Os ativistas do clima e a negação, artigo de Gideon Rachman

emissões de co2

As chances de que o encontro em Copenhague resulte em um acordo que atenda as metas de emissões de dióxido de carbono determinadas pela comissão da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre as Mudanças Climáticas são muito pequenas

[Valor Econômico] A frase “contestador das mudanças climáticas” traz uma aura desagradável. Relaciona os que contestam a corrente científica principal sobre o aquecimento global com os “contestadores do holocausto”. A frase implica não apenas que estão errados, mas também que são diabólicos. O lobby de combate às mudanças climáticas, no entanto, agarra-se a sua própria forma de perigosa fantasia. É a negação não apenas da ciência, mas da política internacional.

No momento, os esforços para lidar com o aquecimento mundial estão centrados em uma gigantesca reunião de cúpula internacional em Copenhague, marcada para dezembro. As chances de que o encontro em Copenhague resulte em um acordo que atenda as metas de emissões de dióxido de carbono determinadas pela comissão da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre as Mudanças Climáticas são muito pequenas.

Em conversas privadas, muitos ativistas das mudanças climáticas o admitem. Copenhague, contudo, é o único jogo em andamento, então eles continuam jogando.

O primeiro acordo da ONU sobre mudanças climáticas foi acertado no Rio, em 1992. Desde então, entretanto, as emissões de CO2 continuaram a subir de forma constante – aparentemente com caminho livre em meio ao palavrório acalorado das conferências da ONU.

Foi conveniente culpar George W. Bush pela falta de progresso internacional. Porém, fica cada vez mais visível que a chegada de Barack Obama à Casa Branca não desequilibrará o jogo, como muitos ativistas esperavam.

A Câmara dos Representantes, em Washington, aprovou um projeto de lei para limitar as emissões de carbono. Suas provisões, no entanto, são tão moderadas que parece improvável vermos muito impacto positivo. O lobby das mudanças climáticas esperava que se os Estados Unidos liderassem o caminho com novas leis, o resto do mundo responderia à altura. Há poucos sinais disso.

Quando Hillary Clinton, secretária de Estado dos EUA, visitou a Índia na semana passada e apelou a seus líderes para restringirem as emissões, acabou deparando-se como uma resposta negativa. Nesta semana, em Washington, os chineses poderiam ser um pouco mais polidos. Mas a substância do que eles dirão deverá ser tão inflexível quanto.

Indianos e chineses destacam que a maior parte do CO2 já na atmosfera foi emitida pelos países industrializados ocidentais. A China é agora, provavelmente, o maior emissor de CO2 do mundo. Em termos per capita, contudo, as emissões chinesas ainda estão bem abaixo dos níveis ocidentais. Por que, perguntam indianos e chineses, EUA e Europa querem o direito de continuar usando fontes de energia em níveis que buscam negar aos países mais pobres? É uma questão justa.

Indianos e chineses até agora recusam-se a aceitar metas obrigatórias de emissões de CO2. Mesmo se mudarem de posição durante as negociações em Copenhague – e isso está longe de ser algo garantido – isso terá seu preço. O acordo proposto é que os países ricos basicamente persuadam com dinheiro os países mais pobres a reduzir as emissões e a adotar tecnologias mais limpas. A China propôs que os países desenvolvidos contribuam com 1% do Produto Interno Bruto (PIB) para ajudar a combater o aquecimento mundial.

Agora, coloque-se no lugar de Obama tentando vender um acordo como esse nos EUA. O país exibe déficit orçamentário de 12% do PIB. Os chineses estão sentados sobre as maiores reservas internacionais do mundo. O presidente teria de pedir ao povo americano para assinar um vultoso cheque para a China combater o aquecimento mundial – enquanto simultaneamente rezaria para que os chineses amavelmente continuem comprando títulos de dívidas dos EUA para financiar o déficit. Não soa como uma política triunfadora.

Mesmo se houver um acordo em Copenhague, envolverá promessas de redução das emissões de CO2 que parecem literalmente incríveis. Os países ricos do Grupo dos Oito (G-8), incluindo os EUA, dizem pretender cortar as emissões em 80% até 2050 – o que significaria uma transferência maciça para fontes de energia mais limpas. O escritor de ciência Oliver Morton destaca alguns números.

“Construir dois terawatts de capacidade nuclear até 2050 – suficientes para fornecer 10% do total de energia livre de carbono necessário – significa construir uma grande estação de energia nuclear a cada semana; o atual ritmo mundial é de cerca de cinco por ano. Um único terawatt eólico – 5% da exigência total – exige cerca de quatro milhões de turbinas grandes”.

Nicholas Stern, professor de economia, lançou um informe influente argumentando que a transição para uma economia de baixa emissão de carbono é acessível e compatível com a continuidade do crescimento econômico.

Alguns dos principais políticos ocidentais dizem acreditar nisso e falam airosamente sobre os “trabalhos verdes” do futuro. Mas há poucos sinais de que estejam preparados para sustentar seus argumentos com esforços deliberados para elevar o preço dos combustíveis fósseis ou fazer os investimentos necessários em energias alternativas.

Todos os políticos envolvidos nas negociações sobre as mudanças climáticas mundiais sabem que se um país agir unilateralmente corre o risco de prejudicar gravemente sua economia, pelo menos no curto prazo – sem, com isso, conseguir afetar o problema mundial.

O atual estado das negociações internacionais apresenta um imenso dilema para os ativistas das mudanças climáticas. A maioria genuinamente acredita que deixar de conseguir um acordo internacional em Copenhague seria catastrófico.

Também sabem, porém, que mesmo se houver um acordo, provavelmente será frágil e ineficiente. Se admitirem isso publicamente, arriscam-se a criar um ambiente de desespero e inatividade. Se pressionarem para seguir adiante, estão colocando toda sua energia em uma abordagem a respeito da qual devem saber que dificilmente funcionará.

É um dilema terrível. Mas em situações difíceis é melhor começar a encarar os fatos. O problema é que – de diferentes maneiras – ambos os lados no debate sobre as mudanças climáticas estão em estágio de negação.

Gideon Rachman é colunista do “Financial Times”.

* Artigo originalmente publicado no Valor Econômico.

EcoDebate, 30/07/2009

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