Influenza A (H1N1): Que pandemia? artigo de Marcelo Leite

influenza A (H1N1)

“A gripe de 1957 matou 70 mil americanos e 4 milhões noutras partes do mundo”

[Folha de S.Paulo] Bastaram três semanas para a pandemia de gripe suína – perdão, influenza A (H1N1) – chegar, aterrorizar e sumir. Ao menos das manchetes. Terá servido, porém, para ajudar a vender um livro interessante, “Vacinado”, de Paul A. Offit (Ideia e Ação, 2008, 256 págs., R$ 39,90).

O exemplar de divulgação baixou em minha mesa no auge da epidemia midiática. O subtítulo era tentador: “A luta de um homem para vencer as doenças mais mortais do mundo”. Pulei as duas introduções e fui direto ao primeiro capítulo: “Meu Deus: É a Pandemia, Ela Chegou!”

Ali aprendi que pandemias de gripe são mazelas recorrentes da humanidade. Nos últimos três séculos, houve pelo menos dez delas. Mas só uma foi prevista – antes da de 2009, a que não houve (não até agora, nem com os horrores aventados na imprensa).

O herói da história é Maurice Hilleman, por coincidência nascido em 1919, durante a maior e mais mortífera pandemia de gripe de todos os tempos. Matou, provavelmente, mais de 50 milhões de pessoas.

Oitavo filho de uma família de camponeses de origem alemã de Montana (EUA), órfão de mãe, Hilleman foi criado por tios. Escapou da morte mais de uma vez, quando criança. Até aí, só uma história bem contada.

Da maneira mais improvável, Hilleman chegou à obscura Universidade Estadual de Montana, onde estudou química e microbiologia. Saltou dali para um doutorado na prestigiosa Universidade de Chicago. Trabalhou depois na farmacêutica Squibb, onde aprendeu a fabricar vacinas, e terminou no Instituto Militar de Pesquisas Médicas Walter Reed, em 1948.

Nove anos depois, abril de 1957, Hilleman lia o jornal “The New York Times” em sua sala do Walter Reed quando topou com uma reportagem sobre gripe aviária que grassava em Hong Kong. Dez por cento da população afetada, filas de 20 mil pessoas nas portas dos hospitais. “Meu Deus: é a pandemia, ela chegou!” – disse Hilleman a si mesmo, segundo Offit.

O pesquisador telegrafou para conhecidos no Japão pedindo informações. Acabou localizando um jovem da Marinha japonesa que passara por Hong Kong e adoecera. Um oficial médico fez com que o marujo gargarejasse com salmoura e enviou o produto para Hilleman. Apenas um mês depois de ler o artigo no jornal, recebia o preparado, e começou o trabalho de verificar se era um vírus com potencial pandêmico. O processo era para lá de laborioso.

Primeiro, tinha de cultivar o influenza em um ovo incubado de galinha, abrindo uma janelinha na casca e injetando algumas gotas do gargarejo. Depois de assim multiplicadas as partículas virais, passou a testá-las com o soro sanguíneo de soldados estocado no Walter Reed.

Não encontrou nenhum que tivesse anticorpos contra o vírus. Usou em seguida amostras de soro de civis. Nada. Certo de que era um agente ameaçador, contra o qual a maioria das pessoas não teria defesa, enviou amostras para a recém-criada Organização Mundial da Saúde, para distribuição aos laboratórios do mundo. Distribuiu uma nota à imprensa avisando da iminente pandemia, mas nenhum jornal se interessou (outros tempos).

Em questão de meses se confirmou que só tinham anticorpos contra o vírus umas poucas pessoas da Holanda e dos Estados Unidos. Eram sobreviventes da pandemia de 1889-1890, que vitimara 6 milhões.

Em junho, os primeiros lotes de vacina eram produzidos. Mesmo assim, a pandemia de 1957 matou 70 mil americanos e 4 milhões noutras partes do mundo.

Marcelo Leite é autor de “Folha Explica Darwin” (Publifolha, 2009) e do livro de ficção infanto-juvenil “Fogo Verde” (Editora Ática, 2009), sobre biocombustíveis e florestas.

* Artigo originalmente publicado na Folha de S.Paulo.

[EcoDebate, 20/05/2009]

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