Transposição e Belo Monte artigo Roberto Malvezzi (Gogó)

[EcoDebate] Vamos acompanhando as notícias de Belo Monte, particularmente a partir de suas vítimas e de todos que se opõem a obra. É perfeitamente possível entender e sentir a indignação dessas pessoas e povos. Nós temos aqui no São Francisco, na carne, o que significa a imposição de uma obra, contrariando toda legislação, todo parecer técnico, todo bom senso, todo respeito pelos direitos dos povos que ainda habitam essa terra.

Desde o princípio dissemos que o que acontecia no São Francisco tinha o caráter do regime militar. Alguns defensores da obra chegaram a dizer que “era melhor realizá-la sob a democracia que sob a taca dos militares”. Acontece que os militares executam a obra e ela é uma concepção do regime militar. Agora, quando proprietários de terra da Paraíba resolveram parar as máquinas das empresas por não terem sido ainda indenizados, a empreiteira não teve dúvida: chamou o Exército.

Um dia, sentado na calçada da capela onde fazia seu segundo jejum, um jornalista internacional perguntava e afirmava a Frei Luiz: “Bispo, seu jejum é inútil. O capital não tem interesse em sua vida. O Senhor vai morrer e eles vão fazer a obra”.

D. Luis ficou em silêncio por alguns momentos, naquele seu jeito reflexivo e depois respondeu com um provérbio chinês: “Quando você aponta o dedo em uma direção, o sábio olha para onde o dedo aponta, o idiota olha para a ponta do seu dedo”.

O jornalista ficou em silêncio e não disse mais nada.

Essa é a questão retomada agora por todos os lutadores no caso de Belo Monte. O gesto profético de Frei Luis apontava muito mais que para uma obra, apontava para a direção do país que queremos. Ele terá rios? Terá florestas? Terá biodiversidade? Terá povos originários morando em seu habitat, preservando o que ainda nos resta de natureza?

Não está garantido que sim. Não é uma obra, nem duas, é uma concepção de mundo. O desenvolvimentismo brasileiro é obreirista, ainda que tenhamos despencado no ranking da educação e da preservação ambiental, exatamente no governo Lula. Portanto, despencamos em questões fundamentais onde residem critérios de qualidade, apesar de avançar em obras.

Transposição, Belo Monte, indicam que, dos militares, passando por FHC e Lula, chegando a Dilma, a compreensão de desenvolvimento implica no sacrifício da natureza e dos povos que habitam esses ambientes.

Nossa solidariedade, ainda que abatida e humilhada, aos povos e lutadores do Xingu.

Roberto Malvezzi (Gogó) é Assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT, colaborador e articulista do EcoDebate.

EcoDebate, 23/02/2010

Inclusão na lista de distribuição do Boletim Diário do Portal EcoDebate
Caso queira ser incluído(a) na lista de distribuição de nosso boletim diário, basta utilizar o formulário abaixo. O seu e-mail será incluído e você receberá uma mensagem solicitando que confirme a inscrição.

Participe do grupo Boletim diário EcoDebate
E-mail:
Visitar este grupo

3 comentários em “Transposição e Belo Monte artigo Roberto Malvezzi (Gogó)

  1. Em grande parte concordo com sua posição, acompanho este tal debate
    sobre a transposição e o combate a seca desde 1978 ou 9, quando fui a
    um Congresso em Campina Grande, onde o órgão de combate a seca
    apresentava os brilhantes resultados de sua política de criação de
    comunidades com infraestrutura com lavoura irrigada e tudo o mais,
    belas fotos, lavouras lindas, quando alguém no plenário perguntou: Ok,
    mas vocês realizam as obras, quem fica melhora a sua condição de vida,
    mas para cada 10 famílias beneficiadas, umas quantas simplesmente eram
    expulsas de suas terras, tudo em prol do desenvolvimento. Os detalhes
    não vou mais me lembrar, pelo tempo que passou, mas provavelmente
    alguém daquela região ainda deve se lembrar.
    E assim o Brasil vem tocando esta discussão do tal do desenvolvimento,
    aliás não é só o Brasil, como escreves o desenvolvimentismo brasileiro
    é obreirista, mas não é o brasileiro, o desenvolvimentismo é
    obreirista em todo o mundo, mesmo no antigo leste europeu era assim.
    O que temos que atacar é este conceito de que para sermos felizes o
    PIB tem que crescer.
    Este tal PIB mede que um usado real para produzir educação, vale o
    mesmo real gerado pela venda da revista que só serve para dizer qual
    artista está namorando com qual artista, o mesmo real gerado na saúde,
    vale igual ao real gerado pela indústria do fumo, o mesmo real gerado
    por uma obra de saneamento, vale o mesmo que um real gerado no
    tratamento de uma doença gerada pela própria falta de saneamento.
    É isto que pcorre nossa sociedade, o PIB deveria ser medido em
    felicidade gerada para o nosso povo e não em bens materiais
    consumidos, pois estes só geram felicidades para os que lucram com
    estes bens.
    Infelizmente o Governo Lula, para poder governar teve que abrir espaço
    para muita gente, mas não entendo como uma vontade pessoal dele, mas
    uma opção que o povo brasileiro optou, pois a composição do Congresso
    Nacional é resultado de uma eleição. Portanto não adianta tentarmos
    eleger a melhor proposta para o governo, temos que eleger também
    parlamentares que pensem assim. Infelizmente este é o sistema em que
    estamos e sua alteração depende de aumentarmos o grau de conciência de
    nosso povo.
    Primeiro não adianta se iludir em votar apenas numa pessoa, tem que
    ser visto é o posicionamento do Partido Político que está por detrás
    desta pessoa, o seu passado, presente e os rumos deste partido.
    Bem mas isto já está ficando longo demais.
    Quem sabe vamos ao debate.
    Um abraço
    Darci Campani

Comentários encerrados.

Top