A vida oposta à soberania do agir econômico, artigo de Gigi Roggero

"O que mais é uma filosofia do comum senão a busca coletiva de um trabalho vivo sem apropriação capitalista e de uma multidão sem Estado?"

A opinião é de Gigi Roggero, formado em História Contemporânea pela Università degli Studi di Torino e doutorando no Departamento de Sociologia e Ciência Política da Università della Calabria. O artigo foi publicado no jornal Il Manifesto, 27-02-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Há uma forma de vida que, trabalhando, produz a riqueza dos outros e a sua própria pobreza. É – ensina Karl Marx – a força de trabalho viva, que acaba encontrando diante de si o próprio trabalho vivo como uma força aparentemente estranha: tanto que, “se o capital quisesse pagá-la sem fazê-la trabalhar, ela aceitaria de bom grado o negócio”.

Sobre esse nó gordiano, que constitui ao mesmo tempo o pressuposto e o produto da existência do capital, o estudioso italiano – mas que vive e ensina filosofia na Long Island University de Nova York – Bruno Gullì havia concentrado a atenção no seu “Labor of Fire” (Temple University Press).

Para elaborar uma “ontologia do trabalho”, Gullì aprofundava a distinção entre trabalho vivo e trabalho produtivo, ou seja, entre o livre desenvolvimento da cooperação social e o comando capitalista. Por meio de uma criativa, assim como heterodoxa releitura de Marx, o autor se propunha reportar ao centro da discussão sobre a globalização um tema, o trabalho, do qual a contra-revolução capitalista presumia ter se desembaraçado politicamente de uma vez por todas.

Continuando nesse caminho, Gullì combina em seu “Earthly Plenitudes: A Study on Sovereignty and Labor” (Temple University) a crítica da soberania à crítica da produtividade (de capital). Trata-se, para resumir, da crítica da soberania do valor de troca. O ponto de partida do livro é o conceito de “dignidade de individuação”, mas ele coloca em primeiro plano a dimensão constituinte da relação entre singularidade e comum.

A doutrina moderna da soberania, identificada na linha genealógica que, de Thomas Hobbes, leva até Carl Schmitt, não possui um fundamento ontológico e ético. Na rejeição da soberania, é possível, pelo contrário, jogar uma nova luz sobre o “reino da imanência”, em que Gullì adentra utilizando inescrupulosamente alguns vários autores – de Leibniz a Bataille.

O autor se concentra sobre duas questões: a exploração dos trabalhadores precários nas universidades e o posto reservado à deficiência na sociedade contemporânea. Nesses intensos capítulos, Gullì demonstra ser não só um estudioso militante, mas também capaz de traduzir na elaboração teórica um efeito de vida, restituindo sua completa materialidade. A sua “plenitude terrena”, justamente.

Ele faz o percurso inverso com relação a vários filósofos radicais contemporâneos, de Badiou a Zizek, que sonham – indiferentes a Marx – o “advento” de um comunismo abstrato e metafísico, um comunismo sem sujeito e processo, isto é, privado de corpo, de conflitos, de potência e também de sofrimento.

Os trabalhadores precários da universidade, de resto, estão ao mesmo tempo dentro e fora, ou seja, não estão nem dentro nem fora. Essa colocação de fronteira é densa de sofrimento, e aqui Gullì fala por meio da experiência biográfica. Mas há também espaço de possibilidade, em que a desgraça e a pobreza de ser trabalhador produtivo pode ser transformada em poder de transformação social.

E é nas lutas e nas greves dos últimos anos que o trabalho cognitivo está se tornando classe, isto é, força comum que pode se reapropriar da riqueza que produz. Analisando o trabalho de cuidado, o autor pode depois desmontar a universalidade normativa do indivíduo moderno, que encontra na figura da deficiência o papel de tornassol dos rígidos limites do qual nasce. A autonomia não é um pressuposto do indivíduo proprietário, mas se constrói só na relação entre as singularidades e as diferenças.

Gullì conclui, portanto, com um paradoxo: “a soberania do trabalho é o trabalho sem soberania”. Depois de ter desmantelado a máquina dialética da modernidade capitalista, o trabalho vivo que surge não é nem servo, nem soberano: é aquilo que o comum funda e produz. Não pode ser, acrescentamos, a redescoberta de um valor de uso destruído pela soberania do capital, mas a organização de uma nova relação social fundado na desmesura. De resto, o que mais é uma filosofia do comum senão a busca coletiva de um trabalho vivo sem apropriação capitalista e de uma multidão sem Estado?

(Ecodebate, 04/03/2010) publicado pelo IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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