EcoDebate

Plataforma de informação, artigos e notícias sobre temas socioambientais

Artigo

O declínio do catolicismo na América Latina e a transição religiosa no Brasil

 

O Brasil está ficando mais plural em termos religiosos. Esta tendência deve se manter nas próximas décadas

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A pesquisa do Pew Research Center, realizada em 2024 e divulgada em 21 de janeiro de 2026, indica que o catolicismo perdeu força de maneira acentuada em seis países da América Latina.

Os 6 países do gráfico abaixo apresentaram redução do percentual de católicos, mas o Brasil foi o país onde as filiações católicas tiveram a maior queda entre 1970 e 2024, caindo de 82% para 46% no período.

declínio do catolicismo na américa latina

O antropólogo americano, David Stoll escreveu o livro “Is Latin America Turning Protestant? The Politics of Evangelical Growth”, em 1990, onde apresenta a primeira análise abrangente sobre o desafio evangélico ao monopólio católico na América Latina. A obra questiona a narrativa alarmista da época sobre uma “invasão das seitas” e propõe reinterpretá-la como um despertar evangélico autóctone, parte de uma reforma religiosa mais ampla que poderia redefinir as bases da identidade latino-americana. Stoll baseia-se em extensos trabalhos de campo, com destaque para estudos de caso na Guatemala.

Sua perspectiva antropológica permite analisar não apenas as conversões religiosas em si, mas suas implicações sociais, políticas e culturais. Ele argumentou que a ausência histórica do clero católico em muitas regiões rurais e periféricas, somada à incapacidade da Igreja Católica de responder às necessidades espirituais e sociais das populações locais, criou um vácuo que os evangélicos souberam preencher com redes comunitárias eficazes. De maneira pioneira, Stoll percebeu a mudança religiosa no continente e colocou a possibilidade de uma mudança na hegemonia entre católicos e evangélicos na região

Após a divulgação dos dados do censo demográfico 2010 – que confirmaram a continuidade de uma rápida mudança no cenário religioso no Brasil – e inspirado no livro de David Stoll, comecei a escrever sobre a transição religiosa e o aumento da pluralidade entre os grupos religiosos.

No dia 01 de julho de 2012 dei uma entrevista para o jornal O Globo, onde apresentei uma projeção da mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos no Brasil: “De acordo com o professor da Ence, até 2030, se for mantido o ritmo atual, os católicos vão passar a ser menos de 50% da população brasileira.

Até 2040, evangélicos e católicos devem empatar. José Eustáquio Diniz Alves afirma ao GLOBO também que o perfil mais descentralizado das igrejas evangélicas e a grande presença evangélica entre as mulheres em idade reprodutiva estão entre os fatores que explicam sua expansão”

Nesta mesma linha, no dia 25 de julho de 2016 escrevi o artigo “A transição religiosa no Brasil: 1872-2050”, publicado aqui no Portal Ecodebate, onde apresentei o gráfico abaixo e afirmei: “As projeções demográficas para as filiações religiosas até meados do século XXI indicam o aumento da pluralidade e a continuidade da mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos.

Os católicos devem chegar a 38,3% em 2040, os evangélicos devem chegar a 38,4% e as outras religiões além dos sem religião deve chegar a 18,9% em 2040. Em 2050, os dados devem ser 35,7% para os católicos, 39,8% para os evangélicos e 24,5% para outras religiões e os sem-religião”.

percentagem de católicos e evangélicos na população brasileira

Porém, no dia 05 de dezembro de 2018, influenciado pelo resultado das eleições presidenciais de 2018, refiz as projeções e escrevi o artigo “Católicos abaixo de 50% até 2022 e abaixo do percentual de evangélicos até 2032”, onde apresento o gráfico abaixo, baseado nos números: a) declínio das filiações católicas em torno de 1,2% ao ano e b) um crescimento de 0,8% ao ano das filiações evangélicas.

“Nas novas projeções, a presença católica na população chegaria a 49,9% em 2022 e a 38,6% em 2032, enquanto a presença evangélica seria de 31,8% e 39,8% nas mesmas datas (conforme mostra o gráfico). Ou seja, no ritmo atual da transição religiosa, não é improvável que os católicos fiquem com menos de 50% das filiações nacionais em 2022 (nos 200 anos da Independência do Brasil) e que sejam ultrapassados pelos evangélicos até 2032”.

transição religiosa no brasil 1940 2032

O fato que mais influenciou esta projeção foi a participação decisiva dos evangélicos nos resultados eleitorais. Creio que foram os mesmo fatores que levaram a cineasta Petra Costa a produzir o documentário “Apocalipse nos Trópicos”.

