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Artigo

Gestão e responsabilidade socioambiental no Vale do rio dos Sinos, artigo de Roberto Naime

 

[EcoDebate] O vale da bacia hidrográfica do rio dos Sinos se situa a norte de Porto Alegre, ainda dentro do contexto da região metropolitana da grande Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, sendo muito conhecido por ser o berço da indústria calçadista no Brasil e até hoje um grande “cluster” da cadeia coureiro-calçadista.

A gestão ambiental é um conjunto de procedimentos e normas para gestão das questões legais, éticas e práticas das relações de qualquer empreendimento privado ou público com os meios físico, biológico e antrópico que constituem o meio ambiente (NAIME, 2005, pg 119).

Começa por um diagnóstico ambiental que é um levantamento sistemático e permanente de todas as situações que envolvem o gerenciamento ambiental da empresa, para que em momento algum possam ocorrer incidentes ou ocorrências surpreendentes, que não estejam dentro do planejamento sistematizado das operações. Este diagnóstico é procedido através de uma auditoria ambiental que constitui um processo de verificação sistemática e documentada para avaliar as evidências que determinam se a política ambiental de uma organização tem conformidade com os critérios de Sistemas de Gestão Ambiental (SGA) implantado, avaliando sua eficácia e eficiência.

Isto tudo ocorre num ambiente novo tanto local, quanto global, suscitado por novas demandas das partes interessadas (“stakeholders”). O mundo globalizado que exige novas posturas substitui as barreiras comerciais das tarifas externas, que agora são comuns na maioria dos países integrados em blocos econômicos, por demandas ambientais e sociais.

BARBIERI (2004) cita a então primeira ministra da Noruega Gros Brundtland que definiu as bases do conceito de desenvolvimento sustentável. Expôs o princípio que o desenvolvimento deve utilizar os recursos naturais necessários, sem comprometer as gerações futuras.

Este conceito foi traduzido na prática em iniciativas de ecodesign a partir da análise do ciclo de vida dos produtos, em otimização do uso de recursos hídricos, em eficientização energética, em tratamentos de efluentes ou esgotos conforme o caso, implantação de programas de gestão de resíduos sólidos, monitoramento de emissões atmosféricas e programas de responsabilidade socioambiental. Tudo mensurado através de Indicadores de Desempanho Ambiental (IDAs) conforme indicação da Série ISO 14000. Os IDAs são os resultados mensuráveis dos Sistemas de Gestão Ambiental que são relacionados com o controle de aspectos ambientais de uma organização, baseados em suas políticas, objetivos e alvos ambientais.

A sociedade espera um avanço em direção a iniciativas socioambientais que permitam o gerenciamento integrado das questões. Existem várias escolas de gestão integrada.

A primeira é a gestão ecológica ou ecomanagement. Foi proposta por CALLENBACH (1993) no Instituto Elmwood, fundado em 1984 por Fritjof Capra, com o objetivo de mudar a forma de pensar e agir dos colaboradores objetivando a minimização dos impactos ambientais das atividades.

Outra iniciativa é a responsabilidade socioambiental corporativa (RSC) É o comportamento ético dos gestores. Todas as ações que visem a promover a melhoria da qualidade de vida e da qualidade ambiental são integradas com as necessidades e expectativas humanas, como proteção ao meio ambiente, proteção social, saúde, educação, lazer e organização do trabalho (BIEDRZYCKI, 2005).

A “Responsable Care” foi criada em 1984 no Canadá, pelas indústrias químicas, com o apoio da Chemical Manufactures Association (CMA). No Brasil é difundido pela ABIQUIM desde 1992. A partir de 1998 a adesão dos sócios da ABIQUIM a este modelo é obrigatória. O programa enfoca saúde, segurança e meio ambiente, conhecidos internacionalmente pela sigla SHE (“safety, health and environmental”).

