Adolescentes caiçaras de Paraty cobram escolas e transporte escolar. Crianças são alfabetizadas pelos pais

Paraty (RJ) - Na varanda de casa, na região conhecida como Saco das Anchovas, um pequeno vilarejo da região costeira de Paraty, a menina Júlia Gomes Silva dos Remédios, 9 anos, mostra seu caderno com as primeiras palavras que aprendeu a escrever com a mãe, uma dona de casa que completou a 4º série do ensino fundamental Foto: Marcello Casal Jr/ABr
Paraty (RJ) – Na varanda de casa, na região conhecida como Saco das Anchovas, um pequeno vilarejo da região costeira de Paraty, a menina Júlia Gomes Silva dos Remédios, 9 anos, mostra seu caderno com as primeiras palavras que aprendeu a escrever com a mãe, uma dona de casa que completou a 4º série do ensino fundamental Foto: Marcello Casal Jr/ABr

Em pequeno vilarejo caiçara crianças são alfabetizadas pelos pais e secretária de Paraty diz que responsabilidade por escolas básicas é do governo estadual

Rafaela de Souza Nascimento e Célia dos Santos Conceição, ambas de 13 anos, se dividem entre as brincadeiras à beira da praia, afazeres domésticos e pequenos bicos como babá, quase todos os dias. A rotina delas só é diferente às terça-feiras, quando têm aulas durante duas horas, na varanda de um pequeno bar, onde aprendem lições da 5ª série do ensino fundamental.

As adolescentes moram na comunidade Pouso da Cajaíba, na região costeira de Paraty, sul fluminense, e estão há dois anos sem estudar. Isso porque na comunidade, acessível somente por barco, a escola só atende de 1ª a 4ª série. Sem dinheiro para viver na cidade, a única saída delas foi convencer a professora da escola, que voluntariamente ensina um grupo de quatro meninas, em uma das mesas do pequeno bar.

De acordo com o Conselho Tutelar de Paraty, as meninas integram um grupo de cerca de 60 jovens que estão sem estudar na comunidade. Como são muitas as crianças sem escola, “não tem como ela [professora] dar aulas para todo mundo”, acrescenta Célia.

O presidente da associação de moradores da praia, Francisco Sobrinho, conta que todos os anos cobra do município a integralidade do ensino na comunidade, conforme determina a Constituição Federal. O pescador sonha com uma escola modelo que valorize a tradição caiçara – própria da região – e ensine formas de melhorar o turismo. No entanto, diz que o transporte escolar, até Paraty, inclusive para o ensino médio, ajudaria enquanto a escola não tem previsão de ser ampliada.

“Temos soluções. Queremos uma escola, o ideal, devido ao grande número de alunos do Pouso da Cajaíba e de outras praias próximas. Mas até a escola ficar pronta, a prefeitura pode oferecer transporte escolar, capacitar um adulto com um nível de instrução melhor para dar aulas ou, pelo menos, pagar a professora para ensinar todo mundo”, sugere.

Para Francisco, é frustrante ouvir das meninas que a perspectiva de vida delas é “ajudar os futuros maridos com as redes de arrasto”. Na opinião dele, as atividades tradicionais devem ser uma opção, não o único destino da garotada. “Com os grandes barcos, o peixe está acabando. O que será delas então?”, questiona. “O turismo está desordenado, traz drogas, lixo e prostituição. Queremos educação para viver aqui, mas viver melhor”, afirma.

De acordo com o Conselho Tutelar de Paraty, além do Pouso da Cajaíba, adolescentes estão fora da escola em mais seis comunidades costeiras, onde o acesso é também feito por meio de barcos. Em alguns vilarejos é possível chegar à pé, após caminhadas entre duas e dez horas, como é o caso da Praia do Sono, onde um condomínio de luxo ainda dificulta o acesso dos moradores caiçaras.

Em pequeno vilarejo caiçara de Paraty, crianças são alfabetizadas pelos pais

Na varanda de casa, no alto da encosta de uma região conhecida como Saco das Anchovas, um pequeno vilarejo da região costeira de Paraty, a menina Júlia Gomes Silva dos Remédios, 9 anos, mostra seu caderno com as primeiras palavras que aprendeu a escrever com a mãe, uma dona de casa que completou a 4a série do ensino fundamental.

A família da menina vive em uma tradicional comunidade caiçara, onde os barcos ainda são feitos de madeira e a principal fonte de renda é a pesca. Lá, há gerações esperam a chegada de uma escola, para qual até um terreno foi destinado.“Essas promessas são feitas em época de eleição. Depois, acaba tudo”, reclama o pescador Pedro dos Remédios, 45 anos, tio da menina.

De acordo com levantamento do Conselho Tutelar de Paraty, o Saco das Anchovas é uma das sete comunidades da costa nas quais cerca de 30 crianças de até 12 anos estão fora da escola. A pesquisa foi feita em julho e apresentada à prefeitura, que não se entende com o governo estadual para definir de quem é a responsabilidade por novas escolas ou pelo transporte escolar até a cidade.

Diante do problema, as crianças do Saco das Anchovas são alfabetizadas pelas mães. A dona de casa Joelma dos Remédios, 39 anos, mesmo só tendo concluído a 3º série do fundamental, ensinou letras e números aos nove filhos, atualmente, com idades entre 11 e 26 anos. Na mesa da cozinha, enquanto fazia bolo e café, conta que usava livros e cadernos que o marido Pedro, analfabeto, trazia de Paraty.

