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Novas tecnologias podem auxiliar na conservação e uso sustentável do Cerrado, artigo de Anderson Cleiton José

Cerrado, em foto de arquivo
Cerrado, em foto de arquivo

[ComCiência] Enquanto todas as atenções estão voltadas para o desmatamento da Floresta Amazônica, o Cerrado brasileiro é devastado de forma lenta e silenciosa, para atender ao avanço de monoculturas que cada vez mais exigem a abertura de novas áreas para o plantio de espécies agrícolas e florestais. Um dos fatores que estimulam essa investida sobre o Cerrado é a posição estratégica dessas áreas, próximas aos grandes centros consumidores, e o relevo plano que facilita a mecanização, reduzindo os custos de implantação, manutenção e colheita.

Segundo pesquisas recentes realizadas pela Conservation International do Brasil, o bioma Cerrado corre o risco de desaparecer até 2030 se medidas urgentes não forem tomadas. Dos 204 milhões de hectares originais, 57% já foram completamente destruídos e a metade das áreas remanescentes estão bastante alteradas, podendo não mais servir aos propósitos de conservação da biodiversidade. Estima-se que o desmatamento anual nas áreas de Cerrado esteja entre 1,5 a 3,0 milhões de hectares.

A conservação dos recursos naturais

A forma mais eficiente para a proteção dos recursos naturais é a sua conservação in situ. Isto consiste na manutenção das áreas intactas, mediante a criação de unidades de conservação, tais como parques nacionais, reservas biológicas, florestas nacionais e áreas de proteção ambiental, dentre outras. No Cerrado, infelizmente, o número de unidades de conservação é muito baixo, quando comparado com outros biomas, e essas, geralmente, são muito vulneráveis a ações antrópicas (fogo, desmatamento, caça e pesca).

Dessa forma, devido à grande degradação verificada no bioma como um todo, mesmo as áreas protegidas necessitam de uma atenção especial, para que a conservação ocorra de forma efetiva. Uma maneira encontrada para diminuir os impactos sobre essas áreas é a criação de corredores ecológicos, que são áreas que unem os remanescentes florestais, possibilitando o fluxo gênico, que nada mais é do que o trânsito de animais e a dispersão de sementes e pólen de espécies vegetais. Esses corredores foram planejados para interligar remanescentes de vários biomas. No Cerrado, estão previstos a criação dos corredores Araguaia-Pantanal, abrangendo 10 milhões de hectares nos estados de GO, TO, MT e PA, o corredor ecológico Jalapão-Mangabeiras, situado na confluência dos estados de TO, PI e BA, o corredor ecológico Cerrado-Pantanal, situado na bacia do rio Taquari, GO, interligando o Pantanal com o Cerrado da região do Parque Nacional de Emas, e o corredor JICA, na região do Vale do Paraná/Serra dos Pirineus, abrangendo os estados de GO, DF e TO.

A conservação também pode se dar através do uso sustentável dos recursos naturais. Pesquisas recentes realizadas pela Universidade Federal de Lavras (MG) mostram que é viável economicamente manejar a vegetação do Cerrado, como alternativa ao seu desmatamento para a implantação de florestas de eucalipto, atividade que vem ocorrendo em larga escala em vários estados brasileiros. Esses estudos, porém, levaram em conta somente a utilização dos produtos madeireiros, deixando de lado o que muitos consideram a grande riqueza deste bioma que é a enorme diversidade de produtos que podem ser extraídos, tais como frutos, sementes, óleos, fibras, etc…

Entretanto, ao se propor metas para um programa de conservação, mediante a criação de unidades de conservação, ou mesmo ao permitir o uso sustentável dos recursos naturais, algumas informações são de fundamental importância para que o seu manejo seja realizado de forma correta. Associado a estudos de geomorfologia, geologia, solos, clima, sistemática botânica e biogeografia, técnicas moleculares podem fornecer subsídios aos estudos da vegetação para o estabelecimento de estratégias adequadas para o manejo ambiental

A análise de características genéticas das populações que se pretende conservar, mediante marcadores moleculares, que tem como objeto de estudo as sequências de DNA e proteínas dos indivíduos, objetiva reduzir os riscos para as populações a serem conservadas, evitando a endogamia (cruzamento entre indivíduos aparentados) e a deriva genética, devido à redução do número de indivíduos das populações. Isso porque uma população a ser conservada em uma determinada área não precisa ser necessariamente grande, mas necessita ter número suficiente de indivíduos para ser representativa, evitando a endogamia e possibilitando a manutenção do potencial evolutivo das espécies.

