O trabalho visto a partir dos jovens pobres. Entrevista especial com André Langer

“Ocorreu uma desconstrução do mundo do trabalho, e, com ela, ganharam força novamente as formas precárias de trabalho. O sistema produtivo necessita de menos trabalho para uma produtividade sempre maior”. A constatação é do pesquisador do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores (CEPAT), André Langer, na entrevista exclusiva que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line. Segundo ele, “os jovens, as mulheres, os negros e os que estão com 45 anos ou mais são aqueles que mais sofrem essas mudanças, porém mais particularmente os jovens”. E é justamente sobre essa parcela da população que Langer acaba de defender sua tese de doutorado em Sociologia, Mutações no mundo do trabalho. A concepção de trabalho de jovens pobres, na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Em sua pesquisa, ele descobriu que esses jovens invisibilizados socialmente “são afetados e instigados” por novas realidades como a do trabalho imaterial: “Há trabalho imaterial quando uma jovem opta por cuidar do filho e deixar o emprego, quando cuidam da aparência, da beleza. Mas o imaterial também está presente quando quase todos dizem já ter feito um curso de informática, quando um deles diz que quer fazer um curso de hardware, ou quando andam com celular ou acessam a Internet para se relacionarem ou para estarem comunicáveis”.

Langer é graduado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), e em teologia pelo Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus. É mestre em Ciências Sociais pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) com a dissertação Pelo êxodo da sociedade salarial. A evolução do conceito de trabalho em André Gorz.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Por que razão, nas últimas décadas, a concepção do que é ser jovem vem se alterando? Como se define hoje o jovem? Qual foi o jovem que focalizou em sua pesquisa?

André Langer – A modernidade conformou uma relativa cronologização das idades, pautada por uma certa ideia de ordem e progressão. Os ciclos da vida – infância, juventude e vida adulta – se distinguiam com bastante clareza. A escolarização e o papel exercido pelo Estado são relevantes para esse estado de coisas. Neste contexto social e cultural, a juventude era concebida como uma fase transitória, passageira.

Nas últimas décadas, em decorrência das mudanças de ordem econômica, social, populacional e cultural, essas fases foram se embaralhando. Essa descronologização dos ciclos da vida se dá em um momento em que ocorre particularmente um prolongamento da esperança de vida e a diminuição das oportunidades de trabalho para os mais jovens. As sociedades se tornam sempre mais complexas, e as passagens já não se dão com a mesma nitidez. Além disso, a fase da juventude passa a assumir uma importância em si mesma e torna-se o modelo cultural para toda a sociedade. Por isso, hoje, se faz uma distinção entre juventude, entendido como fase da vida, e juvenilização, os valores e atitudes relacionados à fase juvenil. Todos os ideais de perfeição, antes relacionados à vida adulta, estão sendo transferidos à juventude. Os adultos querem ser eternos jovens.

A relevância sempre maior do fator cultural para a definição do que é juventude traz consequências para a determinação dos limites etários. Tornou-se comum dizer que é jovem quem tem entre 15 e 24 anos. Hoje, o limite superior está sendo alterado para cima em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil. A Secretaria e o Conselho Nacional de Juventude já adotam a faixa que compreende os 15 aos 29 anos para designar a juventude, delimitação que assumimos na nossa pesquisa. Na verdade, assumimos o limite inferior de 18 anos.

Devido à pluralidade de situações que envolvem o ser jovem, é preferível falar hoje em juventudes, no plural. As situações concretas e as experiências são múltiplas, mas a condição juvenil procura dar uma certa unidade a esta etapa da vida.

Na pesquisa, nos circunscrevemos aos jovens pobres entre 18 e 29 anos que não estudam e nem trabalham. Por sua situação social, sofrem não apenas do abandono das políticas públicas, mas também do descaso dos pesquisadores.

IHU On-Line – O senhor afirma que os jovens que não trabalham e não estudam se encontram em uma situação de invisibilidade, porém os institutos de pesquisa indicam que eles são entre 23% a 27%. Como se tornaram “invisíveis” se são tantos?