É cada vez mais difundido nas empresas o princípio básico da gestão sustentável da cadeia de suprimentos (“supply chain management”). É assegurar maior visibilidade aos custos e outros eventos relacionados com a produção para satisfação da demanda, com o objetivo de minimizar os gastos das operações produtivas e de logística (FERNANDES e BERTON, 2005).

Existe ainda o “The Natural Step”, ainda relativamente complexo quanto a aplicação cotidiana por parte das empresas, proposto por uma organização independente que apresenta uma metodologia para atingir sustentabilidade empresarial. Considera a concentração das substâncias extraídas da crosta terrestre, concentração das substâncias produzidas pela sociedade e degradação dos meio físico e biológico (BARBIERI, 2004).

A responsabilidade socioambiental (RSA) como estratégia organizacional vislumbra as questões sociais e ambientais que dizem respeito às preocupações com os impactos resultantes das operações organizacionais e seus efeitos. Neste contexto é crescente o número de organizações que procuram conformidades e normalizações da RSA reconhecidas em escala global, sob pena de perderem competitividade (NAIME, 2005).

São ações que promovem o desenvolvimento comprometido com a compatibilização ambiental e a inclusão social em todas as dimensões. Isto surge como uma nova demanda das partes interessadas (“stakeholders”) onde os consumidores passam a delimitar a escolha de seus produtos e serviços de acordo com sua percepção (OLIVEIRA e ALDRIGHI, 2000).

É uma postura ética permanente das empresas no mercado de consumo e na sociedade. Muito mais que ações sociais e filantropia, a responsabilidade social deve ser o pressuposto e a base da atividade empresarial e do consumo. Engloba a preocupação e o compromisso com os impactos causados a consumidores, meio ambiente e trabalhadores; os valores professados na ação prática cotidiana no mercado de consumo, refletida na publicidade e nos produtos e serviços oferecidos; a postura da empresa em busca de soluções para eventuais problemas e na a transparência nas relações com os envolvidos nas suas atividades (ELKINGTON, 2001).

Segundo o Instituto Ethos de Responsabilidade Social Empresarial, a empresa socialmente responsável é aquela que possui a capacidade de ouvir os interesses das diferentes partes (acionistas, funcionários, prestadores de serviço, fornecedores, consumidores, comunidade, governo e meio-ambiente) e de conseguir incorporar estes valores nas atividades, buscando considerar as demandas de todos e não apenas dos acionistas (Instituto Ethos, 2006).

Corresponde a um compromisso das empresas, atendendo à crescente conscientização da sociedade, principalmente nos mercados mais maduros. É a revisão dos modos de produção e padrões de consumo vigentes de tal modo que o sucesso empresarial não seja alcançado a qualquer preço, mas minimizando os impactos sociais e ambientais decorrentes da atuação administrativa e negocial da empresa.

Anualmente a Associação Comercial e Industrial de Novo Hamburgo, Campo Bom e Estância Velha através de seu braço ambiental, a Fundação Desenvolvimento Ambiental (FUNDAMENTAL) desenvolve uma ação de certificação ambiental local, repercutindo para a comunidade as principais boas práticas de gestão socioambiental identificadas nas empresas de vanguarda da região que se inscrevem voluntariamente para a certificação.

No ano de 2009, foram visitadas para execução da auditoria ambiental patrocinada pela ACI de Novo Hamburgo, Campo Bom e Estância Velha, 43 empresas do “cluster” coureiro-calçadista. Alguns projetos da iniciativa privada se destacam e demonstram a capacidade de desenvolvimento social a partir do gestão de resíduos. Entre muitos exemplos, uma fábrica de calçados infantis optou por reverter toda a renda gerada com a venda das embalagens plásticas para uma escola municipal, através da compra de material escolar. Essa iniciativa simples arrecada recursos que são revertidos em materiais escolares diversos.
Fabricante de componentes metálicos para calçados, revertem parte dos recursos obtidos com a venda de zamac, alumínio e outros para programas de treinamento com adolescentes carentes, amplamente difundido entre grandes empresas da região do Vale dos Sinos. Muitos desses adolescentes acabam o treinamento e são efetivados pelas empresas ou encaminhados para outras empresas, iniciando no mercado de trabalho já com boas noções da importância do gerenciamento ambiental e de responsabilidade social.

