As grandes obras e o autoritarismo, artigo de Mayron Régis

[EcoDebate] O grande mal a que a humanidade vem se abraçando desde os anos 30 ainda compete uma breve análise quanto às sociedades ditas em desenvolvimento. As formas autoritárias de poder como o nazismo e o fascismo não são meros produtos da crise econômica do final dos anos 20 como vira e mexe alguém apregoa. Em boa parte, elas provem dos anos de esplendor econômico após a primeira guerra mundial (1914-1918). A tentação do autoritarismo como insígnia reluzente sobre o uniforme de um líder recompõe as forças sociais que desconfiavam da natureza heróica do seu povo e da sua história. E não basta a figura do líder a toda prova. O autoritarismo precisa se amparar na técnica e nas novas tecnologias.

Como vemos em qualquer circunstância, desde a mais pitoresca até a mais oficial, a técnica adestra o comportamento e a consciência do cidadão. A técnica, nos consolos e nos sonhos do capitalismo, tematiza a produção como espetáculo e o consumo de bens supérfluos como supremo luxo a que uma sociedade se sugestionaria. Talvez por isso, o cinema seja a grande indústria do capitalismo americano, afinal quem trabalha nos filmes sempre termina o dia satisfeito com seu trabalho. O espectador sai sempre saciado de uma sessão de cinema.

As grandes obras que o governo Lula planeja construir ou já constrói pelo Brasil afora seguem um pouco a lógica desse capitalismo fantasia e autoritário. Seria bom também significar esse capitalismo como auto-referente. As populações sempre terão que prestar reverência a quem construiu, a quem planejou e a quem financiou. A água da transposição do rio São Francisco, em sua maior parte, destina-se aos projetos de carcinicultura e de siderurgia, mas a propaganda governamental tenta anestesiar a opinião pública e as populações do semi-árido com discursos de que a transposição saciará a sede de muitas comunidades. A anestesia só é total quando o circo político chega para que as populações saúdem o projeto e seus realizadores.

O grande mal a que o capitalismo empurra a sociedade brasileira é o da negação da existência do outro e de outros em prol de um bem maior ou um bem único ou o bem da nação. O país precisa produzir energia e alimentos, mas se nega a respeitar os direitos de várias comunidades indígenas, quilombolas, extrativistas e de agricultores familiares. Então, para que haja a integração econômica e social do país é preciso desintegrar várias vidas? Que bem maior é esse?

Mayron Régis, assessor de comunicação de Fórum Carajás, colaborador e articulista do EcoDebate.

EcoDebate, 29/10/2009

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