CPQBA desenvolve 1o cultivar brasileiro da planta medicinal macelinha (Achyrocline satureioides)

O agrônomo Ílio Montanari Júnior, coordenador das pesquisas que resultaram no cultivar, em canteiro de macelinha no CPQBA: próximo passo será a produção de sementes para agricultores interessados. (Foto: Antoninho Perri)
O agrônomo Ílio Montanari Júnior, coordenador das pesquisas que resultaram no cultivar, em canteiro de macelinha no CPQBA: próximo passo será a produção de sementes para agricultores interessados. (Foto: Antoninho Perri)

Macelinha é usada na preparação de chá com propriedades digestivas e antiespasmódicas

Estudo desenvolvido pelo Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Unicamp deu origem ao primeiro cultivar brasileiro de macelinha (Achyrocline satureioides), planta medicinal nativa muito utilizada no país para a preparação de chá com propriedades digestivas e antiespasmódicas, entre outras. De acordo com o coordenador do trabalho, o agrônomo Ílio Montanari Júnior, o objetivo foi iniciar o processo de domesticação da espécie, para que ela pudesse ser cultivada de forma comercial. “O próximo passo será produzir sementes para serem distribuídas aos agricultores interessados”, adianta. Atualmente, a macelinha é extraída da natureza, o que traz problemas de ordem ambiental.

A pesquisa em torno da macelinha, também conhecida como marcela, macela e marcela do campo, começou em 1990. O interesse em estudar a espécie, explica Ílio, está associado a três fatores: econômico, social e ecológico. “A macelinha está ligada a tradições populares , principalmente no Sul do Brasil. Além disso, é usada para preparar chás digestivos e encher travesseiros e almofadas. Ocorre, porém, que a planta é objeto de extrativismo, o que acarreta problemas ambientais, notadamente a diminuição de suas populações. Ao criarmos condições para que seja cultivada comercialmente, estamos contribuindo para gerar uma nova opção agrícola, o que favorece a geração de emprego e renda no campo, além de reduzir a agressão à natureza”, afirma.

Para dar início ao estudo, Ílio trouxe sementes de vários pontos do país para formar uma coleção no CPQBA. A ação seguinte foi promover o melhoramento e a domesticação da planta. Para isso, o agrônomo selecionou os melhores indivíduos de cada geração, ou seja, os que produziam mais flores, não tinham problemas de germinação e não apresentavam doenças ou outras características indesejadas. Estes forneceram sementes que foram plantadas e geraram novos exemplares. O processo, que teve início no viveiro e foi posteriormente transferido para o campo, foi repetido por dez gerações. “Depois de todo esse tempo, nós conseguimos chegar a uma planta cultivável, cujas sementes possuem pouca dormência, que é mais produtiva e que apresenta crescimento e florescimento mais homogêneos”, assegura o pesquisador.

Superadas essas etapas, prossegue Ílio, ainda será preciso produzir sementes do cultivar de macelinha para serem distribuídas aos agricultores interessados em produzir comercialmente a planta medicinal. Como esse trabalho não é realizado pelo CPQBA, a unidade está firmando parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que deverá assumir tal tarefa. “O convênio entre as duas instituições está na fase final de elaboração”, informa o pesquisador. De acordo com ele, quem decidir plantar a macelinha para posterior comércio não terá grandes dificuldades em lidar com a espécie. “Como a planta é rústica, o manejo não requer muitos cuidados. Desde que seja cultivada com o espaçamento adequado e que receba os tratos culturais normais, como capina e adubação, a macelinha tenderá a se desenvolver muito bem”, prevê.

Ílio considera, ainda, que o desenvolvimento do cultivar da macelinha deverá favorecer as pesquisas em torno da produção de medicamentos fitoterápicos. “Os cientistas envolvidos nesse tipo de projeto poderão contar, por exemplo, com a reprodutibilidade da planta, o que não ocorria anteriormente”. O agrônomo informa que a macelinha faz parte da farmacopeia brasileira, e em breve deverá fazer parte da lista de plantas medicinais formulada pelo Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos do Ministério da Saúde. Os eventuais remédios gerados a partir das espécies incluídas na relação, que são do interesse do Sistema Único de Saúde (SUS), deverão ter o registro facilitado, visto já haver um vasto conhecimento tradicional relacionado às propriedades das espécies.

Símbolo
A macelinha foi instituída, em 2002, como a planta medicinal símbolo do Estado do Rio Grande do Sul, onde é muito utilizada. Lá, a extração da natureza é cercada de misticismo e religiosidade. Os gaúchos acreditam que as funções terapêuticas da macelinha são potencializadas caso os indivíduos sejam colhidos durante a Semana Santa, de preferência ao alvorecer da Sexta-feira da Paixão. A época de florescimento, entre os meses de março e abril, coincide com o período religioso.

Além de servir ao preparo de chás para o tratamento da má digestão e cólicas, as flores da macelinha também são muito empregadas no enchimento de travesseiros e almofadas. O aroma desprendido, acredita-se, tem uma ação calmante sobre as pessoas, especialmente crianças. A espécie ocorre na América Austral, florescendo naturalmente no Paraguai, Uruguai e Brasil, com maior predominância na Região Sul, nas faixas que contêm solos arenosos e basálticos. Também podem ser encontradas em algumas cidades dos estados de São Paulo e Minas Gerais.

Matéria de MANUEL ALVES FILHO, no Jornal da Unicamp, ANO XXIII – Nº 430, publicada pelo EcoDebate, 27/05/2009

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