The New York Times: Tanta comida, porém tanta fome

Refugiados sudaneses no Chad, foragidos dos conflitos em Darfur, recebem alimentos distribuidos pela FAO
Refugiados sudaneses no Chad, foragidos dos conflitos em Darfur, recebem alimentos distribuidos pela FAO. Foto de Lynsey Addario, The New York Times

O mundo comemorou recentemente a vida e as realizações de Norman Borlaug, agrônomo nascido em Iowa (EUA) que criou variedades de trigo de alto rendimento para combater a fome. Borlaug, que morreu aos 95 anos em setembro, liderou a chamada Revolução Verde, que criou colheitas gigantescas em países antes empobrecidos como México, Índia e Paquistão. O Programa Alimentar Mundial da ONU (PAM) disse que ele salvou mais vidas do que qualquer homem na história. Apesar de suas conquistas, hoje há mais pessoas famintas do que nunca, e o total deverá superar 1 bilhão neste ano pela primeira vez, segundo a ONU.

Como pode haver tantas pessoas famintas, se os agricultores produzem alimentos o suficiente, pelo menos na teoria, para abastecer toda a população do planeta?

As respostas são complexas e envolvem de tudo, desde a política agrícola americana e a corrupção africana até guerra, pobreza, mudança climática e seca, que hoje é a causa mais comum da escassez de alimentos no planeta. Análise de Andrew Martin, The New York Times.

Mas David Beckmann, presidente do grupo Bread for the World (Pão para o Mundo), indicou a principal causa do problema: “falta de interesse”. “É principalmente negligência política.”

Os ganhos de produção nos últimos 50 anos, tanto no mundo desenvolvido como no em desenvolvimento, levaram a um excedente de cereais e a preços baixos, criando uma sensação de complacência sobre a agricultura e a fome. “Houve uma postura, depois da Revolução Verde, de que o problema estava solucionado”, disse Gary H. Toenniessen, da Fundação Rockefeller.

Havia tanto cereal sendo produzido, e tão barato, que os líderes ocidentais incentivaram os países pobres a comprar no mercado mundial, em vez de plantar. O excedente foi enviado para os países pobres como ajuda alimentar. Mas esse sistema de ajuda muitas vezes foi ineficaz para atacar os problemas agrícolas mais amplos que afetam essas nações.

O apoio à pesquisa agrícola nos países em desenvolvimento também foi insuficiente. A conseqüência?

Enquanto o suprimento alimentar cresceu mais depressa que a população mundial de 1970 a 1990, quando os ganhos da Revolução Verde se faziam sentir, hoje a situação se inverteu. Os ganhos de produtividade na agricultura desaceleraram, e desde 1990 o índice de crescimento da produção alimentar caiu abaixo do crescimento populacional.

As consequências foram especialmente duras na África subsaariana. Entre outros problemas, a irrigação -que foi chave para a Revolução Verde- é relativamente rara na África.

Poucos prestaram atenção nesses problemas até o ano passado, quando uma confluência de eventos causou um aumento recorde dos preços dos alimentos e tumultos irromperam em muitos países. Os preços voltaram a cair nos EUA, mas a situação na África permanece terrível devido à explosão populacional e, agora, a uma seca severa que ameaça milhões de pessoas. O Programa Alimentar Mundial diz que enfrenta uma falta de verbas crítica.

Ativistas dizem que alguns dos instrumentos para o sucesso -sementes adaptadas às condições locais, fertilizantes, melhores estradas e infraestrutura- estão ao alcance desde que haja financiamento e vontade política.

Os problemas mais difíceis podem estar dentro dos EUA. Os programas agrícolas são dos que mais captam verbas de Washington. Mas os subsídios agrícolas minam os mercados robustos nos países em desenvolvimento.

Borlaug, prêmio Nobel da Paz em 1970, compreendia as limitações da Revolução Verde. Em 2007, ele comentou que a “batalha para garantir a segurança alimentar de centenas de milhões de pessoas está longe de ser vencida”.

Análise do New York Times, na Folha de S.Paulo.

EcoDebate, 06/10/2009

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