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Artigo

A indústria da dragagem

 

260608 dragagem

Foto de retroescavadeira tipo caranguejo retirando sedimentos e lodo de trecho próximo da foz do Rio Grande, Ubatuba, Litoral Norte do Estado de São Paulo, no dia 03/06/2026. Autor: Heraldo Campos.

Vislumbra-se a necessidade de avanço nos estudos de tecnologias de aproveitamento dos sedimentos, frente à iminente escassez de áreas para bota-fora e à possibilidade de retorno econômico das atividades de desassoreamento

“No contexto dos sistemas de drenagem urbana, uma importante questão que vem ganhando espaço junto ao meio técnico se refere à limpeza e desassoreamento de rios e canais, onde o carreamento de sedimentos e resíduos pela rede de drenagem acaba provocando perda de capacidade de escoamento, em função da diminuição da profundidade e da seção transversal. Na Região Metropolitana de São Paulo, estima-se que os dois principais cursos d’água, os rios Tietê e Pinheiros, somam volumes de aporte anual de sedimentos da ordem de 3 milhões de metros cúbicos, implicando em gastos anuais com o desassoreamento da ordem de 160 milhões de reais. (…)” [1]

Nos anos 60/70/80 do século passado, na calha do rio Tietê na cidade de São Paulo, por causa das constantes enchentes de verão, era possível ver várias embarcações com dragas para retirada de sedimentos, lodo, resíduos domésticos, resíduos industriais, etc., que pela intensa atividade de desassoreamento nesse importante rio paulista, era conhecida como a indústria da dragagem.

Um leito de rio, como esse, retificado em vários trechos, com suas margens laterais impermeabilizadas pelo asfalto das vias marginais de circulação de veículos, associado ao lançamento de esgoto in natura, coleta insuficiente de lixo urbano e remoção de terra para implantação de loteamentos mal planejados e mal posicionados no território municipal, acabam virando um prato cheio para uma das mazelas, como as enchentes, na maior cidade da América do Sul.

Nem é preciso dizer o que a indústria da dragagem consumiu (e consome) recursos dos cofres públicos numa operação de retirada de material diverso que, convenhamos, é uma solução paliativa. Faltam áreas de infiltração no solo urbano para as águas de chuva visando amortecer o fluxo das águas superficiais e, ao mesmo tempo, recarregar os reservatórios de águas subterrâneas (aquíferos), numa tentativa de atenuar as enchentes urbanas que provocam inúmeros transtornos humanos e materiais.

Uma obra de engenharia conhecida como piscinão, com vários deles distribuídos nas margens laterais do Rio Tietê, tem mostrado sua ineficácia porque se a sua função é apenas acumular por um tempo um volume de água do excesso das precipitações, a falta de escoamento (esvaziamento) e o o acúmulo de lixo e entulho nos seus interiores, mostra que é um tipo de obra para inglês ver (ou não).

Pelo exposto, entende-se, salvo melhor análise, que numa escala menor (grandes extensões territoriais) a atenuação do problema das enchentes recorrentes é complexa e que os serviços urbanos (coleta de esgoto, coleta de lixo, controle do uso e ocupação da terra, etc.) tem que ser mais eficientes e voltados para a maioria da população que vivem nessas áreas consideradas de risco.

Certas iniciativas próprias de algumas comunidades, numa escala maior (áreas menores com muitos detalhes), envolvendo um ou mais alguns quarteirões urbanos como, por exemplo, os jardins de água para infiltração das águas de chuva, são extremamente importantes mas teriam que ser multiplicados de maneira exponencial para produzir um efeito visível na micro e na macrodrenagem e, sem dúvida, com o apoio do setor público.

Como paulistano nascido no bairro fabril do Brás, Zona Leste da capital paulista, convivi na carne com esse problema das enchentes em várias ocasiões e hoje, trabalhando e morando em Ubatuba, guardada as devidas proporções, observo uma situação semelhante sobre a citada indústria da dragagem em trecho próximo da foz do Rio Grande.

