Um encrenqueiro a menos no front ambiental, artigo de Marcos Sá Corrêa

[O Estado de S. Paulo] Do gaúcho José Palazzo Truda, o mínimo que se pode dizer é que ele sempre foi um legítimo encrenqueiro. Pertence à melhor linhagem do ambientalismo brasileiro, a que comprava qualquer briga em favor da natureza. Logo, a uma espécie a caminho da extinção, condenada à obsolescência política pelas verbas oficiais e às rédeas partidárias que trata as ONGs verdes como marionetes do governo.

Em outras palavras, Truda acaba de ser expulso da organização que criou para cuidar das baleias francas, quando o País não apostava um centavo no destino desses bichos, arpoados até 1973 pelas armações que os varreram metodicamente da costa brasileira e só se tornaram ilegais depois que sua ganância as levou à ruína.

As baleias tinham submergido nas águas turvas dos casos desesperados e dos negócios sem remédio quando Truda decidiu que o problema delas seria seu. Era adolescente. E encrenqueiro. Tanto que assinou em Porto Alegre um manifesto contra a caça de baleias e, como ninguém soubesse explicar o destino do abaixo-assinado, levou-o de ônibus a Brasília, para entregar a papelada a alguma autoridade competente.

Por sorte, havia então na capital da República uma autoridade competente. Tratava-se do vice-chefe do Estado Maior das Forças Armadas. E Truda ligou para ele, pedindo uma audiência. O regime militar não estava acostumado a atender estudantes metidos em protestos. Mas o almirante Ibsen Gusmão Câmara, fisgado pela curiosidade, quis conhecer “o menino” que azucrinava ao telefone seu ajudante de ordens.

Nesse encontro começou a volta da baleia franca ao litoral de Santa Catarina. Monitorada, caso a caso, pelo binóculo de Truda, que trancou matrícula na faculdade, acampou meses a fio em beira de praia e, durante 17 anos, dormiu menos em cama do que em banco de trás de carros velhos.

Da teimosia de Truda saiu o Projeto Baleia Franca, instalado na antiga armação de Imbituda – por ironia, a última a pendurar os arpões, na década de 1970. A passagem por ali das fêmeas com seus filhotes durante o inverno na Antártida criou na praia catarinense uma nova estação turística, trazendo cada vez mais hóspedes para hotéis que ficavam desertos na temporada do frio.

A baleia franca viva passou a ser melhor negócio que a baleia franca morta. A ONG que Truda tirou do nada saiu do aperto. Passou a viver do patrocínio da Petrobrás, que usa a popularidade do bicho em seus anúncios, a custa de engolir os desaforos de um ambientalista que raramente tira dos pés as botinas e não tem papas na língua.

Encrenqueiro como sempre, ele nunca perdeu uma chance de desancar o governo Lula e seu projeto de reencarnação, a ministra Dilma Rousseff. Como tudo o que considera adversário aos escrúpulos da conservação ambiental. De quebra, está às turras com o Ministério Público. E isso tem custo.

De encrenca em encrenca, agora que há dinheiro boiando na rota das baleias francas, Truda tornou-se um luxo insustentável. Como acontece em geral com as ONGs ao crescer e se profissionalizar, o Projeto Baleia Franca passou a pensar na própria sobrevivência. A equipe desembarcou Truda, o encrenqueiro. E, sem ele, o Brasil deu mais um passo para consagrar o modelo de ambientalista que só abre o bico para engolir doações.

Marcos Sá Corrêa é jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)

* Artigo originalmente publicado no O Estado de S.Paulo.

EcoDebate, 08/08/2009

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