O rap de Salvaterra na audiência de Rosário, artigo de Mayron Régis

[EcoDebate] Há um processo de mistificação de fatos e figuras ligadas á realidade político-social e econômica brasileira e há um processo de mitificar certas características consideradas inerentes dentro do substrato cultural brasileiro. As elites e as classes médias brasileiras propõem a mistificação e a mitificação como respostas “naturais” a momentos de imobilismo e de conflagração social, político, econômico e ambiental. Qualquer semelhança com o atual estágio por que passa a sociedade brasileira não é mera coincidência. A mistificação e a mitificação de parte da realidade compreendem construções estéticas que geralmente são construções que apelam para o sentido da visão.

A força do estético na sociedade moderna sugere o esvaziamento da cultura cívica que caracterizou a república como ideal a ser construído. A sociedade simplesmente se cansou dos discursos e das velhas práticas políticas ou estrebucham outras questões em meio a esse esvaziamento? Por mais inventivas que sejam as novas tecnologias a imagem não existe por si só e por mais riqueza de detalhes que consiga num enquadramento a perspectiva não existe por si só.

Em determinado trecho do filme “Rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas”, a câmera visualiza três indivíduos mascarados que são entrevistados por um repórter sobre a violência e a miséria dos altos de Recife. Esse filme foi dirigido por Paulo Caldas no ano de 2000 e Alcino leite Neto, jornalista da Folha de São Paulo, discernia em o “rap…” um arguto momento do cinema brasileiro que implicava duas opções: “A primeira implica fazer um recorte singular e, sobretudo, necessário da nossa realidade para os brasileiros. A segunda significa reinventar o cinema do país como linguagem de referência para os jovens espectadores”.

Nenhuma coisa e nem outra. A entrevista concedida pelos três mascarados “mata” quaisquer expectativas quanto a um processo estético que permita a um sujeito coletivo uma apreensão critica do real e da realidade a partir de suas próprias leituras. O máximo de apreensão do real que o sistema capitalista e a indústria cultural se atrevem a permitir ao um sujeito coletivo cabe num programa do Faustão nos dias de domingo.

Qualquer audiência pública ou reunião promovida pelos governos conta com uma equipe de assessoria de comunicação que filma, fotografa e entrevista. Os moradores do povoado de Salva Terra, município de Bacabeira, em plena audiência pública sobre a refinaria da Petrobrás, denunciaram a Secretaria de Indústria e Comércio do Maranhão pelos traumas que ela vem causando a essa comunidade desde setembro de 2009 quando foram quase escorraçados de suas terras para morarem em galpões.

Numa divulgação do quanto a Petrobrás e o governo do estado são “democráticos” quanto aos interesses da população maranhense essas denúncias não pegariam bem. Então, as falas dos moradores na audiência permanecerão ou serão devidamente cortadas?

Mayron Régis, assessor de comunicação Fórum Carajás, é colaborador e articulista do EcoDebate.

EcoDebate, 12/11/2009

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