Pesquisas relacionam o aumento da temperatura média ao surgimento e ao aumento de casos de doenças

O pesquisador Ulisses Confalonieri, do Programa de Mudanças Ambientais Globais e Saúde da Ensp/Fiocruz, que integra o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC)
O pesquisador Ulisses Confalonieri, do Programa de Mudanças Ambientais Globais e Saúde da Ensp/Fiocruz, que integra o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC)

Os cenários projetados para o fim deste século, do mais otimista ao mais pessimista, sinalizam para o aumento da temperatura média mundial, com consequências graves para os países de todos os continentes. Por isso, líderes de 193 países estiveram reunidos em Copenhague, na Dinamarca, na 15ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-15). A busca por uma nova agenda mundial de baixo carbono exige ampla reestruturação de investimentos socioeconômicos e reformulação do modo de vida das sociedades, mais próximos, tanto quanto possível, da chamada sustentabilidade.

Há alguns anos, pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) se debruçam sobre o tema relacionando o aumento da temperatura média ao surgimento e ao aumento de casos de doenças, como leptospirose e dengue, e problemas de insegurança alimentar, resultantes de eventos meteorológicos extremos. A preocupação da Escola com o tema também se reflete na consolidação do programa de Pós-Graduação em Saúde Pública e Meio Ambiente, na realização de centros de estudos e sessões científicas há vários anos. O pesquisador Ulisses Confalonieri, do Programa de Mudanças Ambientais Globais e Saúde da Ensp, que integra o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC), fala das pesquisas que estão sendo realizadas sobre as mudanças climáticas e das previsões para a saúde da população brasileira.

Quais as consequências para a saúde que podemos esperar em relação às mudanças climáticas que estão em curso e o que podemos fazer?
Ulisses Confalonieri:
As mudanças climáticas afetarão a saúde de várias formas: diretamente, com efeitos físicos de eventos meteorológicos extremos, como ondas de calor, inundações; e indiretamente, com aumento da insegurança alimentar, efeitos nas populações de vetores de doenças, entre outros. O que pode ser feito de imediato é o desenho de prioridades, em termos de políticas sociais e de proteção e promoção da saúde, que reduzam as vulnerabilidades socioambientais e de saúde. Uma população afetada por problemas de saúde sensíveis ao clima é uma população vulnerável. Os números do IPCC não têm caráter alarmista, apenas indicam a gravidade das alterações ambientais esperadas para as próximas décadas, com consequências para a economia e a saúde pública mundial. No campo da saúde, por exemplo, os estudos indicam que doenças hoje frequentes nas regiões tropicais do planeta como a dengue podem se espalhar para outras áreas do globo, elevando de 2,5 bilhões para 3,5 bilhões o número de pessoas vivendo em zonas com risco de contrair a enfermidade. Os casos de dengue devem aumentar em países que já convivem com a doença, sendo esse o caso do Brasil. Uma elevação na temperatura média do planeta até o final do século, como previsto nos cenários mais pessimistas do IPCC, pode reduzir a disponibilidade de alimentos e levar mais de 530 milhões de pessoas a passar fome. Calcula-se também que 3,2 bilhões de indivíduos venham a enfrentar escassez de água, enquanto 20% da população mundial passará a viver em zonas sujeitas a enchentes.

Em relação ao estudo Economia das Mudanças Climáticas no Brasil, que servirá de base para o Plano Nacional sobre Mudanças do Clima, quais os pontos que você poderia destacar?
Ulisses Confalonieri:
Destaco o caráter pioneiro do estudo pelo seu tema e por sua abrangência. Ao que me consta, nenhum país em desenvolvimento fez um estudo desse tipo, de caráter multidisciplinar. Esse estudo servirá como base sólida para estudos posteriores, visando atualizações. O estudo foi capaz de mostrar os impactos negativos futuros da mudança do clima na economia e na sociedade brasileira.

Em relação ao subprojeto de vulnerabilidade da região Nordeste, você poderia pontuar alguns comentários?
Ulisses Confalonieri:
Reunimos indicadores regionalmente importantes de saúde (doenças infecciosas e parasitárias, desnutrição, diarreias, entre outras), de meio ambiente (desertificação), econômico-demográficos e climáticos. O referencial conceitual baseou-se na premissa de que o ressecamento (piora na condição de semiaridez) projetado pelos cenários de clima para a região provocará grandes migrações, com impactos epidemiológicos (redistribuição espacial de doenças endêmicas) e na procura pelos serviços de saúde. As projeções climáticas apontam o semiárido como uma das áreas mais vulneráveis às mudanças climáticas no Brasil. Diminuição da frequência de chuvas, solos mais pobres, vegetação com menor diversidade biológica estão entre as previsões para a região. Alguns lugares podem se tornar inabitáveis.

