Diálogos de desflorestamento em Elesbão Veloso, Estado do Piauí, artigo de Mayron Régis

Mapa da localização de Elesbão Veloso, PI. Fonte: Wikipédia
Mapa da localização de Elesbão Veloso, PI. Fonte: Wikipédia

[EcoDebate] O solo das declarações bombásticas e intempestivas se reveste de uma sobre camada emocional e psicológica que tenta obliterar com uma demão de verborragia quaisquer torneamentos político-sociais diversos daqueles que pautam o expediente da reunião – uma audiência pública no município piauiense de Elesbão Veloso a 155 km de Teresina para que a secretaria de estado do meio ambiente do Piaui e a Suzano Papel e Celulose amolecessem os corações e as mentes dos cidadãos do município, incluindo o honorável prefeito, a respeito do projeto de reflorestamento com eucalipto de 160 mil hectares em 38 municípios.

A respeito do projeto, o honorável prefeito de Elesbão Veloso se surpreendera com o singelo fato de que a empresa Suzano Papel e Celulose moderaria o seu município com um projeto de reflorestamento com eucalipto de seis mil hectares, uma área que integra a fazenda Calubra assim desenhada como uma propriedade de dez mil hectares e que antes coçava o pescoço como fazenda Livramento.

Por essas e também por uma conversa anterior com o Francisco Soares da Furpa, o prefeito endurecera o seu coração no ato de abertura da audiência pública que ainda se entreabria pelas mãos do secretario de meio ambiente Dalton Macambira para que os funcionários da Suzano tirassem das suas cartolas os coelhinhos mágicos das mudas de eucalipto para o êxtase da platéia.

As palavras do prefeito dando a entender que duvidava plenamente dos benefícios do projeto para seu município foram a deixa para que, logo após o enfeite de treino de uma hora por parte dos funcionários da Suzano e da empresa de consultoria STPC, os cidadãos de Elesbão Veloso recepcionassem a empresa com questões em torno do discurso falacioso da geração de empregos, a relação com as comunidades e também sobre a presença de Mata Atlântica nesse trecho do estado do Piaui.

Digna de nota na audiência de Elesbão Veloso, a presença do secretario de meio ambiente Dalton Macambira impressionava. Impressionava porque as suas declarações se imbuíam de supostos estudos nos quais a presença de Mata Atlântica nos municípios piauienses simplesmente sumia do mapa. A Mata Atlântica desaparece e comparece em seu lugar o reflorestamento com eucalipto.

Devia-se transformar o eucalipto em patrimônio nacional. Esse talvez seja um espectro que atormente parte da sociedade, mas que para muitos promete muitos empregos e isso engloba os mais novos.

Um projeto, como esse da Suzano, possibilita a setores da elite piauiense entrar na fase adulta do desenvolvimento econômico sem prescindir da fanfarronice da juventude como bem se subtrai das palavras do secretario Dalton Macambira. No espectro geral do projeto, a geração de empregos em Elesbão Veloso responderia por 100 empregos em uma área cultivada de 6000 hectares. Trocando em miúdos: um funcionário por cada 60 hectares. A Suzano e a STPC primam pela assertiva de que o projeto se fundaria em 38 municípios em uma área de 160.000 hectares.

Dividindo a área do projeto pelo número de municípios, cada município apresentaria em média mais de 4000 hectares para a Suzano comprar ou incentivar o plantio, só que contando a área de preservação permanente e a área de reserva legal os tamanhos tanto do plantio como da geração de empregos reduziriam consideravelmente. Pelo tamanho da área da fazenda comprada em Elesbão Veloso e pela tentativa de retirar o Piaui da Mata Atlântica a área viável para o projeto é terrivelmente bem maior do que 160.000 hectares.

Mayron Régis, jornalista Fórum Carajás

Esse texto faz parte do programa Territórios Livres do Baixo Parnaíba, apoiado pela ICCO e realizado de forma conjunta com a SMDH, CCN e Fórum em Defesa do Baixo Parnaíba

EcoDebate, 13/08/2009

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