COP 15: A 60 dias da conferência sobre clima em Copenhague, impasses perduram

Aumento da concentração de CO2 na atmosfera
Aumento da concentração de CO2 na atmosfera

Travado, acordo ambiental depende de remendos rápidos – “A confiança que foi quebrada em Bancoc tem que ser restaurada e rápido”, disse Jairam Ramesh, o ministro do Meio Ambiente e Florestas da Índia. “Se isso não acontecer, podemos dizer tchau a um acordo em Copenhague.” Ele repetiu a mensagem três vezes, em alto e bom som, a 400 jornalistas, cientistas e intelectuais reunidos no final de semana precisamente na capital da Dinamarca.

Copenhague se prepara para hospedar a que está sendo chamada de “a conferência do século”, a COP-15, o grande encontro internacional que deve resultar em um acordo para combater as mudanças do clima. Mas, a menos de 60 dias da conferência, o tão aguardado acordo está sob séria ameaça de não acontecer. Reportagem de Daniela Chiaretti, no Valor Econômico.

Ramesh falou na mesma linha que o chefe da delegação chinesa, na semana passada, em Bancoc. Na capital da Tailândia, a penúltima rodada de negociação para a conferência foi concluída na sexta-feira. O capítulo terminou em um impasse.

Os países do G-77, o heterogêneo grupo das nações em desenvolvimento, reagiram mal ao que estaria sendo um movimento da União Europeia de afastar-se da negociação do segundo período do Protocolo de Kyoto e surgir com “um novo acordo”. Não está claro o que seria esse novo acordo e o grupo dos países em desenvolvimento não gostou da iniciativa. As negociações estão em mau momento.

Kyoto definiu metas de corte de emissão para os países ricos, de 2008 a 2012, em relação aos níveis de 1990. O que se negocia agora é a segunda fase destes cortes, que deverão ser muito mais arrojados segundo dizem os cientistas, para que o mundo não tenha que enfrentar catástrofes ainda piores.

Metas mais contundentes de corte de emissão têm pingado devagar – duas notas fora da curva são a Noruega, que na semana passada se comprometeu com 40%, e o Japão, há um mês, com 25%. Dinheiro na mesa começa a surgir, mas não na proporção do que se imagina necessário.

As economias emergentes, por seu turno, têm que apresentar planos e ações que afastem sua curva de emissões da rota ascendente – Índia, China, Brasil e México vêm andado neste rumo. Este é o quadro acertado há dois anos em Báli e que deveria desembocar em um acordo em Copenhague, em dezembro. Mas houve um desvio de rota.

“Se a União Europeia abandonar Kyoto, não haverá acordo em Copenhague”, deixou claro o ministro indiano. “É preciso trazer os EUA para o jogo”, prosseguiu.

Os EUA nunca assinaram Kyoto. À época, a gestão Clinton-Al Gore entendeu que o Congresso não ratificaria o tratado e o mundo ficou sem que o maior emissor do planeta aceitasse suas responsabilidades. A administração Barack Obama tem outra postura, colocou o tema no topo da agenda e comprometeu-se com uma meta. O problema é que ela é tímida em relação ao que é necessário e bem inferior ao que a Europa propôs.

Para piorar o imbróglio, a legislação climática dos EUA está no Senado, para ser votada. Ninguém sabe o que sairá de lá. Obama prefere ter algo em casa para não dar outro passo internacional em falso. E sem os EUA, qualquer acordo é fraco. Acontece que há um novo risco: sem o maior poluidor do presente (a China) e do futuro (as outras economias emergentes), também não.

“Não podemos repetir o erro de Doha, o tudo ou nada”, prosseguiu o ministro indiano. Ele sugeriu que o acordo em Copenhague se concentrasse em pelo menos sobre três pontos, os mais encaminhados e com mais consenso: recursos para a adaptação aos impactos da mudança do clima aos países mais vulneráveis, acordo no quesito desmatamento (que incluiria mecanismos de incentivo à redução de emissões por corte e queima de floresta) e uma forma de viabilizar a transferência de tecnologia.

“Poderíamos acertar esses pontos, dar um início ao processo e, em alguns meses, voltar a Copenhague e decidir sobre o resto”, disse Ramesh.

Mas não há consenso nem sobre isso. “Temos que fazer um acordo político robusto agora”, dizia Connie Hedegaard, a ministra dinamarquesa do Clima e Energia. “Muitos detalhes ficarão para depois, como aconteceu com Kyoto, mas não se enganem: será um erro se tirarmos a pressão que existe agora no processo.”

