45 anos de uma sexta-feira, artigo de Nilo Sergio Gomes

Antônio Carlos Muricy, Joaquim Justino Alves Bastos, Homero Souto de Oliveira, Paulo Guerra e outros na Parada da Vitória (24 maio 1964). Arquivo Antônio Carlos Murici / ACM foto 063_1 / CPDOC
Antônio Carlos Muricy, Joaquim Justino Alves Bastos, Homero Souto de Oliveira, Paulo Guerra e outros na Parada da Vitória (24 maio 1964). Arquivo Antônio Carlos Murici / ACM foto 063_1 / CPDOC

[EcoDebate] Há 45 anos, um dia sombrio e estranho, com muitas notícias estranhas, marcou a vida de muita gente, e a minha também. Faltava menos de um mês para completar 14 anos, mas sou incapaz de lembrar-me como foi o dia de meu aniversário, naquele ano também sombrio de 1964. Mas tenho nítida na memória as lembranças daquele dia agitado, cheio de informações desencontradas.

Em casa, minha mãe e eu não tínhamos televisão. Era somente o rádio, de preferência, a Mayrink Veiga ou a Rádio Nacional. Sintonizamos na primeira, pois era uma emissora extremamente popular, apresentava, aos domingos, o programa A Hora do Trabalhador, que tinha atrações maravilhosas, como a dupla sertaneja Miro e Mirinho. O apresentador era o radialista Raimundo Nobre de Almeida. Não esqueço até hoje este nome.

Pois, até altas horas da noite ficamos com os ouvidos no rádio, mas tudo era nebuloso, muita informação desencontrada. Na Nacional, não era diferente. Mas na Rádio Globo as notícias já davam como certa a renúncia do presidente João Goulart, o Jango. Jango que conheci vendo-o apertar a mão das pessoas, inclusive de minha mãe, logo após a vitória do Brasil na final da Copa do Mundo de 1962.

Era uma sexta-feira e, no sábado, até a feira na rua Tadeu Kociusko, no Bairro de Fátima, Centro do Rio, estava esquisita. O final de semana foi um dos piores de minhas lembranças e, na semana seguinte, as aulas foram suspensas. No mesmo sábado, 1º de abril, a rádio Mayrink Veiga ficou fora do ar. Mas, no domingo, não havia mais dúvida. Jango fora deposto. Os militares assumiram o poder. Carlos Lacerda, governador do Rio de Janeiro, dava show, falando em praticamente todas as emissoras. Eu não gostava do Lacerda, mas gostava do Jango. Lacerda que logo depois acabaria com as oficinas profissionalizantes da Escola Técnica Ferreira Viana, onde eu estudava e aprendi tipografia, primeiro encontro com minha profissão de jornalista.

Levei muitos anos, décadas, para voltar a ver meu país com gente alegre andando nas ruas, como via costumeiramente até 31 de março de 1964. Quando as aulas recomeçaram, até os passageiros do bonde pareciam tristonhos, diferentes. Faltava alguma coisa, que eu levaria anos para perceber o que era: a alegria havia se ido. Meu desejo de ser militar, aviador da Aeronáutica, também se foi naqueles dias. Nunca mais pensei em ser militar. Pelo contrário, passei a ter ódio de militares e levaria muitos anos, bem depois da chamada “redemocratização”, para entender que a história militar do Brasil tem e teve muitos percalços, mas que ela não necessariamente se confunde com o movimento golpista de 1964.

Hoje é 31 de março de 2009. 45 anos se foram, minha juventude também se foi e a investi na luta de resistência contra a ditadura. Luta que teve passagens difíceis, algumas prisões, muitas privações, até porque, filho de trabalhadores, não poderia escolher outro caminho que não o da luta, inclusive, a luta clandestina. 45 anos se passaram daquela sexta-feira estranha, que até hoje povoa minha memória. Ainda me vejo, ao lado de minha mãe, ouvido colado no rádio tentando saber o que se passara. Hoje, felizmente, o que se passara já passou. Ainda existem generais e almirantes arrogantes, mas a vida está um pouco melhor. A democracia é precária e dominada pelo poder econômico, mas está bem melhor. Avançamos enquanto povo e sociedade e, pelo visto, nos encaminhamos para uma sociedade menos injusta, mais plural e diversificada, com o povo usufruindo de direitos e mais oportunidades.

De dentro de mim, lá dentro, ainda mora um menino. Ele tem quase 14 anos e sonha que nunca mais este país tão amado tenha que passar, outra vez, por uma experiência tão amarga e tão triste. Tão desigual. E isso só depende da gente, de você, de mim, de todas e todos nós que hoje desfrutamos de um país melhor. Ainda falta muito. Mas, meu sonho é que uma sexta-feira como aquela nunca mais se repita. Nunca mais.

Nilo Sergio Gomes, 58 anos, jornalista e pesquisador.

[EcoDebate, 01/04/2009]

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