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Muito além da Amazônia: Os outros ecossistemas são tão importantes quanto a floresta tropical, mas vêm sofrendo com falta de atenção

SÃO PAULO – Não é sem motivo que a Amazônia está quase diariamente no noticiário. Ela é alvo de atenção de organismos brasileiros e internacionais por representar uma das últimas grandes florestas tropicais do mundo, o que implica alto índice de biodiversidade ainda bastante desconhecido. O desmatamento, que voltou a crescer sobre o bioma, coloca essa riqueza em risco, mas também ajuda a acelerar um outro problema bastante em evidência – o aquecimento global. Por Giovana Girardiq, do Estadao.com.br, quarta-feira, 2 de julho de 2008, 23:59.

A derrubada da Amazônia coloca o Brasil como o quarto maior emissor de gás carbônico do mundo. Mas, além de ser um grande estoque de carbono, a floresta tem um papel importante na regulação da temperatura e no próprio seqüestro do gás. A verdade é que quanto mais estudos são feitos, mais se percebe o quanto ela impacta o clima.

Isso não significa, no entanto, que seja a única vegetação a ter importância. O Brasil tem outros cinco grandes biomas (conjunto de vida constituído pelo agrupamento de tipos de vegetação, segundo a definição do IBGE) continentais, além dos ecossistemas costeiros, que não apenas apresentam uma grande biodiversidade, como também colaboram com uma série de outros serviços ambientais.

Com exceção da mata atlântica que, por estar com pouco mais de 7% da vegetação original, conta com a preocupação do governo e da sociedade e está com relativa freqüência na mídia, os demais biomas (caatinga, cerrado, pantanal e pampa) vêm amargando a quase total desatenção dos mais diversos órgãos.

Um dos principais indicativos disso é a pouca presença de unidades de conservação (UC) em todos eles. Nenhum atinge a meta de 10% prevista pela Convenção sobre Biodiversidade Biológica, das Nações Unidas, da qual o Brasil é signatário. O Pantanal, por exemplo, tem apenas 1,1% do território protegido por áreas federais. Os ecossistemas costeiros não têm nem 0,5% resguardado. Mas a perda de vegetação no Pantanal pode comprometer o suprimento de água de toda a Bacia do Rio Prata. A devastação marinha prejudica diretamente o abastecimento de peixes das populações.

Os números de UCs são inversamente proporcionais ao grau de devastação. Enquanto o cerrado tem somente 3,3% do território protegido por unidades federais, a perda da vegetação já pode ter sido de 55%, de acordo com números da ONG Conservação Internacional (CI). Conhecido como floresta de cabeça para baixo, porque a biomassa está mais concentrada na raiz do que nos troncos e folhas, o bioma tem um alto potencial de seqüestrar carbono. “Mas estamos destruindo isso”, lamenta o diretor do Programa Cerrado-Pantanal da CI, Ricardo Machado.

De olho no desmatamento

Em entrevista ao Estado, a secretária de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, Maria Cecília Wey de Brito, declarou que o governo está consciente do problema. Segundo ela, o primeiro passo para redimir essa situação é conhecer o que de fato está acontecendo com cada área. Isso porque, tirando a mata atlântica, nenhum dos biomas conta com sistema de monitoramento do desmatamento.

“Começamos esse processo com a criação do mapa de vegetação do Brasil, que mostra quanto de cada bioma foi desmatado até 2002. Não tínhamos nada semelhante desde a década de 40. Agora estamos tentando constituir, junto com o Ibama, um processo de monitoramento de todos eles. O instituto já tem uma experiência de fiscalização em campo. Queremos passar a aproveitar isso até o fim do ano”, afirma.

“Hoje o Ibama já conta com imagens dos satélites Cbers, Landsat e Alos, mas elas eram voltadas para outras atividades, em especial de fiscalização. Vamos usar para acompanhar a devastação de todos os biomas, a exemplo do que já acontece com a Amazônia”, diz.

Ela explica que parte da deficiência histórica se deveu à dificuldade de visualizar em alguns biomas o que de fato foi desmatado. “A Amazônia é um tapetão verde, então quando ocorre uma alteração, fica mais fácil de ver, porque fica um buraco lá. Já cerrado e caatinga são mais difíceis de serem monitorados nesse sentido, porque está nas características dessas vegetações perder folhas nos períodos de seca. No pampa, distinguir uma gramínea nativa de uma produzida também não é tão simples. Mas agora temos metodologias mais refinadas, achamos que será mais fácil.”

Quanto à diferença dos números de desmatamento fornecidos pelas ONGs e pelo MMA (em geral os oficiais tendem a ser menores), Maria Cecília explica que o governo optou por considerar nos números de vegetação remanescente trechos que, apesar de afetados por interferência humana, têm condições de recuperar parte de sua biodiversidade. “É claro que ela nunca vai voltar a ser o que era, mas estamos considerando aquelas áreas que podem ser elevadas a um estágio superior ao que estão hoje ou que, ao menos, são capazes de manter os serviços ambientais que sempre fizeram”, afirma.

Em algumas áreas, ela admite que pode haver um choque de interpretação – para o MMA ainda existe 27% de mata atlântica, por exemplo. “Mas acho que, se o território de áreas remanescentes é maior no nosso mapa, isso também aumenta a responsabilidade do governo sobre áreas a serem preservadas ou recuperadas.”