de reação.

Qualquer um que observe a aceleração de tudo; mesmo sem ser adivinho; pode afirmar que as respostas serão rápidas, agressivas, duras e sofridas – enquanto as atitudes das pessoas permanecerem no “troglodita” campo das paixões.

O antigo paradigma: Penso logo existo – foi substituído pelo modernoso: Consumo; logo existo.

A quantidade de apelos e informações para o consumo gera no mínimo confusão na cabeça das pessoas; daí a repercussão na família, criando instabilidade; dor; desarmonia; desânimo; depressão; angústia.

O resgate da estabilidade do ser humano e da família virá pela reflexão que ordena a submissão dos reflexos, dos instintos e das emoções à razão. Essa, embora possa enganar e ludibriar; isso é uma realidade; ainda é a única capaz de ordenar todas as conquistas evolutivas do ser humano; alinhando as atitudes, aos sentimentos e emoções às Leis da Evolução.

Principalmente através dela é que mudamos as causas, e reformam-se os efeitos…

6) Honra:
Antes as pessoas podiam dedicar-se a viver segundo princípios da sua ética pessoal e cultural; alguns até o faziam; apenas pelo fato de sua visão de mundo ser menos instável: não lhes restava nada de mais “valor” a conquistar na vida; pois acumular valores materiais para eles não era possível nem em sonhos – nessa forma de viver havia tempo para sentir orgulho da palavra empenhada; de adquirir a confiança e a estima dos outros – a pasteurização de valores; e a depreciação da ética levou a uma mixórdia na compreensão dos seres pouco pensantes a respeito do que seja honra ou o seu oposto complementar a desonra.

Tempo virou sinônimo de $. Boa parte das pessoas não tem tempo de ter honra, já que conquistar a dignidade moral exige tempo e esforço e para isso, para ter honra não dá tempo de ostentar a qualquer preço e a qualquer custo.

Hoje a honra das pessoas estampa-se no vestuário, no carro, no iate, nas colunas sociais, no número de conquistas amorosas.

Os pais não podem querer ser honrados pelos filhos já que dão o exemplo de não honrar nem a si mesmos.

Esse estado de coisas para os mais saudosistas pode parecer um retrocesso; mas não é; principalmente porque o código de honra do passado era assentado quase que só na hipocrisia camuflada; ao menos hoje, essa caricatura; essa máscara já está sendo estampada na cara das pessoas; já está na pele; e daí para fora, é mais um passo; quando ainda nas entranhas esse tipo de honra é mais difícil ser expelido; embora ás vezes alguns conceitos funcionem como um verdadeiro laxante.

Outro ponto positivo é que hoje poucos hipócritas têm tempo de lavar a honra com o sangue dos outros (tipo ‘corno’).

Nos dias de hoje quantos pais hipócritas vociferam que, se a filha engravidar sem casar; vai acontecer isso, vai acontecer aquilo, e nascido o neto, tornam-se vovôs/coruja e ainda sustentam, às vezes, o “bastardo” que lhes desonrou o lar – um puro e simples sinal de evolução.

7) Respeito:
É comum que se diga da falta de respeito dos mais jovens pelos mais velhos nos dias de hoje. É que o respeito à antiga nada mais era do que: medo – submissão à vontade dos outros pela força, estava mais pelo lado da elegância social.

Além disso, o antigo sentimento de respeito era pura hipocrisia da boca para fora ou ainda na presença da pessoa truculenta e autoritária; mas pelas costas era bem diferente. Nada contra a elegância social, tudo que é belo deve ser cultivado. E ser respeitoso com tudo e com todos é sinônimo de boa/educação pessoal e social; mas, deixar de questionar tudo do que se discorda é burrice, e aceitar truculência nas respostas é covardia.

A cada dia fica mais claro e definido que, respeito não se pede nem se impõe. Respeito se conquista…

No contexto dessa aparente bagunça de valores sociais é preciso que fiquemos tranqüilos, pois todos os verdadeiros valores do passado vão retornar pouco a pouco porque nunca desapareceram, são leis naturais de evolução, matemáticas e eternas. É só aguardar um pouco e desenvolver a paciência de esperar a “poeira e a água baixar”; após 2012 – pois, tudo sempre a cada dia fica melhor do que antes – é impossível á nossa preguiça de pensar; sentir e amar deter o inexorável pulsar criativo da FONTE CRIADORA.

Revisemos a cada dia; não apenas nossos valores; mas também nossa visão de mundo para que haja paz na vida em família consangüínea, social e cósmica.

Américo Canhoto: Clínico Geral, médico de famílias há 30 anos. Pesquisador de saúde holística. Usa a Homeopatia e os florais de Bach. Escritor de assuntos temáticos: saúde – educação – espiritualidade. Palestrante e condutor de workshops. Coordenador do grupo ecumênico “Mãos estendidas” de SBC. Projeto voltado para o atendimento de pessoas vítimas do estresse crônico portadoras de ansiedade e medo que conduz a: depressão, angústia crônica e pânico.

* Colaboração de Américo Canhoto para o EcoDebate, 30/03/2010

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