Japão: Arroz contaminado com pesticida e fungo leva ministro a renunciar


Cereal importado da China com pesticida e fungo é desviado para a indústria alimentícia e usado em produtos vendidos em oito regiões

O onigiri é um bolinho feito com arroz e feijão. Tradicionalmente, é servido em ocasiões festivas, como a volta às aulas nas escolas. Em lojas de conveniência, funciona como fast food. A novidade é que a iguaria acaba de derrubar dois membros do primeiro escalão do governo japonês. O ministro da Agricultura, Seiichi Ota, e o vice-ministro, Toshiro Shirasu, pediram demissão após a descoberta de que comida contaminada por pesticida e fungo foi servida em escolas, restaurantes, hospitais, lojas e lanchonetes. Do Correio Braziliense, 20/09/2008.

A matéria-prima foi importada da China para ser empregada na indústria de colas. Alguns funcionários da Mikasa Foods desviaram o lote para o setor alimentício. Mesclado com produtos de primeira linha, para disfarçar o sabor e diminuir as possibilidades de dano à saúde, os pacotes pararam nas gôndolas de supermercados ou nos estoques de fabricantes de comida pronta, que prepararam mais de 100 mil onigiris adulterados, vendidos em oito províncias do país entre fevereiro e agosto.

Apenas a unidade da Shinobu Foods Products em Nagóia fabricou 102.053 onigiris sekihan (receita que usa feijão vermelho na composição) com 6,864t de arroz aglutinado contaminado. Vendidos sob a marca Omusubi Sekihan e Onigiri & Inari, eles chegaram a centenas de supermercados e lojas de conveniência nas províncias de Aichi, Gifu, Mie, Fukui, Ishikawa, Shizuoka, Nagano e Shiga. Depois da descoberta da fraude, a empresa enviou carta a todos os fornecedores pedindo esclarecimentos sobre a origem da matéria-prima.

“Usamos apenas material de qualidade e nunca pensamos que estivessem entregando produtos estragados vendido como refugo pela China”, declarou um porta-voz da empresa. O último lote adulterado chegou às prateleiras no último dia 8. Como tem validade de apenas 42 horas, já foram descartados. Segundo a empresa, nenhum caso de doença ou mal-estar pela ingestão dos onigiris foi relatado pela saúde pública ou por clientes.

Crise política

Ota e Shirasu estavam sob pressão do governo e do Parlamento, que queriam saber a quantidade exata de arroz contaminado que chegou ao mercado. O escândalo tomou proporções mais graves depois que se soube que um inspetor do Ministério da Agricultura recebeu presentes e tratamento preferencial (almoços e bebidas caras) da Mikasa Foods quando auditava a empresa. Nada de errado foi relatado, o que causou a saída do vice-ministro, um caso extremamente raro no país (no Japão, o cargo não é político e faz parte da burocracia concursada do órgão). Antes de sair, ele procurou jogar a responsabilidade sobre a Shinobu, “que deveria fiscalizar seus fornecedores”.

Ota afirmou, depois da reunião de gabinete onde apresentou sua carta de renúncia, que assumia a responsabilidade por que o arroz contaminado tenha se transformado em problema social. “Cheguei à conclusão que deveria sair assim que me assegurei de que não haverá repetição do erro.” Antes, o Ministério da Agricultura, para evitar pânico entre a população, declarou que não havia riscos para a saúde. O primeiro-ministro Yasuo Fukuda deve referendar a decisão na segunda-feira.

Leite sob suspeita

Lojas e supermercados em toda a China retiraram os laticínios da prateleira após revelações de que leite na forma líquida foi contaminado pela adição de leite em pó para bebês. O órgão do governo que supervisiona a qualidade disse que quase 10% das amostras de leite de três grandes fornecedores do país, analisadas nos últimos dias, continham melamina, uma substância utilizada na fabricação de plástico. No centro do escândalo está o Grupo Sanlu, baseado na cidade de Shijiazhuang, na Província de Hebei.

De acordo com o ministro da Saúde, Chen Zhu, todas as crianças gravemente doentes tomaram leite fabricado pela empresa, mas o escândalo não se limita a apenas um conglomerado. Os inspetores encontraram melamina no leite em pó produzido por 22 companhias – um em cada cinco fornecedores do produto. Ontem, o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas disse que não comprou leite em pó contaminado. Nos últimos 12 meses, o órgão comprou apenas 340t, mas de nenhuma das empresas envolvidas. O produto foi utilizado como ingrediente em bolachas altamente energéticas destinadas à Coréia do Norte.

[EcoDebate, 22/09/2008]

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