Fazer o que? artigo de Montserrat Martins

[EcoDebate] Olhares e mãos aflitas nos pedem que aceitemos os panfletos que nos entregam – pois foi o emprego que conseguiram – mesmo que seja só para colocarmos os papéis no lixo mais próximo. Para pessoas com consciência social e ambiental, isso cria mais um pequeno conflito de consciência, que é o desperdício de papéis não reciclados para finalidades muito passageiras. A mesma dúvida entre pegar as sacolas de plástico nas compras e reaproveitá-las como sacos de lixo, ou levar sacolas de pano, entre tantas preocupações do dia-a-dia de quem quer “fazer a sua parte”.

Informações graves sobre problemas ambientais e climáticos, como os debatidos agora em Copenhague, geram preocupações cotidianas nos que vem recebendo educação ambiental desde pequenos, nas escolas. Há um termo, inclusive, para designar o comportamento dos mais angustiados, chamados pejorativamente de “ecochatos” por cobrarem dos outros atitudes tão cuidadosas (e até detalhistas) como as suas.

Racionalmente, sabemos que a solução depende de cada um fazer a sua parte. Mas não é justo “torturarmos” a consciência das novas gerações com detalhes “ambientalmente corretos”, sem que cobremos atitudes concretas daqueles a quem caberia zelar pelo conjunto da sociedade. Afinal, se é justificável em livros didáticos ou revistas de valor cultural uma boa qualidade de impressão, não haveria uma solução melhor para os panfletos – como, por exemplo, regulamentar que sejam com papéis reciclados e indicações de sites para os interessados? E as notícias sobre plásticos “oxibiodegradáveis” tem algum fundamento, no sentido de que representam alguma “redução de dano” ao menos? Existem perspectivas de criação de formas de materiais que correspondam a estas expectativas ?

As responsabilidades devem ser entendidas como proporcionais à capacidade de cada um em contribuir nas soluções dos problemas de todos. Se o custo do consumo de álcool combustível é maior que o da gasolina, podemos exigir das pessoas que prejudiquem o seu orçamento familiar para usar o combustível menos poluente? Podemos exigir o tratamento de resíduos se não viabilizamos incentivos para a fabricação de filtros químicos, a preços acessíveis às outras indústrias ?

As campanhas tipo “faça a sua parte”, requerem a inclusão das pautas de Copenhague em todos os níveis de governo e de entidades empresariais. Só com planejamentos de médio e longo prazos, prevendo a evolução de nossos modelos de produção, podemos fazer mais do que criar jovens angustiados com um futuro que foge ao seu controle. Para que possamos fazer campanhas pelo “consumo consciente” é preciso que as autoridades e lideranças sociais possam, enfim, oferecer alternativas viáveis ao público, para que esse possa se aliviar em saber que pode fazer a diferença, mesmo – e que suas angústias valham a pena, afinal.

Montserrat Martins, Psiquiatra, é colaborador e articulista do Ecodebate.

EcoDebate, 11/12/2009

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  1. Plásticos oxi-biodegradáveis são normalmente testados segundo a ASTM D6954-04 – Guia Padrão de Exposição e Testes de Plásticos – que degradam no meio ambiente por combinação de Oxidação e Biodegradação.Existem dois tipos de Normas: Guias e Especificações padrão. A ASTM 6954-04 foi desenvolvida pela organização de padrões norte-americano, e sua segunda etapa refere-se especificamente à biodegradação. Os testes de acordo com a ASTM D6954-04 informam à indústria e aos consumidores o que eles precisam saber – se o plástico é (a) degradável (b) biodegradável e (c) não eco-tóxico. Professor GERALD SCOTT DSc, FRSC, CChem, FIMMM
    Professor Emérito de Química e Ciência de polímeros pela Universidade de Aston, Reino Unido

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