Ela não concorda com a avaliação de que a Europa deixou de liderar a negociação e está apática. “É preciso ser justo e reconhecer que a UE tem as maiores metas e as colocou desde o começo.” É uma meia verdade. Se tomou a dianteira no passado, há mais de ano a UE tem ficado apagada parecendo apenas mirar o que fazem EUA e China.

O Japão já tem metas superiores às do bloco europeu – o novo governo anunciou que quer um corte de 25% nas emissões, sem condicionantes (as da EU são 20% em 2020 ou 30%, se alguém mais a acompanhar). “Tínhamos este número, fizemos um intenso debate interno e vimos que é possível. E é uma boa meta para estimular nossa tecnologia”, declarou Yuriko Koike, membro do parlamento japonês e ex-ministra do Ambiente.

“Quero lembrar que, quando o Titanic afundou, afundaram todos, os passageiros da 3ª classe e os da 1ª também”, disse Mohammed Hasan Mahmud, representante do ministério de Ambiente e Florestas de Bangladesh, país que constantemente afetado por inundações. “É por isso que temos que nos entender para chegarmos a um acordo em Copenhague.”

O secretário-assistente de Política e Negócios Internacionais do Departamento de Energia dos EUA, David Sandalow, sinalizava que a administração Obama está esperando os sinais do Congresso, mas não está parada.

“Ou teremos uma economia verde ou teremos uma economia quebrada”, dizia em uma roda de jornalistas o economista Jeffrey Sachs, professor de desenvolvimento sustentável e diretor do Earth Institute, da Universidade Columbia.

Depois, chacoalhando a cabeça, fazia um muxoxo à provocação do Valor: “Difícil responder e é chato de dizer isso do meu país, mas não acho que o Senado americano aprovaria um acordo onde tivéssemos que transferir recursos para a China”.

Na sua visão, o acordo que vem sendo feito é complicado e pouco prático. “É uma negociação tocada por advogados. Advogados muito respeitáveis, mas não deveria ser assim. Deveríamos ter especialistas discutindo quais são nossas opções reais e os governos dizendo o que cada um pode fazer e quanto custa.”

Nicholas Stern, o economista que é o conselheiro do governo britânico para mudança climática e autor do mais famoso estudo sobre o tema, dava o tom de ciência ao evento. Lembrava que um dos cenários da inação é o de se chegar ao fim do século com concentrações de gases-estufa tão altas que aumentem a temperatura em 5ºC. “Isso significa conflitos sociais, 100 bilhões de pessoas se deslocando.”

Em outro painel, o Nobel de Economia Joseph Stiglitz dizia que esta conversa não vai a lugar nenhum sem que se tenha um preço para o carbono. “É preciso colocar preço nas coisas. Um acordo que defina estes valores é essencial.”

Outra visão pragmática veio do investidor George Soros. “O carvão continuará barato e China, Índia e EUA têm grandes reservas”, disse em sua palestra. “Temos que conseguir um jeito de tirar o carbono do carvão.” Soros anunciou a intenção de investir mais de US$ 1 bilhão em tecnologia de energia limpa e também falou na criação do Climate Policy Iniciative, com sede em Gana, para capacitar as populações mais carentes.

Joschka Fischer, o ex-ministro das Relações Exteriores da Alemanha e líder do Partido Verde, lembrou um dos pontos mais complexos de resolver nas negociações do clima: que as nações em desenvolvimento querem crescer como as mais ricas, que suas populações desejam melhor qualidade de vida.

“Não há argumento moral contra o fato de os seres humanos desejarem ter as mesmas oportunidades, mas sabemos que o planeta não aguenta isso, que isso não é possível”. Lembrou como o mundo se mobilizou para equacionar a crise econômica. “Por que não podemos fazer as duas coisas juntas? Trabalhar na estruturação da economia num caminho que equacione também a questão climática?”

Não havia empresas ou representantes do governo brasileiro nesse evento estelar. Os organizadores disseram que fizeram convites, mas não tiveram respostas. Na saída, um Mini da BMW, elétrico, chamava a atenção de todos. Ao lado, uma exposição de fotos mostrava as geleiras cobertas de neve há muitos invernos e a sombria perspectiva atual, feita do mesmo ponto, em invernos recentes.

Na noite de abertura do encontro, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, disse que “o caminho pela frente é duro, mas não podemos nos distrair falando em um Plano B ou terminaremos com um Plano F, de fracasso”.

EcoDebate, 14/10/2009

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