Uganda: plantações como sumidouros de carbono, onde as árvores são mais importantes que as pessoas

A New Forests Company, companhia sediada no Reino Unido, está estabelecendo plantações de árvores em Uganda, Moçambique e Tanzânia. A companhia diz que “Apesar de estarem baseados na economia do florestamento comercial, nossos projetos são assegurados por créditos de carbono … em cumprimento do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. Isso significa que seus lucros da venda de madeira aumentarão através da venda de “créditos do carbono” a indústrias poluidoras no Norte. Também significa que as companhias que compram esses créditos do carbono também deveriam ser responsabilizadas pelos impactos dessas plantações sobre os povos locais e o meio ambiente.

Como a New Forests “já se tem estabelecido a si mesma como a maior plantadora de árvores e o ator dominante em Uganda” e “está prestes a começar operações em outros países”, é importante fazer com que as pessoas conheçam o que está acontecendo realmente em 54.000 acres (28.853 hectares) de terra neste país.

A companhia define suas atividades como “Florestamento sustentável e socialmente responsável”. O significado disso fica evidenciado às claras nas fotografias e breve texto em seu próprio site na web em http://www.newforestscompany.com/project_area/uganda. O processo “responsável” começa com a destruição da biodiversidade local em dois passos: 1) “desmatamento” manual; 2) “pulverização química”. Depois que a vegetação local tem sido totalmente eliminada –e o meio ambiente poluído com herbicidas químicos- ela é substituída por duas espécies de árvores exóticas de rápido crescimento (eucaliptos e pinus), plantadas como monoculturas em grandes áreas de terra. Esses desertos verdes são as “Novas Florestas”, de onde a companhia adota seu nome.

A evidência de quão “socialmente responsável” pode ser a companhia também é fornecida nas fotografias referidas supra. Duas delas mostram umas poucas mulheres trabalhando em condições muito desconfortáveis em um precário viveiro de árvores. Uma outra fotografia mostra uma “equipe de desmatamento” de 16 pessoas, sem roupas apropriadas para a tarefa. Finalmente, os 12 trabalhadores da equipe de “pulverização química” são mostrados longe demais para verificar se eles têm recebido a equipe protetora e roupas necessárias. Como a companhia não fornece qualquer informação sobre o número de 1800 trabalhadores que “espera-se” que trabalhem na plantação, a gente apenas pode adivinhar que a maioria deles serão empregados na plantação de árvores e demitidos depois que a atividade for completada.

Mas até no caso impossível de que todos os 1800 trabalhadores fossem empregados de forma permanente, a companhia não menciona que mais de 10.000 residentes do sub-condado de Kitumbi no distrito de Mubende estão enfrentando o despejo para deixar o caminho livre para suas plantações. Isso significa que –em geral- 8.200 pessoas estarão em uma condição bem pior que antes da chegada da companhia. E “bem pior” é de fato uma subestimação do que acontecerá.

As seguintes citações de um artigo publicado em 20 de julho no site na web ugandense New Vision, fornece evidência mais do que ampla sobre os “benefícios sociais significativos” que a companhia tem estado fornecendo aos povos locais.

De acordo com o artigo, os residentes das aldeias de Kyamukasa, Kyato, Kicucula, Kisiita, Mpologoma, e Kanaamire denunciaram que grupos armados estavam batendo e seqüestrando pessoas e destruindo seus cultivos e casas. Essas ações estavam destinadas a “subjugá-los para que deixem sua terra, que têm ocupado por décadas”, para que a New Forest Company pudesse plantar suas árvores.

“Minha plantação de banana em três acres tem sido destruída pelas pessoas que estão tentando despejar-nos. Eles até se apossaram de 10 sacos de milho”, disse Jessica Nyinamatama, uma viúva de 56 anos, com nove órfãos a seu cargo.

O chefe local do comitê de terras, William Mpamira disse que “Dois de nossos vizinhos foram seqüestrados por pessoas armadas que estão tentando despejar-nos”, acrescentando que “Richard Twahirwa foi prendido em 26 de junho e Cyprian Munyagaju foi prendido em 13 de julho. Até agora, não conhecemos seus paradeiros.”

De acordo com Mpamira, a população está sofrendo ataques noturnos e em decorrência disso, a maioria dos residentes têm recorrido a dormir no mato. Ele também acrescentou que “Duvidamos se a intenção da companhia é plantar árvores e proteger o meio ambiente”, porque “desde 2005 eles estão cortando árvores que tínhamos preservado para madeira comercial.”
Em decorrência da situação que estavam sofrendo, os aldeões decidiram ir para Kampala, onde pediram ao ministro de terras, Omara Atubo, que detivesse os despejos. Em resposta, o ministro prometeu deter o investidor para que não continue com os despejos e disse:

“Como ministério a cargo das terras, sentimos o que tem acontecido com vocês. É importante respeitar seus direitos, independentemente de se ocupam a terra legalmente ou não. Não há necessidade de que seus colegas desapareçam, que sua terra seja roubada ou que seus cultivos sejam destruídos”, disse Atubo e os aldeões aplaudiram.

O ministro disse que iria intimar o comissionado de distrito dos residentes e os funcionários da companhia para que respondessem às denúncias. Atubo também prometeu destacar uma equipe de investigadores para Kitumbi em uma missão de averiguação dos eventos.

“Este é um caso urgente porque se trata da vida e da morte. Esses atos contra nossos cidadãos deveriam deter-se imediatamente. O investimento é somente bom se os residentes se beneficiarem com ele. Os seres humanos são mais importantes que as árvores”, disse ele.

Os funcionários da New Forests Company deveriam repetir depois dele: Os seres humanos são mais importantes que as árvores!

Baseado em artigo enviado por Timothy Byakola (acs@starcom.co.ug), “Uganda: Mubende Residents Petition Lands Minister Over Eviction, Harassment”, por Moses Mulondo, 20 de julho de 2009 http://allafrica.com/stories/200907210016.html e em informação do site na web da companhia: http://www.newforestscompany.com/index.php/project_area/7/
http://www.newforestscompany.com/
http://www.newforestscompany.com/about-us/

Boletim número 145 do Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais
Boletim Mensal do Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais
Este boletim também está disponível em francês, espanhol e inglês
Editor: Ricardo Carrere

[EcoDebate, 09/09/2009]

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