Indicadores de desenvolvimento que permeiam a qualidade ambiental e de vida, artigo de Carol Salsa

[EcoDebate] Os indicadores de desenvolvimento adotados durante quase todo o século XX ficaram reduzidos à dimensão econômica, sendo quantificados apenas em termos de riqueza gerada.

A relevância do papel desempenhado pelos indicadores sócio-ambientais e político-econômicos na formação da massa crítica de uma sociedade reside na constatação dos elementos que, na percepção da grande maioria, constituem fatores basilares do que se procura definir como “qualidade de vida”.

Para Mazetto, a qualidade de vida é de difícil definição, pois, muitas vezes, em relação ao fator físico ela é aceitável, não significando que no âmbito social ela também o seja. Além disso, esses fatores são mensurados de forma diferenciada no tempo e no espaço o que gera inúmeras qualidades ambientais e de vida. Torna-se necessário para se estabelecer uma qualidade de vida relacionar os fatores físicos, químicos, sociais, culturais, políticos, econômicos e antrópicos. Mazetto(1968) e Burton(1996) ressaltam que “ a qualidade de vida não pode estar restrita à natureza e ao ecossistema, pois engloba elementos da atividade humana e reflexos, direitos na vida do homem” .

Oliveira (1983) recorre à percepção, considerando-a como um fator imprescindível para se determinar a qualidade ambiental e de vida. Para ela, as condições de qualidade ambiental são muito subjetivas e serão boas ou ruins de acordo com o tipo e a situação da população em questão de como esta se relaciona e percebe o meio ambiente e a vida.

Desde 1947, quando os indicadores começaram a ser utilizados em escala mundial, busca-se substituir a ênfase dada ao crescimento econômico por novos conceitos, inserindo aspectos que se reportam ao nível adequado de qualidade de vida. O Produto Interno Bruto (PIB) reflete bem a primeira aferição, onde se procurou avaliar o desenvolvimento dos países pela quantidade de riqueza gerada, não levando em conta a concentração de renda, além de não garantir o bem-estar da população. Esse indicador, na verdade, pode mensurar atividades econômicas destrutivas e imorais, tratando-as como produtivas, o que certamente afeta a sua eficiência, principalmente quando decomposto no PIB per capita”, afirma a socióloga Selene Herculano, prof.ª da Universidade Federal Fluminense. Para ela, os “indicadores ambientais” são modelos que descrevem as formas de interação das atividades humanas com o meio ambiente, entendido este como: – fonte de recursos: minerais, energia, alimentos, matérias-primas em geral;

– depósito de rejeitos: lixo industrial e doméstico e efluentes líquidos e gasosos;

– suporte da vida humana e da biodiversidade.

O Índice de Desenvolvimento Humano – IDH fornece de modo insatisfatório uma noção de qualidade de vida, pois esta última envolve um conceito muito amplo para ser descrito somente por quatro fatores. O índice de área verde por habitante, por exemplo, relacionado ao lazer ou à saúde de pessoas não está inserido neste índice.

Os indicadores ambientais podem se referir:- ao estado físico ou biológico do mundo natural (indicadores de estado); às pressões das atividades humanas que causam modificações destes estados (indicadores de pressão); indicadores das medidas da política adotada como resposta a estas pressões, na busca da melhora do meio ambiente ou da mitigação da degradação (indicadores de resposta).

Segue exemplo de indicadores ambientais.

Problemas Indicador de Pressão Indicador de Estado Indicador de Respostas
Alterações climáticas Emissões de GHG Concentrações Medidas ambientais,

Intensidade de energia

A ONU, em 1990, iniciou a medição do desenvolvimento por outros critérios afastando-se do caráter restritivo do PIB, através do Índice de Desenvolvimento Humano.

O Índice de Qualidade de Vida conhecido como IQV foi desenvolvido por Ferrans e Powers, traduzido e validado para a população brasileira por Kimura, M.

O IQV consiste em duas partes: a primeira mensura a satisfação em relação a quatro domínios diferentes da vida: saúde e funcionamento; social e econômico; psicológico e espiritual e família. A segunda parte mensura a importância de cada domínio para cada entrevistado.

