Mamadeiras com bisfenol-A (BPA) banidas no Canadá e EUA

Mamadeiras
Mamadeiras “BPA FREE”, foto do Portal Babble.com

[Por Maristela Simonin, do MAMAblog] Os plásticos estão entre os produtos mais populares que conhecemos. Dia desses fiquei imaginando se ainda seria possível um mundo sem plásticos. Concluí que não, pois eles nos cercam, estão em toda parte. Tirante o fato de que é possível trocar alguns hábitos por outros mais ecológicos, só há uma coisa positiva que podemos fazer em relação a eles: seguir o exemplo de milhares de consumidores em outros países e pressionar nossos parlamentares, governantes e empresários a banir deles algumas substâncias que são perigosas para a nossa saúde e a saúde do planeta.

Três tipos de plástico vêm sendo particularmente incriminados: o PVC, o poliestireno e o policarbonato. É que eles, principalmente quando são aquecidos ou colocados sob pressão, liberam substâncias danosas, como o ftalato, o estireno e o bisfenol A, mais conhecido pela sigla em inglês BPA (BFA em português). Partículas minúsculas dessas substâncias contaminam o meio ambiente e podem penetrar no nosso corpo através do que comemos, bebemos, usamos, e do ar que respiramos.

A polêmica que há em torno delas já não é para saber se são perigosas, mas até que ponto o são. Para os que se limitam aos resultados de estudos financiados pela indústria do plástico, as doses em que elas são utilizadas são baixas e seguras pois o ser humano é capaz de metabolizá-las. Tudo o mais seria fruto do “alarmismo” de alguns ambientalistas.

Será?!… Vamos aos fatos, centrando o foco hoje no bisfenol A (BPA), que é alvo de notícias recentes associando-o ao câncer de mama e a desordens neurocomportamentais, entre outras.

No dia 13 de março último, três parlamentares americanos depositaram um projeto-de-lei no Congresso de seu país (“The Ban Poisonous Additives Act of 2009”) no qual se proíbe o uso de BPA no plástico das mamadeiras e no revestimento de latas e outros recipientes destinados a acondicionar alimentos e bebidas. Os parlamentares são a senadora Dianne Feinstein (California), o senador Chuck Schumer (New York) e o deputado Edward Markey (Massachussets).

Oito dias antes, os seis maiores fabricantes de mamadeiras dos EUA haviam anunciado um acordo, feito com autoridades, pelo qual eles se comprometem a parar de vender mamadeiras de plástico com BPA. Esses fabricantes são Avent America Inc., Evenflow Co., Gerber Products Co., Handi-Craft Co., Playtex Infant Care e o que faz as mamadeiras First Years, da marca Disney, cujo nome não vi. A Sunoco informa que já tinha deixado de vender BPA a quem não firmasse o compromisso de não usar essa substância em produtos destinados a crianças de três anos abaixo – faixa etária que, segundo os estudos feitos, é a de maior vulnerabilidade infantil ao BPA.

O gesto é louvável, não há dúvida, mas, como já observou alguém, resta saber se essas indústrias também vão parar de exportar mamadeiras com BPA!

Só para recordar, não foi pequeno o revés sofrido pela indústria do plástico nos EUA em agosto do ano passado, quando foi sancionada uma lei proibindo o uso de ftalato no plástico de brinquedos infantis, destinado a torná-lo maleável.

Em outubro daquele ano, as autoridades canadenses baniram o uso de BPA do plástico das mamadeiras, destinado a torná-las rígidas e transparentes. No texto de sua avaliação preliminar, elas argumentam tratar-se de “uma substância química tóxica requerendo ação agressiva para limitar exposições humanas e ambientais”, e afirmam: “dados indicam que a exposição a baixa dose de bisfenol A [BPA], em particular em estágios sensíveis do ciclo biológico, pode acarretar modificações permanentes das capacidades hormonais, de desenvolvimento ou reprodutivas”.

A despeito dessas e de outras constatações científicas, o PhD Frederick S. vom Saal informa em artigo para a revista especializada Journal of de American Medical Association (JAMA on line, 26/09/2009) que as agências reguladoras dos EUA e da União Européia “escolheram ignorar advertências de paineis de experts e de outras agências governamentais e continuaram a declarar o BPA ‘seguro’”. Coincidência ou não, há denúncias de conflitos de interesses envolvendo agências reguladoras, parceiros e financiadores de estudos em detrimento do interesse público nessa questão do BPA.

Henrique Cortez, editor científico do portal EcoDebate, lembra que “as informações colhidas na pesquisa realizada pelo jornal Sentinel quase chegaram às proporções de um escândalo nacional, colocando a indústria química e a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) em situação mais do que desconfortável.” E também a Agência Reguladora de Alimentos e Drogas (FDA). Para acessar as informações do jornal Sentinel, citadas por Cortez, acessar aqui e aqui.

