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Artigo

Sustentabilidade e Trabalho, artigo de Bruno Peron Loureiro

[EcoDebate] A “sustentabilidade” é o mote do estágio atual do capitalismo. É difícil não encontrar o termo no discurso de qualquer político convincente. Seu emprego, contudo, é a tentativa derradeira de encobertar a perfídia do sistema econômico vigente, que escraviza as pessoas e denigre a natureza.

Países transformam suas economias em negócios (aparentemente) sustentáveis a fim de melhorar a imagem no mundo e fortalecer blocos regionais de integração.

O lado triste é que esvai-se a pequena esperança que se tinha de que a agressão ao patrimônio natural pelo menos se converteria em benefícios nacionais.

A pobre monocultura canavieira, em vez de aparelhar-nos com etanol barato no Brasil, encarece o produto e ainda produz açúcar para exportação, mais rentável no mercado internacional. Todos os demais riscos ficam por conta de quem varre as cinzas das queimadas e paga caro nas bombas de postos de combustíveis, muitos dos quais ainda adulteram o produto.

Enquanto bancários organizaram-se numa greve justa e necessária, os banqueiros faustosos e usineiros oportunistas têm nadado em dinheiro porque o conceito de “trabalho” que vigora no Brasil – a “América” que deu errado – ameaçaria até Macunaíma, “herói sem nenhum caráter”, personagem que marcou a carreira literária de Mário de Andrade.

Prebendas, cabides de emprego, trabalho infantil, escravidão por dívidas, acomodação do funcionalismo público, superexploração de mão-de-obra, entre outros desvios do trabalho, maculam o país e dão a impressão de que o crescimento econômico será repartido.

O trabalho deveria ser dirigido à realização da coletividade e o aprimoramento pessoal. Não só este, nem só aquele; a conjugação dos dois. É chocante viver num país onde pessoas cruzam oceanos constantemente, enquanto outros jamais viram o mar.

O trabalho é uma dádiva a ser apreciada onde quer que se possa contribuir para o planeta.

Aos jovens terceiro-mundistas restam poucos exemplos de probidade e tenacidade no trabalho. Crescem num ambiente em que se passou a exigir domínio do idioma inglês em qualquer ofício, já que o inglês passou a ser mais valorizado que o português em qualquer troca comercial dentro do país. Os custos de frete, por exemplo, calculam-se através das siglas “FOB” (Free On Board) ou “CIF” (Cost, Insurance and Freight), que poucos tupinicas sabem o que realmente significa.

Alguém já se perguntou por que se usam tantos estrangeirismos no Brasil e se trabalha tanto para desmerecer um idioma tão lindo, o português?

Enquanto se faz alarde sobre “desenvolvimento sustentável” num mundo chamejante, poucos protestam contra a investida do sistema cultural, econômico e político vigente.

Poderia haver ao menos uma organização popular mais participativa e o atendimento a demandas das classes oprimidas. Um caminho seria a expansão dos conselhos municipais, estaduais e federais sem que se transformem em lobbies.

O trabalho, portanto, expressa não só a necessidade de um salário para pagar as contas e mover indústrias de todo tipo. O trabalho visa à construção de uma coletividade.

O Brasil amiúde não sabe o que fazer com sua pujança.

Tantos talentos ainda se desperdiçam em prol da malversação de dinheiro público e a alocação de recursos em poucas grandes empresas que regulam o mercado brasileiro e preenchem as estantes de supermercados com seus produtos caros, nocivos e supérfluos.

O Brasil é a estrela do momento porque tem 190 milhões de indivíduos que precisam de alimentos, roupas, serviços, etc. Todos eles têm recursos (privados, públicos e assistencialistas) para fazer suas necessidades, ainda que tenham participado de algum programa federal de concessão de créditos. Para completar a cadeia, alguém convence-os da sustentabilidade de seus negócios.

Estamos, todavia, na escala baixa de um circuito internacional de troca de mercadorias onde, a cada ciclo que se esgota, forja-se uma nova estratégia de perpetuação de grandes poderes econômicos.

Empresas que contaminam a atmosfera compram “créditos de carbono” e transformam seus negócios em atividades ambientalmente sustentáveis. Máfias regulam setores inteiros da economia porque dependem do clientelismo entre empresas e agentes públicos que avalam e fiscalizam empreendimentos e concessões de serviços. Descortinou-se a máfia dos taxistas no aeroporto Galeão, Rio de Janeiro, mais uma mácula que deve ser combatida.

O cidadão minimamente informado teria asco do meio que o circunda. Como vive histórias idílicas narradas por quem entende de contos e ficções, tudo parece normal.

A próxima estratégia de convencimento que se mascara na “sustentabilidade” haverá de sofrer reação mais enérgica de quem valoriza o “trabalho” sob risco de esperar julgamento no “Céu” ou no “Inferno”. O planeta, pois, já não pode aguardar.

* Colaboração de Bruno Peron, mestre em Estudos Latino-americanos, para o EcoDebate, 25/11/2010


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