O Índio e o Engenheiro, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

[EcoDebate] A questão indígena e negra atua no tecido social brasileiro como um câncer crônico, que não mata, mas tortura e inferniza a vida do paciente de forma definitiva. É como o fígado de Prometeu, consumido por um abutre perpetuamente, mas que se recompunha quando a tortura parecia chegar ao final.

O Brasil não consegue superar essas questões porque elas são elementos fundantes e constituintes da civilização brasileira. Matar índio e lhes roubar o território, explorar e matar negro, destruir a natureza são elementos constitutivos da civilização brasileira. São realidades do presente, não apenas do passado. O Conselho Missionário Indigenista nos diz que no ano passando 92 lideranças indígenas foram assassinadas. O conflito da Serra Raposa do Sol e o “simbólico” ataque ao engenheiro revelam que não conseguimos – definitivamente não conseguimos – superar esse pecado original da nação brasileira.

O Brasil, em determinado momento de sua história, optou por criar os territórios indígenas. Muitos criticam esse sistema, mas foi ele que ao menos preservou algumas regiões ainda com natureza original e exuberante, rica em biodiversidade, além de preservar a vida e a sócio diversidade indígena, nas suas variadas matizes. Acontece que esses territórios guardam as riquezas que ainda não foram exploradas, não foram saqueadas e, por isso, territórios indígenas e quilombolas tornaram-se “empecilhos ao desenvolvimento”. Desenvolvimento de quem? De quê? Dessas aves de rapina que começaram devorando o pau brasil no litoral brasileiro e que não vão sossegar enquanto não derrubarem a última árvore amazônica? Hoje querem mudar a lei para derrubar 50%. Depois vão mudar para derrubar mais 30%. Em última análise querem destruir tudo, porque não sabem fazer, não sabem ser, a não ser destruindo. Como dizia o homem do agronegócio ao agente da CPT: “quero entrar nessa floresta como um cupim, começando pela primeira árvore do lado de cá, até sair na última do lado de lá”.

O problema do Xingu agora é a hidroelétrica. Agora, mas daqui a pouco pode ser uma reserva mineral, a água, a biodiversidade. Esses índios vivem sob ameaça há décadas, há séculos. O governo Lula se encarregou em tornar realidade todos os temores que havia no São Francisco, no Madeira, no Xingu e onde mais tiver obras necessárias ao capital. Até nós, que não somos parte das populações tradicionais, mas estamos a seu serviço, nos sentimos mais oprimidos nesse governo do que nos tempos dos outros presidentes pós regime militar. Nem mesmo as compensações sociais do governo Lula anulam a angústia que se abate sobre essas populações agredidas por essas grandes obras. O sacrificialismo inerente ao capital também tornou-se constitutivo desse governo. Por isso, é possível imaginar e entender a reação dos Kaiapós ao engenheiro.

Vamos ressaltar a dignidade do engenheiro na entrevista que deu à TV. Em nenhum momento fez qualquer referência desairosa aos índios. A jornalista, o meio de comunicação para o qual ela trabalha, esses sim estavam sedentos de condenação.

Talvez o engenheiro tenha a consciência que, a agressão que ele sofreu dos índios, seja insignificante diante da agressão que as corporações técnicas a serviço do capital tenham feito aos índios ao longo de nossa história.

Roberto Malvezzi (Gogó) é Assessor da Comissão Pastoral da Terra – CPT, colaborador e articulista do EcoDebate

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