(transgênicos) A multinacional e a elite política, artigo de Nagib Nassar

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“O Brasil é centro de diversidade genética do milho, do Centro-Sul até o Amazonas, onde há milhares de variedades de milho desenvolvidas na agricultura indígena. Essa diversidade genética é um patrimônio para toda humanidade e para o Brasil e seu povo”

Agora, eu sou radicalmente contra [a liberação dos transgênicos] e acho um retrocesso o governo fazer isso, na verdade, está acontecendo porque mais uma vez a elite política desse país se rende ao fascínio de uma multinacional.’

Quem disse isso foi Luiz Inácio Lula da Silva, em julho de 2001, durante a Caravana da Agricultura Familiar, referindo-se à liberação da soja transgênica. A história se repete como nós aprendemos em livros de história e como nós vivemos com os políticos de nosso país.

Com aval do próprio presidente Lula e sob comando da ministra-chefe da Casa Civil, o governo liberou alguns meses atrás o uso comercial de quatro variedades de milho transgênico tóxicos chamados milho Bt.

Quando o Conselho Nacional de Biossegurança reuniu-se para decidir sobre os recursos apresentados por Ibama e Anvisa, que pediram o cancelamento da decisão da CTNBio, foi desconsiderada a análise técnica desses órgãos.

Os ministérios que lidam com o mérito da questão votaram contra. Além de Meio Ambiente e Saúde, também Desenvolvimento Agrário e Pesca.

Junto com a Casa Civil, votaram a favor: Relações Exteriores, Defesa, Justiça, Indústria e Comércio, Agricultura e Ciência e Tecnologia. O ok para as multinacionais produtoras de milho Bt veio do próprio governo, cujo presidente manifestou-se contrário aos transgênicos durante a campanha eleitoral.

O povo brasileiro cobrará os votos justificados desses sete ministérios que votaram pela liberação. Em nome da transparência, queremos saber o que cada um deles pensa sobre a biossegurança e os impactos socioeconômicos da liberação do milho transgênico. Há ainda uma decisão judicial sobre a validade da decisão da CTNBio.

O Brasil é centro de diversidade genética do milho, do Centro-Sul até o Amazonas, onde há milhares de variedades de milho desenvolvidas na agricultura indígena. Essa diversidade genética é um patrimônio para toda humanidade e para o Brasil e seu povo

Com um sistema reprodutivo alógamo do milho, o conjunto gênico dessas variedades indígenas é ameaçado pela contaminação. É sarcástico que a multinacional, após contaminar variedades dos pequenos agricultores, cobrará deles violação de patente, gerando centenas de ações judiciais.

Por causa deste perigo, o México e o Peru, que são outros centros de diversidade de milho, proibiram o milho Bt e todas as variedades transgênicas Bt. Mais que isso, a maioria dos países europeus proibiram o seu consumo e importação. Aqueles que permitiram, como a Alemanha, se manifestaram contra a aprovação neste mês e prometeram bani-lo. Todo isso na Europa. No Brasil, há outra historia para contar.

O pior de tudo é que foi anunciado na semana passada que a CTNBio examina na sua próxima pauta a liberação de do arroz transgênico Liberty Link (LL62), que foi geneticamente modificado para ser resistente à aplicação do herbicida Finale,

Sabe se que a Comissão Européia já anunciou que o herbicida usado junto com o Liberty Link não terá sua licença renovada. A avaliação da Autoridade Européia em Segurança Alimentar (EFSA, em inglês) atesta que o glufosinato apresenta alto risco para mamíferos. A substância é classificada como reprotóxica, provocando nascimentos prematuros, morte intrauterina e abortos em ratos de laboratório. Estudos japoneses mostram que a substância também pode dificultar o desenvolvimento e a atividade do cérebro humano.

No Brasil, o caso ainda é pior: a principal planta invasora nas lavouras de arroz é o chamado arroz vermelho, que é bastante apreciado por agricultores familiares de vários estados nordestinos pelo seu sabor e pelo valor nutricional excepcional de ferro e zinco.

Como o arroz tem uma certa percentagem de alogamia e fluxo gênico a ervas daninhas parentais, há grande risco de desenvolvimento das chamadas “super ervas-daninhas”, plantas que não serão afetadas pelo herbicida e terão muita resistência no campo. Os agricultores terão grande dificuldade em controlá-las. Em qualquer lugar no mundo o arroz transgênico é proibido e rejeitado.

Tudo indica que a CTNBio vai adicionar mais um triste capítulo dos transgênicos no Brasil. Um capítulo cujas paginas são manchada pelas lágrimas dos pobres, e na sua capa há escrito o nome das gigantes fabricantes de transgênicos.

Nagib Nassar é professor titular de Genética da Universidade de Brasília. Artigo enviado pelo autor ao “JC e-mail”.

* Artigo originalmente publicado no Jornal da Ciência, SBPC, JC e-mail 3725.

[EcoDebate, 26/03/2009]

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