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Artigo

Transição religiosa na América Latina

 

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A Igreja Católica manteve uma ampla hegemonia na América Latina, por mais de 500 anos, desde a chegada de Cristóvão Colombo, em 1492.

Porém, a partir do último quartel do século XX, a percentagem das filiações católicas começou a diminuir, em ritmos diferentes, em todos os países da região.

A tabela abaixo, com dados do Instituto Latinobarômetro, mostra que as filiações católicas representavam 80% da população da América Latina e Caribe (ALC) em 1995 e diminuíram para 54% em 2024, uma diferença de 26 pontos no período, ou -0,90% ao ano. Em alguns países a queda foi mais acelerada e em outros foi mais lenta.

Em Honduras, os católicos representavam cerca de três quartos (76%) da população em 1995 e diminuindo para um terço (33%) em 2024, uma diferença de 43 pontos no período, ou -1,48% ao ano. Honduras é o país com a menor percentagem de católicos na região. No Panamá os católicos caíram de 89% para 52% entre 1995 e 2024, uma redução de -1,28% ao ano. No mesmo período, os católicos caíram de 78% para 46% no Brasil, uma redução de -1,1% ao ano. Na parte de baixo da tabela, o México teve uma diminuição de 77% para 72% no período, uma redução de somente -0,17% ao ano.

Em sete países da tabela, os católicos já perderam a maioria absoluta: Honduras (33%), Uruguai (33%), Guatemala (39%), El Salvador (40%), República Dominicana (43%), Chile (45%) e Brasil (46%). A maior força católica encontra-se na Venezuela, Paraguai e México, com as filiações católicas representando 72%.

percentagem de filiações católicas em países da américa latina

A tabela abaixo, também com dados do Latinobarômetro, mostra que os evangélicos já ultrapassaram os católicos em dois países em 2024. Em Honduras, os católicos representam 36%, os evangélicos 43% e os sem religião (ou não filiados) totalizam 19%. Na Guatemala os católicos são 39%, os evangélicos 40% e os sem religião (ou não afiliados) 18%.

No Uruguai, os sem religião (ou não afiliados) são 52%, superando em muito os católicos com 33% e os evangélicos com apenas 6%. No Chile, os católicos continuam mantendo uma maioria relativa, com 45%, mas muito próximo dos sem religião (ou não afiliados) com 37% e os evangélico com somente 17%. O México é o país que apresenta a maior proporção de católicos (72%) em relação aos evangélicos (5%).

religião na américa latina

A América Latina está passando por uma grande transição religiosa que se manifesta em 4 aspectos: 1) Declínio absoluto e relativo das filiações católicas; 2) Aumento acelerado das filiações evangélicas (com diversificação das denominações e aumento dos evangélicos não institucionalizados); 3) Crescimento do percentual das religiões não cristãs e 4) Aumento absoluto e relativo das pessoas que se declaram sem religião. Isto significa que há um aumento da pluralidade religiosa na região e a possibilidade de uma mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos (protestantes).

A questão da mudança de hegemonia entre os dois grandes grupos cristãos foi analisada de forma pioneira por David Stoll, no livro “Is Latin America Turning Protestant? The Politics of Evangelical Growth” (1990). O autor analisa o crescimento rápido e expressivo das igrejas protestantes, especialmente das evangélicas e pentecostais, na América Latina, um fenômeno que desafiou por décadas a predominância histórica do catolicismo na região. Ele questiona se essa transformação religiosa pode ser interpretada como uma espécie de reforma religiosa — comparável, em certo sentido, à Reforma Protestante europeia — e como isso pode influenciar mudanças sociais e políticas no continente. 

Segundo Stoll, as igrejas evangélicas — em particular as pentecostais — cresceram de forma acelerada desde meados do século XX, atraindo fiéis principalmente entre pobres urbanos, migrantes e comunidades que buscavam formas de espiritualidade mais participativas e emocionalmente intensas. Esse crescimento não é uniforme, mas é significativo em muitos países, combinando conversões com dinâmica de missão e mobilização de redes religiosas. 

Apesar do crescimento, o autor mostra que a América Latina não está simplesmente se transformando em uma região “protestante” nos termos históricos europeus — ou seja, não há um abandono total do catolicismo convertido em uma maioria protestante homogênea. Muitas pessoas continuam a se identificar como católicas, mesmo que com práticas religiosas alteradas, e movimentos como o catolicismo carismático também incorporam práticas semelhantes às evangélicas. 

Stoll mostra como evangélicos passaram a fazer parte do campo político e social, não apenas religioso. Em alguns contextos, igrejas evangélicas dialogam com forças políticas conservadoras ou mobilizam eleitores, influenciando debates sobre moral, direitos sociais e participação democrática. Há tensões entre diferentes visões religiosas: por exemplo, a teologia da libertação — dentro do catolicismo — versus a ênfase evangélica em salvação individual e ética moral conservadora. 

Ele critica leituras simplistas do fenômeno, como a ideia de que evangelização evangélica é mera ferramenta de influência externa (por exemplo, planos políticos dos EUA), embora essa interpretação exista em debates culturais sobre o tema. Argumenta que o crescimento protestante tem raízes locais profundas, ligadas a pedidos espirituais autênticos, redes comunitárias e resposta a condições sociais (pobreza, desigualdade, urbanização). 

A tese central não é que a América Latina deixaria de ser majoritariamente católica de forma automática, mas que estava se tornando religiosamente plural. Ou seja, mais competição e diversidade e não necessariamente hegemonia protestante. Ele admite que, em alguns países, especialmente onde o protestantismo crescia rapidamente e o catolicismo era institucionalmente mais frágil, poderia haver ultrapassagem numérica. Mas isso não ocorreria de maneira uniforme para todo o continente.

Para Stoll, era possível que evangélicos ultrapassassem católicos em diversos países, mas isso não era uma “lei histórica” nem um destino inevitável da região, pois dependeria da dinâmica sociodemográfica, econômica e política. O certo é que a América Latina deixará de ser um “monopólio católico” e se tornava um campo religioso competitivo e plural.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. A transição religiosa na América Latina e no Brasil, Ecodebate, RJ, 31/05/2017

https://www.ecodebate.com.br/2017/05/31/transicao-religiosa-na-america-latina-e-no-brasil-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. O panorama das mudanças religiosas na América Latina, Ecodebate, RJ, 14/06/2017

https://www.ecodebate.com.br/2017/06/14/o-panorama-das-mudancas-religiosas-na-america-latina-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. Secularização e pluralidade na América Latina, Ecodebate, RJ, 20/09/2017

https://www.ecodebate.com.br/2017/09/20/secularizacao-e-pluralidade-na-america-latina-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. A transição católica e o crescimento da secularização na América Latina, Ecodebate, RJ, 24/01/2018

https://www.ecodebate.com.br/2018/01/24/transicao-catolica-e-o-crescimento-da-secularizacao-na-america-latina-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

LATINOBAROMETRO. El Papa Francisco y la Religión en Chile y América Latina – Latinobarometro 1995-2017 http://www.latinobarometro.org/latNewsShow.jsp

STOLL, David. Is Latin America turning protestant? The politics of Evangelical Growth. University of California Press, 1990

 

Citação
EcoDebate, . (2026). Transição religiosa na América Latina. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/03/30/transicao-religiosa-na-america-latina/ (Acessado em março 30, 2026 at 19:45)

 
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
 

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