Contudo, os dados do censo demográfico 2022 mostraram uma desaceleração da queda das filiações católicas e da subida do percentual de evangélicos. Este fato possibilitou que diversas pessoas escrevessem sobre o fim da transição religiosa no Brasil e para uma estagnação da correlação de forças entre católicos e evangélicos no país.

Porém, há diversos questionamentos sobre os dados do censo 2022. Em primeiro lugar, o censo foi realizado em uma conjuntura desafiadora, pois foi adiado por conta da pandemia da covid-19, faltou dinheiro para ser realizado em 2021, houve judicialização com a intermediação do STF e, por fim o censo foi realizado conjuntamente com uma eleição geral extremamente polarizada em 2022 e se estendeu até abril de 2023, muito além do tempo previsto.

O IBGE ainda não divulgou os dados desagregados para o acompanhamento da evolução das diversas denominações, o que poderia indicar qual das denominações evangélicas podem ter apresentado menor ritmo de crescimento. Também houve mudança de metodológica, pois a pergunta sobre religião não incluiu a população de crianças, de 0 a 9 anos de idade.

Outro agravante é que o censo demográfico de 2022 teve um erro de cobertura populacional maior do que nos censos anteriores. Esta omissão pode ter afetado ligeiramente os dados sobre afiliações religiosas.

Mesmo com todas as dúvidas sobre a acurácia dos dados do censo 2022, realizei uma projeção levando em consideração o ritmo ocorrido no último período intercensitário. Desta forma, tomando como base a variação percentual anual dos quatro grandes grupos entre 2010 e 2022, as filiações evangélicas podem ultrapassar as filiações católicas se o ritmo da última variação intercensal for mantida, conforme mostrei no artigo “A transição religiosa no Brasil: 1872-2049”, publicado aqui no Portal Ecodebate (Alves, O9/06/2025)

O gráfico mostra que o percentual de católicos deve cair para 51,2% em 2030, para 44,3% em 2040 e para 38% em 2049. O percentual de evangélicos deve subir para 30,4% em 2030, para 34,7% em 2040 e para 38,6% em 2049. O percentual de pessoas que se declaram sem religião deve chegar a 12,5% em 2049 e o percentual das demais religiões deve chegar a 10,9% em 2049.

260302d transição religiosa no brasil 1872 2049

Todavia, três pesquisas divulgadas recentemente mostram dados discrepantes com aqueles do censo demográfico 2022. Pesquisas realizadas em 2023 e apresentadas nos livros “A Cabeça do Brasileiro: 20 anos depois, o que mudou?”, do cientista político Alberto Carlos Almeida e “Brasil no espelho”, do cientista político Felipe Nunes apresentam percentuais de católicos menores e evangélicos maiores do que as do censo 2022.

E a pesquisa do Instituto Pew Research Center, realizada em 2024 indicou que o percentual de católicos, que era de 61% em 2013-14, caiu para 46% em 2024, uma redução de 15% na década, ou cerca de 1,5% ao ano. Indicou ainda 29% de evangélicos, 15% de sem religião e 10 de outras religiões para o Brasil, em 2024.

Desta forma, a pesquisa PEW contrasta com a tendência apresentada pelo censo demográfico 2022, do IBGE, pois indica uma aceleração da perda de filiações católicas, apesar de um avanço pequeno nas filiações evangélicas.

Considerando os dados do censo 2022 e destas outras 3 pesquisas, elaborei três projeções sobre o futuro da relação entre evangélicos e católicos (REC) no Brasil. A REC é apenas uma parte da transição religiosa, mas é uma parte importante pois mede a possibilidade de uma mudança de hegemonia entre os dois maiores grupos religiosos do país.

Evidentemente, existe a possibilidade de estagnação da transição religiosa. Entretanto, o objetivo das projeções é avaliar diferentes ritmos da continuidade das transformações históricas do campo religioso no Brasil.

O gráfico abaixo apresenta as três projeções. A primeira foi elaborada a partir do censo 2022 e tem início no percentual apontado no recenseamento dos dois grandes grupos com variação seguindo o ritmo apontado pelos censos 2010 e 2022, com os católicos perdendo 0,69% ao ano e os evangélicos aumentando 0,43% ao ano. Nesta hipótese, a REC ultrapassa 100 no ano de 2049.