Conhecer para poder preservar

Hoje, um dos grandes desafios para os pesquisadores é o entendimento da biologia das espécies do Cerrado. Essas informações são úteis tanto no manejo correto das populações, por exemplo, em unidades de conservação, bem como para o uso sustentado dos seus recursos.

Os processos relacionados à reprodução têm sido alvo de muitas pesquisas nos últimos anos. Compreender os mecanismos de propagação das espécies, bem como a estruturação das espécies nos diversos habitats parece ser o ponto chave para o estabelecimento de propostas de recomposição e conservação de áreas naturais.

As espécies que se adaptam a um determinado ambiente desenvolvem “habilidades” para poderem suportar as condições ambientais ali existentes. Como exemplo, cita-se um mecanismo muito importante para as espécies vegetais que é a dormência das sementes, a qual garante que nem todas as sementes dispersas em um ano germinem prontamente quando as condições ambientais forem favoráveis (luz, umidade e substrato). Isso significa que muitas sementes podem permanecer no solo por até dezenas de anos, até que germinem para dar origem a uma nova planta. Entretanto, esse mecanismo muitas vezes inviabiliza a produção de mudas de algumas espécies para utilização em programas de recuperação ambiental ou mesmo para a utilização racional de algumas espécies com potencial econômico.

Dessa forma, vários estudos utilizando técnicas baseadas na análise de DNA têm ajudado os pesquisadores a entender os mecanismos fisiológicos relacionados ao desenvolvimento, germinação e dormência de espécies florestais do Cerrado, permitindo dessa forma, que um número maior de espécies seja utilizado nos projetos de reflorestamento para a recomposição da flora.

A análise da estrutura genética populacional também pode ser realizada através de técnicas moleculares, e atualmente tem passado por grandes avanços tecnológicos.

Tecnologias que podem auxiliar a conservação do Cerrado

Se por um lado a biotecnologia pode ter uma conotação negativa para alguns grupos da sociedade – nesse caso, quando associada aos organismos geneticamente modificados (transgênicos) –, por outro, pode ser uma ferramenta de fundamental importância para a conservação dos recursos naturais.

Desde a descoberta do DNA, o desenvolvimento de técnicas de análise molecular tem passado por grandes avanços. Nos últimos três anos, foram desenvolvidos métodos rápidos e baratos para o sequenciamento de DNA, permitindo o sequenciamento de moléculas de qualquer espécie em um curto período de tempo. Enquanto o uso dessas tecnologias ficava restrito a estudos na área de saúde humana ou em espécies vegetais modelo, geralmente espécies com um genoma pequeno, agora o avanço no desenvolvimento dessas tecnologias permite o uso dessas ferramentas em qualquer espécie nativa.

A importância desses avanços, além da maior acessibilidade pela redução dos custos das análises, reside na possibilidade do desenvolvimento de marcadores para diversos processos fisiológicos, na redução do tempo para obtenção de informações e, consequentemente, na possibilidade de acompanhar a dinâmica de populações de um maior número de espécies.

Entretanto, mesmo com o desenvolvimento dessas novas tecnologias, a manutenção das unidades de conservação já existentes e a recuperação de áreas degradadas, interligando grandes fragmentos, associado ao uso sustentável dos recursos naturais, ainda são a alternativa mais viável para a conservação, visto que não se conhece nem mesmo a totalidade da diversidade de nossos ecossistemas, e, dessa forma, os esforços ainda devem ser concentrados em manter intacto o pouco que nos restou.

Anderson Cleiton José é professor adjunto do curso de engenharia florestal da Universidade Federal do Tocantins, Campus Universitário de Gurupi. Contato: acjose@uft.edu.br.

* Artigo originalmente publicado pela ComCiência, Revista Eletrônica de Jornalismo Científico, LABJOR/SBPC

[EcoDebate, 14/02/2009]

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