Indústrias gráficas da cadeia coureiro-calçadista da região disponibilizam para ações sociais uma parte dos recursos obtidos com a venda dos resíduos de papel e chapas de alumínio. Vendendo resíduos em conjunto as empresas acabam conseguindo valores de venda melhores e aumentam os recursos gerados com o gerenciamento ambiental. Parte dos recursos é destinada a projetos de inserção social através de treinamento para pessoas carentes e auxílios para organizações de redes de soliedariedade social.

Empresas da área de tintas e adesivos mantém programas de manutenção de escolas públicas, com pinturas e reformas e redes de soliedariedade com instituições que trabalham com reaproveitamento de resíduos sólidos.

Uma indústria calçadista, notável pelas ações de sustentabilidade, mantem um programa de otimização de uso de recursos hídricos, tratamento de esgotos dos colaboradores e reuso da água, gestão de resíduos sólidos e campanhas de reflorestamento de matas ciliares, mantém uma creche de bairro da Prefeitura. Outra indústria calçadista, doa todos os resíduos para a Escola Municipal João Goulart (NH) para que os alunos e professores confeccionem e vendam produtos.

Todos esses exemplos demonstram claramente que sistemas simples de gestão ambiental quando implantados representam ótimas possibilidades de ações sociais.
Para as empresas privadas que aderem aos programas de responsabilidade ambiental, abre-se uma janela de marketing ambiental que atende as exigências dos consumidores. Para os beneficiados, ações ainda que isoladas de apoio a atividades e programas de inserção social representam a esperança de um novo futuro, além da consciência ambiental que é tão necessária e se torna nítida.

Dr. Roberto Naime, colunista do EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

EcoDebate, 16/09/2011

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2 thoughts on “Gestão e responsabilidade socioambiental no Vale do rio dos Sinos, artigo de Roberto Naime

  • Teoricamente tudo é lindo e maravilhoso, na prática nem tanto. Nasci e cresci as margens do Rio dos Sinos, em São Leopoldo, nesse rio aprendi a nadar e vi a degradação ambiental chegar aos poucos e sorrateiramente até se instalar de vez! Por mais que esses movimentos ditos “responsáveis”cresçam e por mais que se falem deles, ainda hoje vemos a agonia do rio e dos arroios que compõem a bacia do Sinos. A poluição causa danos na saúde de muita gente, pois na calada da noite as empresas derramam seus dejetos poluentes e fétidos: respire e salve-se quem puder. Ser responsável social e ambientalmente virou moda, e corremos o risco de cair em armadilhas criadas por empresas que não fazem nem um décimo do que realmente poderiam fazer, tudo para aparecer na vitrine da responsabilidade socioambiental! Fiquemos atentos, os falsos profetas da sustentabilidade crescem a ritmo acelerado, muito mais do que a real responsabilidade avança!

  • Muito ainda se vai falar em desenvolvimento sustentável e em responsabilidade socioambiental. Mas o meio ambiente não vive do que falam. O meio ambiente vive ou morre em decorrência das ações que o atingem. Quando estas o beneficiam, ele se revigora e faz a vida brotar com todo vigor, e quando ele é agredido, morre.
    Olhemos os rios, lagos, lagoas, oceanos, florestas, o ar, as cidades… Olhemos o meio ambiente e digamos se estamos promovendo um desenvolvimento sustentável e com responsabilidade socioambiental, e, sem nos iludir-nos, digamos se com a densidade demográfica da Terra – e que é crescente – teremos um meio ambiente equilibrado e saudável que propicie biodiversidade vasta e com qualidade de vida.
    Se devemos destruir as condições de vida na Terra, ao menos façamos isso de forma consciente e clara, sem disfarce. Mais não preciso dizer: o futuro próximo nos dirá.

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