André Langer – Realmente é assim, eles são uma estatística, um número, mas se sabe mais nada sobre eles. Paradoxalmente, são visíveis como número, mas invisíveis enquanto conhecimento da sociedade sobre eles. O que pensam, como vivem, como se viram para fazer frente às necessidades e anseios que têm, as estratégias que desenvolvem, o que desejam e sonham, são questões pouco exploradas. Essa é uma faceta da invisibilidade. De modo geral, comparecem publicamente apenas quando estão relacionados à violência e, portanto, neste caso, são vistos como uma ameaça e um perigo para a sociedade. E são tratados como “marginais” e reprimidos com a força. E isso é uma generalização abominável e que não corresponde à realidade.

Uma outra faceta da invisibilidade consiste em encontrá-los pessoalmente. Uma coisa é saber que eles são uma estatística, mas outra bem diferente é encontrar cada rosto escondido atrás das estatísticas. Com relação a isso, concretamente, na nossa pesquisa, encontramos muita dificuldade para contatá-los. Nem mesmo as lideranças comunitárias mais próximas os conhecem. E os próprios jovens que se encontram nesta situação, sabendo da humilhação que isso representa em muitos casos, escondem-se como forma de se protegerem. Dessa maneira, fomos obrigados a recorrer a pessoas amigas para que nos ajudassem na indicação desse público. Chegamos, pois, a eles através do contato personalizado, por indicação, e não pela figura propriamente “fria” e “anônima” do pesquisador.

IHU On-Line – Não trabalhar e não estudar é uma opção entre esses jovens ou eles foram “empurrados” para essa situação?

André Langer – São casos diferentes. Trabalhar, todos querem e gostariam de trabalhar. Valorizam-no enquanto oportunidade para explorar outros “mundos” que não o âmbito doméstico, para fazerem novos amigos e para poderem bancar seus pequenos consumos. Representa parcela de contribuição no crescimento em termos de autonomia e liberdade. Portanto, não se aplica a eles o jargão de que “só não trabalha quem não quer”. A dura realidade com que se defrontam é que, objetivamente, não há emprego para todos. Mas, há, também, situações em que eles optam por não trabalhar durante um período para se dedicarem a outras atividades, sem fins econômicos, mas que lhes dão sentido e reconhecimento social.

Quanto à escolarização, a situação é um pouco diferente. Pode-se perceber, em termos gerais, que dão grande importância aos estudos. Ter o ensino médio é para eles condição fundamental para se conseguir hoje um emprego. Entretanto, vários dos jovens pesquisados mostraram-se extremamente céticos em relação aos impactos práticos de se ter mais estudo. Analisam que os longos – e muitas vezes sofridos – anos de escola não são suficientes para tirá-los da situação em que se encontram. Além disso, reclamam das exigências sociais em termos da escolarização. Não vendo um efeito prático de tamanho esforço dispendido, sentem-nas como opressivas, sufocantes e sem sentido. E transformam-se em jugo insuportável de ser carregado. Abandonam a escola sem perspectivas de retomá-la. Decepcionados, alguns inclusive chegaram a dizer expressamente que não voltariam a estudar. Diante desse quadro, a questão de fundo que surge é a seguinte: o problema está nesses jovens? Ou as suas atitudes e opções são também uma denúncia de uma sociedade que promete o que não consegue cumprir? Sempre é mais fácil atribuir a responsabilidade a eles.

IHU On-Line – Os jovens de sua pesquisa já nasceram em uma sociedade do trabalho reestruturada. Quais são as principais características dessa sociedade do trabalho e como impacta a vida desses jovens?

André Langer – O último quartel do século XX foi marcado por profundas mudanças na organização da produção e do trabalho, mas também ao nível cultural, com especial acento no aspecto antropológico. A revolução tecnológica informacional está de certa forma no centro destas transformações, capitaneada pela globalização do capital e pelas políticas neoliberais que se espalharam mundo afora. O mercado de trabalho tornou-se mais restrito e mais competitivo. Ocorreu uma desconstrução do mundo do trabalho e com ela ganharam força novamente as formas precárias de trabalho. O sistema produtivo necessita de menos trabalho para uma produtividade sempre maior.