Na hipótese de transição moderada, o percentual utilizado em 2022 para os dois grandes grupos é a média das quatro pesquisas e o ritmo de mudança é de -0,9% ao ano para os católicos e + 0,5% ao ano para os evangélicos. Nesta hipótese, a REC ultrapassa 100 no ano de 2039.

projeções da percentagem de católicos e evangélicos no brasil

Na hipótese de transição acelerada, o percentual utilizado em 2022 para os dois grandes grupos também foi a média das quatro pesquisas e o ritmo de mudança foi -1,2% ao ano para os católicos e + 0,7% ao ano para os evangélicos. Nesta hipótese, a REC ultrapassa 100 no ano de 2034.

O Brasil está ficando mais plural em termos religiosos. Esta tendência deve se manter nas próximas décadas. Mas existe todo um debate sobre a possibilidade de mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos.

Uma das possibilidades é que os católicos possam perder a maioria absoluta, mas não a maioria relativa da população brasileira. Outra possibilidade é que os evangélicos – mesmo sem conquistar a maioria absoluta – consigam a maioria relativa. Neste caso, as projeções do gráfico acima indicam que a mudança de hegenonia pode acontecer entre 2034 e 2049, dependendo do ritmo de mudança.

No dia 03 de julho de 2025 o Instituto de Estudos da Religião (ISER) organizou um debate denominado “Censo 2022: reflexões sobre religiões e sociedade” com os pesquisadores Paul Freston e José Eustáquio Alves, mediado pela pesquisadora Christina Vital (o evento está disponível no link apresentado nas referências deste artigo) debatendo o tema. Evidentemente, as tendências estão em aberto e só o futuro poderá confirmar se haverá ou não uma mudança de hegemonia no cenário religioso brasileiro.

Sem dúvida, o cenário da transição religiosa no Brasil tem uma inquestionável certeza: o aumento da pluralidade de crenças no país.

Mas embora a mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos seja uma hipótese altamente provável, a data precisa da ultrapassagem é uma questão em aberto. Novas pesquisa irão lançar luzes neste processo de mudança do campo religioso.

De qualquer forma, é altamente provável que uma REC superior a 100 ocorra no período entre 2034 e 2049.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

Alessandra Duarte. Demógrafo diz que até 2030, católicos devem ser menos de 50%, O Globo, 01/07/2012

https://oglobo.globo.com/politica/demografo-diz-que-ate-2030-catolicos-devem-ser-menos-de-50-5362149#:~:text=At%C3%A9%202040%2C%20evang%C3%A9licos%20e%20cat%C3%B3licos,fatores%20que%20explicam%20sua%20expans%C3%A3o

ALVES, JED. A transição religiosa no Brasil: 1872-2050, Ecodebate, 25/07/2016

https://www.ecodebate.com.br/2016/07/25/a-transicao-religiosa-no-brasil-1872-2050-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. Católicos abaixo de 50% até 2022 e abaixo do percentual de evangélicos até 2032, Ecodebate, O5/12/2018

https://www.ecodebate.com.br/2018/12/05/transicao-religiosa-catolicos-abaixo-de-50-ate-2022-e-abaixo-do-percentual-de-evangelicos-ate-2032-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. A transição religiosa no Brasil: 1872-2049, Ecodebate, O9/06/2025

https://www.ecodebate.com.br/2025/06/09/a-transicao-religiosa-no-brasil-1872-2049/

ALMEIDA, Alberto C. A cabeça do brasileiro, vinte anos depois: o que mudou?, RJ, Difel, 2025

NUNES, Felipe. Brasil no Espelho, RJ, Globo, 2025

Kirsten Lesage, Jonathan Evans, Manolo Corichi and Skylar Thomas. Catholicism Has Declined in Latin America Over the Past Decade, Pew Research Center, 21/01/2026

https://www.pewresearch.org/global/2026/01/21/catholicism-has-declined-in-latin-america-over-the-past-decade/

ISER. Censo 2022: reflexões sobre religiões e sociedade. Debate com José Eustáquio Alves e Paul Freston, mediado por Christina Vital, 03/07/2025 https://www.youtube.com/watch?v=GvbtBA1jxnk

 

 

Citação
EcoDebate, . (2026). O declínio do catolicismo na América Latina e a transição religiosa no Brasil. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/03/02/o-declinio-do-catolicismo-na-america-latina-e-a-transicao-religiosa-no-brasil/ (Acessado em março 2, 2026 at 06:03)

 
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
 

[ Se você gostou desse artigo, deixe um comentário. Além disso, compartilhe esse post em suas redes sociais, assim você ajuda a socializar a informação socioambiental ]

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O conteúdo do EcoDebate está sob licença Creative Commons, podendo ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, ao EcoDebate (link original) e, se for o caso, à fonte primária da informação