Uma área especialmente vulnerável é a da saúde. Qual é o cenário previsto para o Brasil?
Ulisses Confalonieri:
No caso brasileiro, espera-se uma redução na diferença entre as temperaturas do inverno e as do verão. Invernos mais quentes favoreceriam a reprodução de insetos transmissores de doenças, como a malária e a leishmaniose, que podem se tornar mais frequentes. Também se prevê o aumento de enfermidades transmitidas pela água, como a diarreia e a leptospirose. Em uma região economicamente frágil como o semiárido nordestino, por exemplo, a redução da produção agrícola e a falta de trabalho podem desencadear importantes ondas migratórias. Esse rearranjo populacional demandará empenho e rapidez das autoridades municipais, estaduais e federais para tomar medidas de adaptação, como a construção de cisternas para amenizar a falta d’água e o desenvolvimento de culturas mais resistentes à seca para enfrentar as mudanças climáticas. No cenário mais drástico, as mudanças climáticas podem provocar uma redução média de 11,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do Nordeste até 2050. Essa perda associada às alterações no clima equivale a 2 anos de crescimento da economia da região no período 2000-2005. O impacto das mudanças climáticas sobre a vida das pessoas deve aumentar os gastos municipais e estaduais com saúde e assistência social. A necessidade de investimento nessas áreas pode ainda ser ampliada por outro fator: o envelhecimento da população, consequência da queda na fecundidade e do aumento da longevidade. Na América Latina, o aumento da temperatura pode provocar, na Amazônia, um fenômeno chamado savanização: a transformação de parte da floresta, hoje formada por uma vegetação densa, rica e altiva, em uma vegetação mais aberta, baixa e rala, que lembra um cerrado empobrecido.

Atualmente, você está trabalhando com indicadores de vulnerabilidade para o Estado do Rio de Janeiro, os quais incluem questões da saúde. Você poderia destacar as questões mais relevantes?
Ulisses Confalonieri:
É um aperfeiçoamento do projeto anterior (nordeste brasileiro) em termos de metodologia, pois incorporamos novas variáveis e estamos trabalhando com indicadores para cada município do estado. Será uma avaliação integrada da vulnerabilidade, levando em conta cenários de clima, histórico de eventos extremos, dados socioeconômicos e de saúde e indicadores ambientais (ex-riqueza biológica).

Em relação ao IPCC, de que maneira os países em desenvolvimento poderão participar mais das discussões capitaneadas pelo grupo? Já existe alguma indicação?
Ulisses Confalonieri:
Já houve uma iniciativa recente que reuniu, no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), pesquisadores de vários países em desenvolvimento, visando discutir a participação mais intensa dos mesmos no grupo II do IPCC (Impactos, Adaptação, Vulnerabilidade). A agenda de mudanças climáticas dos países em desenvolvimento é diferente daquelas dos países desenvolvidos por conta de sua maior vulnerabilidade e menor capacidade adaptativa. Há também diferenças relativas às capacidades dos sistemas nacionais de ciência e tecnologia.

Sobre o TDR, segundo você mesmo falou, um grupo de especialistas está discutindo as mudanças climáticas e a transmissão de doenças por vetores. Você poderia falar um pouco mais sobre isso?
Ulisses Confalonieri:
A mudança climática é uma realidade atual e será mais impactante ainda no futuro. Então, o TDR, que é um programa tradicional da Organização Mundial da Saúde, precisou fazer uma atualização da sua agenda de trabalho, pois as mudanças do clima afetam as doenças transmitidas por vetores. O programa TDR precisa se ajustar a isso, ou seja, há uma nova realidade ambiental que transformará sistemas biológicos e sociais e, portanto, as condições de saúde. Um relatório dessa reunião, realizada no início de dezembro, será divulgado em breve.

Informe Ensp, Agência Fiocruz de Notícias, publicado pelo EcoDebate, 19/12/2009

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