A base econômico-agrária do Baixo Parnaíba, artigo de Mayron Régis

[EcoDebate] Bem, o que se quer mesmo? O alimento para o espírito e o alimento para o corpo disputam as razões humanas com vitórias em quase todos os momentos para o segundo. Parafraseando Machado de Assis, ao vencedor os grãos de soja ou os espécimes de eucalipto. A base econômico-agrária dos estados brasileiros sucumbiu a uma variedade ou outra de monocultura, mas esse acontecimento já se imortalizou faz um bom tempo. Referencia-se base econômico-agrária no modo de produção, para que e para quem se destina essa produção e quem e onde se produz.

A base econômico-agrária sempre foi agro-exportadora. Enquanto a Europa, ou parte dela, industrializava-se graças ao acumulo de capitais vindos da América, da África e da Ásia, países como o Brasil se condicionavam à produção de poucos produtos agrícolas e à importação de bens industrializados. O Brasil jamais gerou excedente de riquezas razoável que permitisse o acirramento do conhecimento cientifico e humano e que amparasse as indústrias capengas que estavam incubadas em alguma área urbana desse país tropical.

Grassava, na mente de quem quer que fosse, tanto internamente como externamente, que o Brasil, por ser terra inóspita ou terra de índio, oportunizava apenas a extração de madeira, a mineração, a escravidão e o plantio de cana. De qualquer ponto de vista, do menos razoável ao mais razoável, os sinais emitidos pela economia brasileira prosseguiam num rumo que tudo era uma questão de tempo para os resultados pífios se eternizarem. As próprias condições em que se encontrava o Brasil-Colônia, abortavam quaisquer intenções de caprichar por parte das elites nativas.

Essa falta de capricho para com a coisa pública incidiu em todas as áreas da vida pública na história brasileira e ainda incide na história recente como se depreende da falta de investimentos por parte do Estado em saúde e educação. Entrementes a isso, o Estado zela pela burocracia e pela sua imagem nesses dois setores tanto que investe consideráveis somas para contratar mais funcionários e pagar propaganda em meios de comunicação. E a burocracia zela pelo Estado, o seu provedor. O Estado pode ser tanto uma figura jurídica, uma figura de retórica como uma representação dos anseios e dos esconjuros da sociedade.

A sociedade brasileira quer saúde e educação públicas de boa qualidade, assim como alimentação, transporte e etc., mas as décadas pós anos 60 se mostraram e se mostram paradigmáticos em soluções de mercado adotadas pelo Estado para qualquer situação. A alimentação, que se correlaciona com saúde e educação, é um desses casos e tem a ver com a base econômico-agrária altamente dependente do mercado de commodities.

O que levou essa base a girar conforme a determinação do mercado foi o processo de privatização dos recursos naturais engendrado pelas instituições de financiamento multilaterais para os países em desenvolvimento. As referências históricas e as referências urgentes da base econômico-agrária brasileira decalcam do modo de produção capitalista estes aspectos: o para que e para quem se destina essa produção e para quem e onde se produz.

A produção em larga escala de commodities pelo Brasil é menos um processo natural que diminuiria a fome no mundo e mais um processo industrial que assegura outros processos industriais. Completamente previsível que os plantios de soja e de outras monoculturas nos Cerrados maranhenses causem impactos na biodiversidade e na saúde humana. A base econômico-agrária nessa região aliava produção de arroz, criação de animais e coleta de frutos e isso perdurou durante séculos. O plantio de monoculturas força o convívio das populações tradicionais com produtos químicos e seduz essas populações para o consumo de bens industrializados.

O Fórum Carajás, em conjunto com o CAPAAM, a Associação de Parteiras e a Associação de Moradores do Povoado de São Raimundo, fincou vários projetos no município de Urbano Santos com a proposta de sensibilizar as comunidades sobre a biodiversidade do Cerrado e o que isso representa para a saúde pública e para a segurança alimentar das populações tradicionais. Esses projetos contam com apoio do CASA (Centro de Apoio Sócio-Ambiental), da CESE e da ASW.

Mayron Régis, jornalista do Fórum Carajás, é colaborador e articulista do EcoDebate

** Esse texto faz parte do programa Territórios Livres do Baixo Parnaíba, apoiado pela ICCO e realizado de forma conjunta com a SMDH, CCN e Fórum em Defesa do Baixo

EcoDebate, 11/12/2009

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