Mineral vulcânico e água subterrânea alcalina originam excesso de cromo no aquifero Bauru

Mapa do aquifero Bauru
Mapa do aquifero Bauru, in “Caracterização petrográfica e aspectos diagenéticos dos arenitos do Grupo Bauru na região sudoeste do Estado de São Paulo“. Para acessar o mapa em seu tamanho original clique aqui.

Pesquisa explica excesso de cromo em águas subterrâneas de SP – A água subterrânea de algumas cidades localizadas no aquífero Bauru, na região noroeste de São Paulo, intriga cientistas por que apresenta naturalmente uma alta concentração de cromo hexavalente, um metal cancerígeno. Uma pesquisa da USP publicada recentemente na revista Geologia USP: Série Científica, do Instituto de Geociências (IGc), revela a causa do fenômeno: uma combinação de águas profundas muito alcalinas e um mineral de origem vulcânica inesperado no tipo de rocha da região.

A concentração de cromo na água subterrânea de Urânia, a cidade mais afetada pelo problema, é 0,14 miligramas por litro (mg/l) — mais que o dobro do limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para o consumo humano, de 0,05 mg/l. Foram relatados casos parecidos somente em regiões de clima mais áridos e com rochas muito específicas, incluindo algumas regioes dos Estados Unidos, Itália e Austrália.

Os pesquisadores do IGc resolveram investigar a causa da ocorrência, já que no noroeste de São Paulo, o clima é tropical e as rochas são bem comuns — arenitos que se originam da degradação de outras rochas. Eles perfuraram poços de diversas profundidades e examinaram a composição do terreno e a água.

Na rocha, perceberam uma porcentagem grande do mineral diopsídio com cromo em seu interior. “Geralmente os diopsídeos com cromo estão em rochas muito alcalinas”, explica Reginaldo Bertolo, professor do IGc e cooperador da pesquisa. “Lá em Urânia existe o único caso que eu conheço em que eles estão presentes em arenitos.”

O diopsídio da região é originado das rochas vulcânicas muito alcalinas que existiam há milhões de anos no triângulo mineiro. Elas foram erodidas lentamente e transportadas para a região, que era desértica na época. Por essa razão, o mineral preservou suas características. “O mineral existe por que não havia água na região”, explica Bertolo. “Ele não teve tempo de ser transformado em outros minerais. Está se transformando agora”.

No entanto, apenas a presença do mineral não explica como o cromo foi parar na água subterrânea. O fenômeno pode ser explicado pelo fato de as regiões mais profundas do aquífero terem grande alcalinidade, outra característica rara. O pH da água em profundidades como 80 e 90 metros varia entre 8,5 e 10,7. O pH é alto por conta de reações químicas que acontecem devido à presença de carbonato de cálcio, oxigênio e óxido de manganês em suas águas. O pH da água subterrânea na natureza normalmente está entre 5,5 e 8,5.

Água perigosa
Em Urânia, a Sabesp, distribuidora estatal de água, abandonou a exploração dos poços e importa a água da cidade vizinha, Jales, que usa água do aqüifero Guarani. No entanto, há poços particulares sem regularização. “Existem milhares de poços de propriedades particulares”, afrima Bertolo. “Muita gente pode estar bebendo água incolor e sem gosto, talvez contaminada”. Ele lembra que cada 5 poços no estado de São Paulo, 4 são construídos sem autorização de funcionamento (outorgas) pelo governo, segundo levantamento feito pelo Laboratório de Modelos Físicos (LAMA) do IGc. Esse poços não são ficalizados.

Outro problema da região são os curtumes, que usam cromo no tratamento de couro e descartam os resíduos sem cuidados ambientais, o que pode agravar a contaminação natural. “Entretanto, esses problemas são pontuais e têm sido mais facilmente identificados pelos órgãos ambientais”, explica Ricardo Hirata, professor do IGc e cooperador da pesquisa.

A pesquisa aponta estratégias possíveis para explorar a água da região. Uma sugestão é construir poços em regiões do aquífero com menos sódio, já que os pesquisadores perceberam que concentrações altas de cromo hexavalente são acompanhadas por concentrações altas de sódio. Outra possibilidade a ser testada seria bombear a água dos poços existentes em diferentes vazões ou regimes de bombeamento, já que o ritmo de bombeamento parece influenciar na concentração do contaminante na água.

Reportagem de Nilbberth Silva, da Agência USP de Notícias, publicada pelo EcoDebate, 26/02/2010

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