Os jovens, as mulheres, os negros e os que estão com 45 anos ou mais são aqueles que mais sofrem essas mudanças, porém, mais particularmente os jovens. E mais ainda os jovens pobres. A eles restam os trabalhos mais precários em todos os sentidos. Reclamam da falta de oportunidades, das enormes exigências – para eles injustificadas – em termos de qualificação e experiência. Ficam inseguros e se sentem desamparados.

IHU On-Line – O senhor afirma que muito desses jovens já desenvolvem atividades que se caracterizam como trabalho imaterial. Poderia explicar?

André Langer – Toda a discussão relativa ao imaterial é nova no Brasil e pouco aceita na academia. Mesmo entre aqueles que trabalham com essa nova categoria, olha-se, com freqüência, apenas para uma das pontas do paradigma cognitivo, aquele que puxa o carrossel do capitalismo hoje. E com razão. Entretanto, os trabalhadores do imaterial não se restringem apenas aos programadores, aos que estão na ponta da criação de valores. E o imaterial não se resume a isso. Na pesquisa, procuramos perceber como os jovens pobres também são afetados e instigados por essas novas realidades. Há trabalho imaterial quando uma jovem opta por cuidar do filho e deixar o emprego, quando cuidam da aparência, da beleza. Mas o imaterial também está presente quando quase todos dizem já ter feito um curso de informática, quando um deles diz que quer fazer um curso de hardware, ou quando andam com celular ou acessam a Internet para se relacionarem ou para estarem comunicáveis.

Observamos também a ambivalência de toda essa realidade. Se, por um lado, o capitalismo cognitivo, assentado em nova base tecnológica, devolve novamente maior poder ao capital vivo, isto é, às pessoas, por outro, ele pode reproduzir – e mesmo aprofundar – as desigualdades do capitalismo industrial. Que se vá numa direção ou noutra depende enormemente das novas formas de resistência e organização que vão se construindo no seio da sociedade.

IHU On-Line – Como se caracteriza o cotidiano desses jovens que não trabalham e nem estudam?

André Langer – De modo geral, vemos o desemprego ou o “não-emprego” como o que a própria palavra diz, negação, ausência, vazio. E atribuímos tudo de positivo ao trabalho, como se todo o sentido estivesse ali. Basta um rápido olhar para algumas preocupações presentes na sociologia do trabalho para perceber que o trabalho também pode ser lugar de não sentido, de barbarização, de sofrimento (físico, psíquico), de morte (até física!).

A pesquisa que realizamos mostra que os jovens conseguem quebrar esse monismo do “desemprego” e atribuir sentidos. A ocupação do tempo e sua vivência dependem fundamentalmente da intensidade com que a questão da procura de um emprego se coloca. Para aqueles jovens que investem tudo na busca de um emprego, todo o resto como que é colocado entre parênteses, desaparece, some. O dia torna-se longo e monótono. Não há iniciativas para ocupá-lo de maneira mais criativa. Entretanto, os jovens que não procuram emprego – ou que não o procuram freneticamente – conseguem investir em outras atividades. São atividades não apenas domésticas, como se poderia imaginar, mas atividades sociais ligadas à cultura, por exemplo. E quando falam disso, sente-se que ali vibra o seu coração, pois faz sentido e encontram ali também reconhecimento social. E então, como disse uma das jovens, “a semana é muito curta”. No caso das jovens mulheres, muitas delas já mães, o cuidado dos filhos também ajuda a ocupar o tempo.

IHU On-Line – Os jovens que não estudam e não trabalham são ressentidos por não conseguirem ascender ao consumo?