O BPA, como já afirmei noutro post, é um disruptor endócrino. Ou seja, um desregulador de nosso sistema hormonal. Dentro do corpo, ele age como xenoestrógeno, isto é, imitando e alterando alguns efeitos do hormônio feminino estrógeno. Ora, além de poderem produzir efeitos adversos que vão de leves a graves, os xenoestrógenos ou estrógenos ambientais são cada vez mais identificados pela ciência como fatores de risco de câncer de mama.

Desde muitos anos, o BPA vem sendo utilizado na fabricação de plásticos policarbonatos (mamadeiras, pratos, copos, xícaras, garrafões d’água reutilizáveis e uma infinidade de outros produtos de plástico) bem como nos revestimentos de recipientes e embalagens à base de resina epóxi (latas de conserva, de bebidas e outros tipos de acondicionamento destinados a alimentos, bebidas e cosméticos, inclusive para bebês).

Na verdade, a lista de produtos que levam BPA em sua composição não esbarra aí. É infindável. Por isso, não dá para calcularmos o nível total de contaminação diária a que estamos expostos. – Por esse e por outros xenoestrógenos e contaminantes ambientais. Segundo dados dos CDC (Centros para o Controle e Prevenção de Doenças nos EUA), 93% da população americana tem níveis detectáveis de BPA na urina. E, de acordo com o CRIIGEN, uma associação de especialistas franceses, “(…) os estudos conduzidos nestes últimos 20 anos permitiram detectar BPA em numerosos outros fluidos corporais tais como o leite das mulheres, o soro, a saliva, as urinas, o fluido amniótico e o sangue do cordão umbilical”.

Em artigo para EcoDebate, em de 26/01/2009, Henrique Cortez traz esta informação:

“O estudo intitulado ‘Exposure to Bisphenol A and other Phenols in Neonatal Intensive Care Unit Premature Infants’, preparado por uma equipe liderada por Antonia M. Calafat, do Centers for Disease Control and Prevention, testou a urina de 41 crianças prematuras em tratamento em duas unidades de terapia intensiva neonatal, na região de Boston, para avaliar a presença de BPA e outros produtos químicos.

Os cientistas detectaram BPA na urina de cada criança, com um nível médio de 28,6 microgramas por litro, cerca de 8 vezes o nível médio (3,7 microgramas por litro) encontrado pelo CDC em crianças de 6 a 11 anos da população em geral. A criança com a mais grave a exposição ao BPA tinha uma concentração urinária total de 946 microgramas por litro, 256 vezes maior do que em crianças maiores, de acordo com os níveis testados pelo CDC.

A amostra, quando comparada a outros dados do CDC, demonstram que a polulação adulta tem um nível médio de BPA na urina de 2,7 microgramas por litro. Por essa média, o nível média de BPA nos bebês foi 10 vezes superior aos dos adultos.”

A associação Breast Cancer Fund informa que o BPA foi a primeira substância a ser usada contra queixas de menopausa (em 1936), antes mesmo do DES (Dietilestilbestrol), outro imitador do estrógeno humano, igualmente barato, porém mais potente que o BPA. É sabido que o uso de DES pelas mulheres, pelo gado e pelas aves, entre os anos 1940-1980, deixou um rastro de danos imensuráveis (inclusive câncer de mama) que até hoje repercutem nas novas gerações. (Sobre DES, ver Boletim OMS/Anvisa n. 4/04 e NCI/USA: DES…).

Apesar de o BPA vir sendo largamente utilizado pela indústria do plástico desde os anos 1940, afirma-se que seus efeitos deletérios só foram descobertos, por acaso, em 1993. Cientistas da Universidade Stanford teriam estranhado que os resultados de seus trabalhos laboratoriais estivessem sendo distorcidos. Investigaram e descobriram que partículas microscópicas de BPA estavam sendo liberadas do revestimento dos frascos de laboratório e migravam para seus conteúdos. Os efeitos estrogênicos e tóxicos dessas partículas é que estavam alterando os resultados de seus trabalhos laboratoriais.

115 estudos foram feitos a partir de então para avaliar os efeitos da contaminação com doses baixas de BPA em animais. 94 mostraram efeitos significativos, mesmo com doses baixas, sendo que, em 31 deles, as doses usadas eram inferiores à da norma atual (50 µ/kg/dia).