A urgência em mudar paradigmas e em entender que qualidade de vida tem pouco a ver com acúmulo de riquezas ficou bem claro no painel “Redefinindo Riqueza e Pobreza Numa Nova Economia Global, realizado pela Conferência Ethos 2009. Participaram como debatedores Márcio Pochmann do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada- Ipea, e Oded Grajev ,do movimento Nossa São Paulo.

Uma outra manifestação a respeito do tema deve-se ao economista Ladislau Dowbor, professor da PUC, que tomou emprestado uma frase estampada num banner estudantil que ilustrava os números escondidos por trás do PIB ( em que se pode forjar falsas realidades), com os seguintes dizeres: “ Crescer por crescer é a filosofia do câncer”.

Todos os participantes concordaram que é chegada a hora de a economia gerar mais impactos positivos para a soma da sociedade. Marcio Pochmann, do Ipea, alerta para a enorme resistência de ordem política que essa mudança de paradigma pode provocar. Não é por falta de indicadores que o cálculo do PIB permanece inalterado. Nem há razões técnicas para que as pessoas morram de fome. Há interesses em jogo que impedem as mudanças ”, argumenta. Segundo ele, vivemos uma crise de gestão internacional, com organismos como a ONU e o FMI incapazes de promover esse salto transformador e unificador de propósitos.

Para Pochmann, não estamos sendo capazes de nos organizar em torno de algo que nos congregue, nesse momento de crise do pensamento neoliberal. A inclusão dos mais pobres se dará pela apropriação da educação contínua. A construção de um novo modelo econômico passa, necessariamente, pela articulação entre os saberes da sociedade (universidades, associações de bairro, pesquisadores, sindicatos e outras organizações).

Tabela I – Ranking dos países relacionando os indicadores PIB, IDH e IQV.

Lugar PIB IDH IQV
Estados Unidos Noruega Irlanda
Japão Suécia Suiça
Alemanha Austrália Noruega
Reino Unido Canadá Luxemburgo
França Holanda Suécia
Itália Bélgica Austrália
China Islândia Islândia
Espanha Estados Unidos Itália
Canadá Japão Dinamarca
10º México Irlanda Espanha
12º Brasil
39 º Brasil
72º Brasil

Fontes: IDH (Revista The Economists, 2005); IQV (ONU,2004)

Na Tabela I podemos constatar a disparidade de resultados onde um país de maior PIB não assegura a mesma posição no ranking referente a qualquer um dos outros dois indicadores de desenvolvimento e qualidade de vida. O único país que revela igualdade de resultados de IDH e IQV é a Islândia, no entanto, o PIB não aparece nas 12 primeiras posições. O 11º lugar do PIB correspondia à Índia, em 2004. Qual será a coluna mais importante a se adotar?

De forma teórica, a qualidade de vida deve ser influenciada positivamente com a adoção de um modelo de desenvolvimento sustentável, pois este tem entre outros objetivos, promover uma melhor distribuição de renda entre a população e o bem estar social.

Pelo acima exposto concluímos que podemos estocar em bancos de dados de importantes Empresas, Institutos de Pesquisa, Universidades ou em arquivos pessoais uma grande quantidade de indicadores. Eles podem significar a avaliação mais fidedigna de que se tem notícia desde 1947 quanto à diversidade da vida. Para que e a quem servirá quando analisarmos os indicadores em relação à declaração feita por Pochmann?

Como a insensibilidade de governantes pode condenar uma grande massa da população mundial a condições subumanas e conseqüente marginalização por falta de atitude política?

Seria uma utopia ou já passou da hora de surgir entre os mandatários, tomadores de decisão, um estrategista político, digamos, um estadista?

Fontes: http://www.uff.br/lacta/publicacoes/nepamqv.htm

http://fidevox.blogspot.com/2008/08/indicadores-de-qualidade-de-vi

Carol Salsa, colaboradora e articulista do EcoDebate é engenheira civil, pós-graduada em Mecânica dos Solos pela COPPE/UFRJ, Gestão Ambiental e Ecologia pela UFMG, Educação Ambiental pela FUBRA, Analista Ambiental concursada da FEAM

EcoDebate, 12/11/2009

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