A dona de casa tem consciência que pode ensinar muito aos filhos e sobrinhos, mesmo sabendo pouco de matemática e português. Joelma reconhece, no entanto, que um professor tem mais condições de preparar as crianças. “Nem sempre a gente tem tempo para dar atenção. Tenho outras tarefas da casa, da horta, tem que ajudar o marido com o peixe. E também não sei muito para passar.Chega uma hora que não dá mais” .

A solução para comunidade, de acordo com as famílias, seria um professor que pudesse ficar no local ou passasse temporadas na comunidade, já que o acesso de barcos, às vezes, é prejudicado com as condições do mar, nem sempre favoráveis. “Não vamos mandar nossos filhos pequenos para cidade, não tem condição. Minha filha de 18 anos só saiu para casar. Se viesse um professor aqui, nem que fosse de 15 em 15 dias, uma vez na semana, seria bem melhor”, afirma a dona de casa.

Com uma pequena escola no vilarejo, o pai da menina Júlia, Cláudio dos Remédios, 38 anos, acredita que os adultos, cerca de dez moradores, a maioria de analfabetos, também poderia estudar. “Nasci aqui assim e vou ficando. Queria saber ler e escrever. Isso faz muita falta, principalmente para tirar um documento, resolver as coisas na cidade. Se tivesse um professor aqui, eu podia aprender também, mesmo que fosse à noite”.

“Não sabemos por que somos tão invisíveis, por que aqui não tem nem professor, nem escola, nem barco nem nada”, questiona.

Responsabilidade por escolas básicas é do governo estadual, diz secretária de Paraty

A falta de entendimento entre o governo estadual e a prefeitura de Paraty deixa mais de 100 crianças e adolescentes sem escola na região costeira do município, no sul fluminense. De acordo com levantamento do Conselho Tutelar, os jovens passam os dias em casa ou fazendo bicos. Com avanço do turismo na região, os conselheiros alertam que eles estão vulneráveis às drogas e à exploração sexual.

Segundo o levantamento do conselho, 98 jovens com mais de 12 anos estão sem estudar na Praia do Sono, Pouso da Cajaíba e Ponta Negra. Nessas comunidades a unidade escolar só atende de 1ª a 4ª série. Mais 28 crianças não têm nenhum tipo de escola em Caiuruçu das Pedras, Ponta da Rombuda, Saco das Anchovas, Ponta da Juatinga, Ipanema, Calhaus e Saco das Sardinhas.

A secretária de Educação de Paraty, Elizete Malvão, informa que ampliação do ensino fundamental de 5ª ao 9ºano e a oferta de ensino médio nas comunidades foi transferido para o governo estadual, por meio de um acordo. Ao citar a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), lembra que a legislação permite formas de colaboração ente os governos para assegurar o ensino fundamental.

“De 5ª não é responsabilidade do município, mas sim do estado, dentro do acordo”, afirmou. Sobre a parceria, diz que não sabe quando foi feita porque só está no cargo há um ano. “Tenho que ver toda a papelada para te passar. Isso não é recente, é de quando a lei foi criada. Não era secretária à época e não posso te explicar”.

De acordo com Elizete, para instalar as escolas de 5ª ano, mesmo na zona urbana é preciso enfrentar o deficit de professores. O alto custo de vida na cidade e os baixos salários afastam candidatos às vagas, explicou. “O professor que eu poderia aproveitar não quer ficar lá [na região costeira]. Na cidade, ele tem como ter outras fontes de renda”.

Um concurso exclusivo para a região seria necessário para efetivar professores nas localidades, como é feito em Angra dos Reis para a região da Ilha Grande, disse Elizete. No entanto, como recentemente uma seleção pública foi realizada, não há previsões de contratação. “Isso vai depender do prefeito. Mas eu vou pedir para que o concurso seja para a costeira.”

Elizete ainda justificou a falta de escolas em pelo menos sete comunidades esclarecendo que as condições do mar impedem a passagem de barcos para o transporte das crianças. “Tem comunidade em mar aberto e lá tudo vira de hora em hora.”

Ao comentar a decisão da comundiade da Praia do Sono, que chegou a pagar barcos para levar os alunos até Paraty, durante um perído, Elizete disse que “acha bom o pai ter a responsabilidade de colocar o filho na escola”. Segundo ela, as famílias caiçaras também não querem ver os filhos na cidade e isso dificulta a escolarização. “Eles têm medo de os meninos saírem lá do mundinho deles”.

Por meio da assessoria de imprensa, a Secretaria de Educação do Rio de Janeiro disse que desconhece o acordo com Paraty e respondeu que mantém três escolas de ensino médio na cidade, onde alunos podem ser matriculados. O órgão não informou, no entanto, como as crianças e adolescentes fariam para sair das praias e chegar às unidades, sem a oferta de transporte escolar.

A Justiça Estadual em Paraty acompanha o problema da falta de escolas. A juíza Admara Schneider promove reuniões desde o começo do ano com representantes do Executivo para resolver a questão, que também se estende em regiões rurais. No entanto, esclarece que sem ser provocada pelo Ministério Público não pode tomar outras providências.

Reportagem de Isabela Vieira, da Agência Brasil, publicada pelo EcoDebate, 14/12/2009

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