André Langer – Não diria que são ressentidos. Ainda que não tenha sido propriamente uma atenção na pesquisa, percebe-se que, independentemente das condições econômicas, eles são tentados pelas facilidades do consumo. Se tivessem condições, certamente consumiriam mais. Em sua maioria, circulam pelas grandes “catedrais” do consumo, têm telefone celular, assistem à televisão. Ou seja, eles não estão fora da sociedade. Pelo contrário, pode-se mesmo dizer que são inseridos não mais via trabalho, mas via consumo, pela facilidade de crédito e pela espessa onda de propaganda que pesa permanentemente sobre eles. Mesmo assim, o fato de muitos já terem as responsabilidades próprias dos adultos, pois boa parte já são pais, o consumismo é atenuado. Mas, a renda familiar muito baixa foi reclamação de mais de um jovem, pois inibe o acesso até mesmo aos lazeres mais básicos, como visitar parentes, ir a parques…

IHU On-Line – Em que instituições esses jovens ainda acreditam e em quais não acreditam? É possível falar em alguma instituição que ainda se constitui como referência importante para eles?

André Langer – Sim. Eles dão grande importância à família, não àquela família tradicional, mas aos arranjos familiares concretos e múltiplos em que vivem. Ela se constitui em base para as diversas estratégias que desenvolvem para viver e correr atrás dos seus sonhos. Em meio à crise de credibilidade do Estado, da escola e do trabalho, bem como de muitas outras instâncias sociais de coletivização, o grupo familiar torna-se referência e “âncora” para as suas incursões no “mundo lá fora”, mas também espaço de vivência de afetos, sentimentos e cultivo de valores.

IHU On-Line – O senhor optou trabalhar com o conceito de “jovem pobre”, e não “jovem excluído”. Qual a razão dessa opção e distinção entre os conceitos?

André Langer – Ao trabalhar com o conceito de jovem pobre, queríamos retomar, por um lado, a longa história do conceito de pobreza, não, evidentemente, na concepção que lhe dão os organismos internacionais (Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional). Eles são pobres como seus pais foram pobres. São trabalhadores e pobres, ou melhor, trabalhadores e empobrecidos. Por outro lado, o conceito de exclusão não dá conta da complexidade da realidade ao reduzir, de modo geral, a exclusão ao âmbito econômico, da produção. Como vimos, os jovens são tentados hoje pelas promessas de consumo, e não se pode dizer que, sob este ponto de vista, estejam excluídos. Mas, há uma razão mais de fundo, segundo a qual não há nada que seja exterior ao atual sistema capitalista. Tudo está dentro dele e, portanto, as resistências e alternativas também vão se construir a partir de dentro dele.

IHU On-Line – O senhor afirma que nem todos eles têm como projeto de vida ter um emprego, como assim? Com que esses jovens sonham, quais são os seus projetos de vida?

André Langer – Há situações em que eles renunciam, sim, a ter um emprego. Novamente, as estratégias que desenvolvem são variadas. Há uma questão de fundo que tem a ver com a carreira profissional e com o que ela pode ou poderia oferecer. Como praticamente todos eles têm uma relação precária com o trabalho, não conseguem desenvolver a ideia de carreira. Cada trabalho é, de modo geral, uma experiência separada e distinta da anterior, razão pela qual não se “afeiçoam” ao trabalho como as gerações anteriores. Neste contexto, há outras atividades, prazerosas, livres e doadoras de reconhecimento social, que suplantam o desejo de ter um emprego monótono, chato, sem criatividade, heterônomo.

Isso não quer dizer que eles se neguem a trabalhar. Mas, tem-se a impressão de que procuram nos empregos não mais fundamentalmente o que as gerações maiores e anteriores procuravam encontrar nele. Suspeitamos que estejam procedendo – silenciosamente – a uma distinção no interior da noção de emprego, assim como a conhecemos nos últimos séculos. Pensando em termos arendtianos, estariam distinguindo o “labor” do “trabalho”, procurando nos empregos não mais a satisfação, o que em vista da realidade concreta dos trabalhos que têm não consegue mais oferecer, mas o que ele proporciona em termos de sobrevivência, a remuneração. E a vida está em outros lugares, em outras atividades. O trabalho precário seria um trabalho desinvestido.

(Ecodebate, 11/01/2010) publicado pelo IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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