Nunca é demais lembrar que nos meses de agosto e setembro do ano passado foi “(…) vista, em vários trechos do leito do Rio Grande (Ubatuba, Litoral Norte do Estado de São Paulo) uma draga retirando sedimentos de fundo da calha principal e dos arredores. Numa avaliação visual, pode-se dizer que a maior parte desses sedimentos é constituído de areia e de lodo (esgoto doméstico) mas observa-se, principalmente durante a maré baixa, próximo da desembocadura do rio no Oceano Atlântico, restos de pneus, pedaços de concreto, resíduos urbanos (plásticos, madeiras, isopores, etc.) misturados ao material dragado.

Esse tipo de técnica de engenharia, a dragagem, se bem aplicada e controlada, favorece a manutenção de uma profundidade adequada para a passagem segura de traineiras de pesca, sem o risco de encalhe, uma vez que existe um mercado de peixe municipal no local (conhecido como ‘Ilha dos Pescadores’), muito frequentado por moradores e turistas.” [2]

Mas qual seria seriam os motivos para se pensar no aparecimento do fantasma da chamada indústria da dragagem? Ao que tudo indica, os motivos seriam os mesmos da capital paulista e as causas, em uma outra escala, as que rolaram na antiga terra da garoa, por décadas, e que consumiram vultuosos recursos públicos. Como trechos do leito do Rio Grande vem sendo dragados e desassoreados há meses para, em tese, facilitar o escoamento das águas que chegam nesse rio, a torcida é para que não se caia numa armadilha local como foi para a indústria da dragagem do Rio Tietê e seus contribuidores, os rios Tamanduateí e Pinheiros.

Assim, de maneira bem direta, ou seja, espera-se que a administração pública dessa importante cidade turística se preocupe, também, com a eficiência dos serviços urbanos essenciais como coleta de esgoto, coleta de lixo, controle do uso e ocupação da terra, etc. para a melhoria da qualidade de vida da população e, como consequência, evitar o assoreamento desse rio principal e afluentes .

Para concluir, as observações aqui relatadas reforçam “(…) a importância do desenvolvimento de estudos com foco na prevenção/controle de processos erosivos e no entendimento dos processos hidrossedimentológicos na bacia do Alto Tietê, para avaliar de forma sistemática a produção, transporte e deposição de sedimentos no rio Tietê e seus principais tributários, possibilitando agir de forma preventiva contra o assoreamento. Em paralelo, vislumbra-se a necessidade de avanço nos estudos de tecnologias de aproveitamento dos sedimentos, frente à iminente escassez de áreas para bota-fora e à possibilidade de retorno econômico das atividades de desassoreamento, com consequente desoneração do poder público.” [1]

Fontes

[1] Costa, S. B.; Almeida Filho, G. S.; Giudice, S. L.; Hellmeister Jr., Z. 2013. Panorama do desassoreamento nos rios Tiête e Pinheiros, São Paulo/SP, Brasil. XX Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos. Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRH). Bento Gonçalves, RS.

https://files.abrhidro.org.br/Eventos/Trabalhos/66/SBRH2013__PAP012905.pdf

[2] “Dragado”. Artigo de Heraldo Campos de 04/09/2025.

https://cacamedeirosfilho.blogspot.com/2025/09/dragado.html

*Heraldo Campos é geólogo (Instituto de Geociências e Ciências Exatas da UNESP, 1976), mestre em Geologia Geral e de Aplicação e doutor em Ciências (Instituto de Geociências da USP, 1987 e 1993) e pós-doutor em hidrogeologia (Universidad Politécnica de Cataluña e Escola de Engenharia de São Carlos da USP, 2000 e 2010).

 

Citação
EcoDebate, . (2026). A indústria da dragagem. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/06/08/a-industria-da-dragagem/ (Acessado em junho 8, 2026 at 08:48)

 
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
 

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