Le Monde: Haiti, o país da floresta perdida

Para qualquer pessoa que queira entender os problemas do mundo contemporâneo, a fronteira de cerca de 170 quilômetros de extensão que divide a grande ilha caribenha de São Domingos, entre a República Dominicana e o Haiti, constitui um enigma. Vista de cima, ela parece uma linha em ziguezague, recortada arbitrariamente à faca e separando bruscamente uma paisagem mais escura e mais verde a leste (o lado dominicano) de uma paisagem mais clara e mais marrom a oeste (o lado haitiano)”. Assim começa o capítulo dedicado à ilha do Caribe por Jared Diamon em seu best-seller “Colapso: Como as Sociedades Escolhem o Fracasso ou o Sucesso” (‘Effondrement. Comment les sociétés décident de leur disparition ou de leur survie’, Ed. Gallimard, 2008).

As histórias opostas dos dois países fornecem “um antídoto útil” àqueles que consideram que existe um determinismo ambiental, diz o biólogo e geógrafo americano. Para Jared Diamon, as boas e más decisões pesam bem mais do que a fatalidade no destino das nações. Reportagem de Laurence Caramel, Le Monde.

A madeira, questão vital
No início, os dois lados da ilha eram recobertos por florestas tropicais. Estas desapareceram em grande parte, mas a República Dominicana soube preservar cerca de um terço de suas paisagens originais, ao passo que o Haiti esgotou quase que totalmente seu capital florestal. A natureza, entretanto, preparava destinos opostos. A parte oriental da ilha é mais irrigada. O relevo de planícies e de planaltos que se esgueira entre picos que chegam a 3.000 metros de altitude oferece terras de melhor qualidade: a República Dominicana tinha uma vocação agrícola. Foi o Haiti que se apoderou dela. Primeiro para consolidar a prosperidade da colônia francesa: sua economia açucareira faz dela o território mais rico do Novo Mundo. E depois rapidamente para o pior, uma vez que a expansão agrícola se tornou a da miséria.

O desmatamento simboliza bem o círculo vicioso da pobreza no Haiti. No início dos anos 1920, a floresta tropical – depois de ter sido em parte extraída de suas essências raras para honrar o tributo financeiro imposto pela França em troca da independência – ocupava ainda 60% da superfície nacional. E depois menos de 20% na virada dos anos 1950. Hoje, restam somente 2% dela. Com cerca de 10 milhões de habitantes – como na República Dominicana, mas sobre um território duas vezes menor -, o Haiti tem a maior densidade populacional da região. A floresta foi roída pelos milhões de camponeses em busca de um pedaço de terra para sobreviver, e de madeira que garante a mais de 65% dos haitianos a única fonte de energia. Para muitas famílias, a madeira revendida na cidade fornece uma renda complementar sem a qual seria difícil ficar, uma vez que devem sobreviver com US$ 2 (R$ 3,72) por dia. E assim 30 milhões de árvores seriam cortadas todo ano, segundo a ONU.

O desaparecimento das árvores levou a uma forte erosão dos solos, reduziu sua fertilidade e provocou, nos arredores, fenômenos de seca e de desertificação. Qualquer chuva expõe a maioria das cidades às inundações e às torrentes de lama. Portanto, o balanço dos ciclones tropicais ali é muito mais pesado do que em seu vizinho dominicano. O desflorestamento foi culpado oficialmente pelo trágico resultado dos dois últimos grandes ciclones, em 2004 e em 2008, durante os quais a região de Gonaives, no norte do país, foi particularmente atingida.

A gravidade do problema é conhecida há muito tempo sem que os sucessivos governos tenham conseguido encontrar uma solução para ele. Diversos programas de reflorestamento foram lançados com o apoio de financiadores internacionais. Mas o cansaço venceu, depois de verem os raros progressos sendo questionados pelas recorrentes crises que minam o país há décadas. No local, associações e ONGs ainda tentam agir.

A miséria leva os haitianos a se instalarem ilegalmente do outro lado da fronteira para encontrar os recursos que sua terra não lhes dá mais. Todos os anos, a população haitiana consome 1 milhão de toneladas de cereais, dos quais 60% devem ser importados – quando os preços nos mercados mundiais o permitem… A insegurança alimentar continua grande, e em 2008 o país foi palco de revoltas por causa da fome. A história contada por Jared Diamond mostra que o drama do Haiti foi, em parte, forjado sobre uma catástrofe ambiental.

Na hora de pensar no futuro do país, seria condenável ignorar isso.

Tradução: Lana Lim

Reportagem [Le pays de la forêt disparue] do Le Monde, no UOL Notícias.

EcoDebate, 29/01/2010

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