Aquecimento global reduz umidade atmosférica e as plantas absorvem menos CO2


Resultado é má notícia para tentativas de conter mudança climática. Estudo controlado gastou quatro anos em instalação nos Estados Unidos.

A recessão chegou ao mundo vegetal. Um novo estudo conduzido por pesquisadores americanos acaba de demonstrar que um ano muito quente reduz a presença de umidade e motiva as plantas a economizar água — sabotando fortemente sua capacidade de tirar carbono da atmosfera. Ou seja, quanto mais o planeta esquentar, menos as plantas vão ajudar a conter o aquecimento. Por Salvador Nogueira*, do G1.

O experimento, publicado na edição desta semana do periódico científico “Nature”, deve levar a novas formas de calcular o quanto realmente as áreas com vegetação são capazes de agir como “sumidouros de carbono” — uma espécie de ralo que ajuda a controlar a presença de gases causadores do efeito estufa na atmosfera. Pena que os cálculos terão de ser refeitos todos para baixo.

Para obter essas conclusões, os cientistas tiveram de esperar quatro longos anos. “Claro que estávamos ansiosos para obter resultados desse estudo, mas você não pode apressar a natureza”, disse ao G1 Paul Verburg, do Instituto de Pesquisa do Deserto (Desert Research Institute http://www.dri.edu/), em Reno, Nevada (EUA). “Poderíamos ter feito um estudo de duração menor sob condições climáticas constantes, mas teria sido mais difícil traduzir os resultados para condições de mundo real”, afirma.

O esforço de pesquisa consistiu em manter gramíneas encapsuladas em quatro lisímetros — tanques que permitem medições precisas da interação das plantas com seu ambiente — de 184 metros cúbicos. Essas chamadas EcoCELLs (ou Eco-Células, em português), de início, foram mantidas sob a mesma temperatura do ambiente.

Após um ano, no entanto, chegava a hora de testar o que aconteceria se as plantas passassem por uma fase de temperaturas mais altas — um ano subitamente mais quente que o anterior. Os cientistas elevaram a temperatura em 4 graus Celsius, e a constatação veio em seguida: no ano mais quente, as plantas reduziram drasticamente sua capacidade de absorver carbono da atmosfera.

Pior: no ano seguinte ao superquente, mesmo com as temperaturas mais amenas, as plantas ainda pareciam afetadas, e a normalidade só retornou no quarto ano do experimento. Moral da história: num período de quatro anos, as plantas submetidas a um ano quente recolhem apenas um terço do carbono que as plantas que não passaram por esse apuro conseguem recolher.

Problema é para já

Diz-se que, até 2100, se nada for feito para conter o aquecimento global, as temperaturas podem aumentar, em média, até 4 ou 5 graus Celsius. Mas estamos falando de algo que levará décadas para se concretizar. Quer dizer então que as contas de Verburg e seus colegas só se aplicam ao efeito de daqui muitos anos?

Nã-nã-ni-nã-não. É para já. Isso porque, embora a média anual de temperaturas vá subir os tais quatro graus só em um século, não é incomum que anos específicos apresentem temperaturas bem acima (ou abaixo) da média.

“Um dos impactos previstos da mudança climática é um aumento na freqüência dos anos ‘extremos’, ou seja, seca e calor extremos etc., e como eles podem impactar as concentrações atmosféricas globais de gás carbônico é o que queríamos estudar”, explica Verburg.

“Quando olhamos para os dados de temperatura média anual dos últimos cem anos para o local de Oklahoma onde coletamos nossos ecossistemas, notamos ocorrência de anos extremamente quentes, que iam até 3,8 graus acima da média. Logo, os nossos 4 graus estão no extremo, mas não são irrazoáveis quando olhamos os dados históricos. Além disso, um aumento de 4 graus é grande o suficiente para permitir que vejamos algumas respostas claras, e foi o que fizemos.”

As tais respostas claras

Plantas tiram gás carbônico do ar por meio da famosa fotossíntese — a reação em que, sob a luz do Sol, os vegetais produzem seu sustento, tendo como resultado a liberação de oxigênio.

A absorção do gás carbônico é feita por pequenas estruturas na superfície das folhas, chamadas de estômatos. O quanto esses estômatos abrem ou fecham está muito ligado às condições do ambiente — sobretudo a umidade do ar e do solo.

Quando a temperatura sobe, a umidade do ar e do solo diminui. A planta percebe a mudança e entra em “modo de segurança”, fechando os estômatos para economizar água. O resultado é um consumo menor de gás carbônico — e uma grande “banana” para os humanos, que esperavam ajuda das plantas para conter os problemas que eles estão causando.

Claro, ainda há incertezas. Afinal, o aquecimento global não é tão global assim. Embora as temperaturas médias do planeta tendam a subir, e muitas regiões a perder umidade, nem todos os lugares reagirão da mesma maneira. “Existem grandes diferenças regionais sobre como o clima pode mudar e como a vegetação responde a essas mudanças”, diz Verburg. “Nosso estudo pelo menos fornece um bom entendimento dos mecanismos que podem explicar e, tomara, prever respostas dos ecossistemas à mudança climática.”

A pesquisa “Prolonged suppression of ecosystem carbon dioxide uptake after an anomalously warm year” foi publicada na revista Nature, Volume 455 Number 7211 pp263-430 . O acesso é restrito a assinantes da revista.

Prolonged suppression of ecosystem carbon dioxide uptake after an anomalously warm year p383
John A. Arnone III, Paul S. J. Verburg, Dale W. Johnson, Jessica D. Larsen, Richard L. Jasoni, Annmarie J. Lucchesi, Candace M. Batts, Christopher von Nagy, William G. Coulombe, David E. Schorran, Paul E. Buck, Bobby H. Braswell, James S. Coleman, Rebecca A. Sherry, Linda L. Wallace, Yiqi Luo & David S. Schimel

doi:10.1038/nature07296

* Com informaçõe complementares de Henrique Corez, do EcoDebate.

[EcoDebate, 19/09/2008]

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