Estudos recentes revelam que o BPA pode comprometer o desenvolvimento neurológico dos fetos, via placenta, e dos recém-nascidos e crianças de pouca idade. Nesses últimos a contaminação se dá principalmente via leite materno, ou, pior ainda, via leite em pó e mamadeira de plástico. A respeitada associação Breast Cancer Fund observa que, embora se saiba que tudo não pode ser debitado na conta do BPA (há outros contaminantes ambientais perigosos), uma em cada seis crianças americanas tem algum tipo de desordem neurocomportamental ou de aprendizagem.

Ela também lembra que estudos recentes e revisões de estudos conduzidas por 38 especialistas em disruptores endócrinos mostram que o BPA pode contribuir para o desenvolvimento de tumores mamários (benignos e malignos), diminuir a eficácia dos tratamentos quimioterápicos do câncer de mama e de próstata, induzir anormalidades urogenitais em bebês, queda na qualidade do sêmen nos homens, puberdade precoce nas meninas e desordens metabólicas, incluindo diabetes tipo 2 e problemas neurocomportamentais.

É claro que mais estudos se fazem necessários, mas isso não deveria servir à velha tática da indústria de nos fazer esperar anos a fio enquanto vai produzindo danos à nossa saúde. Que as leis e autoridades sanitárias imponham respeito, no mínimo, ao princípio da precaução.

“As provas da periculosidade do BPA para o desenvolvimento das crianças se acumulam”, afirmou outro dia a senadora Dianne Feinstein, co-autora do projeto-de-lei americano a que há pouco me referi. E concluiu: “Os americanos não devem ser usados como cobaias pelas companhias da indústria química enquanto aguardamos, potencialmente por vários anos, mais provas científicas mostrando que essa substância química é nefasta para nossa saúde. Chegou o tempo de agir”.

Sim, chegou o tempo de agir para todos os cidadãos e consumidores do mundo, não acham? Mandem sugestões. Vamos compartilhá-las e tentar nos mexer aqui também, no Brasil.

Conselhos de especialistas para tentar reduzir a contaminação por BPA:

Mulheres grávidas e crianças pequenas: dar prefefência ao leite materno; quando usar leite em pó, dar preferência aos que são vendidos em embalagens de papelão; usar mamadeira de vidro, e, se não for possível, mamadeira de plástico sem BPA (informar-se junto ao fabricante e autoridades sanitárias); nunca esquentar mamadeiras de plástico contendo comida ou bebida nem colocar comida ou bebida aquecidos dentro delas; nunca esquentar comida ou bebida em recipiente de plástico ou com revestimento contendo BPA; nunca colocar comida ou bebida aquecidos nesses recipientes; evitar lavar mamadeiras e outros recipientes contendo BPA em lava-louças com altas temperaturas.

Todo o mundo: fazer as escolhas mais seguras possíveis em matéria de embalagem e de estocagem de alimentos, guardando a comida em vidro, cerâmica ou em recipientes à base de aço inoxidável; nunca esquentar comida ou bebida em recipiente de plástico ou com revestimento contendo BPA; nunca colocar comida ou bebida aquecidos nesses recipientes; evitar lavar mamadeiras e outros recipientes contendo BPA em lava-louças com altas temperaturas.

Fontes: ▪ Goloubkova & Spritzer: Xenoestrogênios – o Exemplo do Bisfenol A; ▪ EcoDebate: Pesquisador afirma que não existem níveis seguros de exposição ao Bisfenol A (BPA); ▪ EcoDebate: Novos estudos mostram crescentes riscos tóxicos do bisfenol A (BPA) em recém-nascidos; ▪ EcoDebate: Bisfenol A (BPA): Ferver garrafas plásticas acelera a liberação de substâncias tóxicas; ▪ NIEHS-US: Exposure to Bisphenol A [BPA] and Other Phenols in Neonatal Intensive Care Unit Premature Infants;Breast Cancer Fund: Bisphenol A [BPA] and Breast Cancer; ▪ Environment/Health Canada: Existing Substances Evaluation [BPA]; JSOnline (informações em torno da questão do BPA); ▪ JSOnline: Plastics industry behind FDA research, study finds.

Posts relacionados:

E você?… sabe o que é BPA?

Confirmadas Ligações entre Produtos Químicos e Câncer de Mama

Mais sobre Mamas, Amamentação e Meio Ambiente

* Artigo originalmente publicado no Blog MAMAblog

[EcoDebate, 23/03/2009]

Inclusão na lista de distribuição do Boletim Diário do Portal EcoDebate
Caso queira ser incluído(a) na lista de distribuição de nosso boletim diário, basta que envie um e-mail para newsletter_ecodebate-subscribe@googlegroups.com . O seu e-mail será incluído e você receberá uma mensagem solicitando que confirme a inscrição.

Top