De Seattle à crise global, artigo de Josep Maria Antentas y Esther Vivas

Manifestantes enfrentam a polícia, durante as manifestações antiglobalização em Seatle, Nov. 30, 1999
Manifestantes enfrentam a polícia, durante as manifestações antiglobalização em Seatle, Nov. 30, 1999

[EcoDebate] Há dez anos os protestos em Seattle durante o Encontro Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) sacudiam o mundo, marcando a abrupta irrupção do que se conheceria como movimento “antiglobalização”. A crítica à globalização, apesar de pouco visível para o grande público, vem de longe, tendo seu início simbólico com o levante zapatista de 1º de janeiro de 1994.

O décimo aniversário de Seattle chega às vésperas da Cúpula Mundial do Clima, em Copenhague. A mobilização para ambos encontros tem uma lógica diferente. Na primeira, buscava-se bloquear as políticas de uma instituição cuja legitimidade era contestada. Na segunda, tenta-se forçar a adoção de medidas reais frente às mudanças climáticas. Porém, por trás de tudo subjaz a mesma preocupação: a imperiosa necessidade de uma mudança de modelo.

Com a irrupção da onda “antiglobalizadora”, milhares de pessoas se identificaram com os protestos emergentes e tiveram a sensação de fazer parte de um mesmo movimento e partilhar objetivos comuns. Parecia que cada vez mais setores começavam a ver seus problemas concretos a partir de uma ótica global e a percebê-los, difusamente, como parte de um processo mais geral.

O lançamento do Fórum Social Mundial (FSM) permitiu a afirmação de um espaço simbólico de convergência das solidariedades e de uma referência das lutas sociais. Seu slogan ‘Outro Mundo É Possível’ converteu-se no símbolo do renascer do questionamento da ordem existente e das expectativas de mudança social. Ficavam para trás as teses do “fim da história” e a codificação do neoliberalismo como a única política e visão de mundo possíveis.

Os protestos “antiglobalização” significaram o retorno da mobilização social; porém, remontando desde níveis muito baixos, após o apogeu neoliberal, no começo dos anos 90. Conseguiram canalizar o mal estar frente ao neoliberalismo e contribuir para a sua erosão no terreno simbólico e ideológico. O movimento desgastou a legitimidade das instituições internacionais; porém, apenas obteve vitórias significativas. Forçou mudanças de discurso, medidas retóricas e pouco mais; porém, não transformações de fundo, nem a paralisação da lógica imperante devido à muito desfavorável correlação de forças existente em escala global.

Depois de um grande primeiro período marcado pela centralidade e visibilidade dos protestos “antiglobalização”, primeiro; e “antiguerra”, depois, as lutas sociais tenderam a uma maior dispersão e fragmentação. A imagem de um movimento internacional coordenado, que atuava como pólo de atração e de referência, desapareceu. Este afrontou uma forte crise de perspectivas e crescentes dilemas estratégicos na medida em que o impulso inicial se esgotava.

O processo do FSM perdeu impacto, influência e utilidade concreta aparente. Uma vez passado o efeito de novidade, o interesse por ele decresceu e experimentou tendências à rotina e ao distanciamento das lutas sociais devido à perda de impulso do movimento desde a base. No entanto, o FSM continua sendo o espaço de confluência internacional mais amplo e reconhecido e uma plataforma de referência que pode permitir novos saltos no futuro.

A perda de visibilidade do movimento não significou um retrocesso das lutas sociais; porém, sim, o fim de um certo otimismo “antiglobalizador” nascido após Seattle. Em termos gerais, as lutas sociais nesses últimos anos têm tido uma lógica globalmente defensiva e não conseguiram vitórias que permitiram acumular forças solidamente e romper seu caráter descontínuo e instável. A exceção tem sido a América Latina onde a crise do modelo neoliberal tem sido profunda e a ascensão dos movimentos populares tem sido significativa, apesar de que a situação no continente parece incerta.

Mudar o mundo tem se revelado nesses dez anos como uma tarefa muito mais difícil do que a maioria dos manifestantes em Seattle imaginou. O movimento tem se confrontado com novas provas e desafios. Se no começo dominava a sensação de que o movimento social era suficiente por si mesmo, progressivamente, têm emergido de forma débil e nem sempre coerente os limites do “movimentismo” e a necessidade de avançar também na articulação de uma referência política ligada às lutas. As visões com respeito ao Estado e ao poder político têm se tornado mais complexos na medida em que constatavam as dificuldades das lutas sociais, se enfrentava uma direita e a ofensiva desde o poder em muitos países e entravam em cena as experiências latinoamericanas, com seus limites e contradições.

Uma década depois de Seattle, a situação é paradoxal. Ante o fracasso do atual sistema, sintetizado na “grande crise” que explodiu no ano passado, as razões do movimento “antiglobalização” tem se mostrado plenamente pertinentes. Possível ou não, outro mundo é mais do que nuca necessário. Porém, a distância entre fins e meios é espantosa. E a capacidade para traduzir mal estar em organização e ação coletiva tem se mostrado débil e descontínua.

A crise atual tem distintas saídas possíveis e seu desenlace permanece aberto. Nas palavras do filósofo Daniel Bensaïd “a questão é saber a que preço e a custas de quem pode ser resolvida. A resposta não pertence à crítica da economia política; mas, à luta de classes e a seus atores políticos e sociais”. Aí é onde entram os desafios presentes e futuros dos movimentos sociais.

[Ambos são autores do livro ‘Resistencias Globales. De Seattle a la crisis de Wall Street’ (Editorial Popular).

* Esther Vivas, autora “Del campo al plato” (Icaria, 2009), co-autora de “Supermecados, no gracias” (Icaria editorial, 2007) e membro do Centro de Estudios sobre Movimientos Sociales (CEMS) – Universitat Pompeu Fabra, colaboradora internacional do EcoDebate.

** Artigo enviado pela Autora e originalmente publicado em espanhol em Público, 30/11/09. Tradução: ADITAL.

EcoDebate, 04/12/2009

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