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Limitar o aquecimento a 1,5°C pode evitar 75% dos impactos extremos à vida selvagem

 

aquecimento global 2023 2024
Amazônia aparece entre áreas mais vulneráveis; estudo aponta que quase todos os habitats podem enfrentar calor extremo até o final do século

Por Pamela Gouveia | Instituto ClimaInfo

Até 2085, 36% dos habitats de espécies em terra poderão estar expostos a múltiplos eventos climáticos extremos, como ondas de calor, incêndios e inundações, caso o aquecimento global continue avançando. O dado é de um estudo publicado na revista Nature Ecology and Evolution, conduzido por uma equipe internacional de 18 cientistas e que aponta a Amazônia como uma das regiões mais vulneráveis a esses impactos.

Ondas de calor, por si só, já devem atingir quase todos os ecossistemas do planeta. Até 2050, cerca de 74% dos habitats estarão expostos a esse tipo de evento extremo — percentual que pode chegar a 93% até 2085 no cenário atual de aquecimento. No ano 2000, esse índice era de apenas 18%, evidenciando a rápida intensificação desses eventos.

O estudo também identifica a bacia amazônica, o sul da África e o Sudeste Asiático como pontos críticos globais para o aumento da frequência de incêndios florestais, reforçando o risco crescente sobre regiões de alta biodiversidade.

Esse cenário, no entanto, ainda pode ser revertido, segundo o estudo. Se o mundo reduzir rapidamente o uso de combustíveis fósseis e cumprir as metas do Acordo de Paris, a exposição de habitats a múltiplos eventos extremos cairia para menos de 10% até 2085 — o equivalente a evitar cerca de 75% dos impactos mais severos sobre a biodiversidade global.

Os dados vêm de uma análise que abrange quase 34 mil espécies de vertebrados terrestres, mapeando impactos sobre anfíbios, aves, mamíferos e répteis em escala global. A pesquisa foi conduzida por uma equipe internacional de 18 cientistas e liderado pelo Potsdam Institute for Climate Impact Research (PIK).

“As mudanças climáticas, e em particular os eventos extremos, ainda estão sendo muito subestimados quando se trata de planejamento de conservação. Não será apenas uma mudança gradual de temperatura ao longo de muitos anos”, afirma Stefanie Heinicke, autora principal do estudo.

A Amazônia aparece como um dos principais hotspots globais para o aumento de eventos extremos, especialmente incêndios florestais e ondas de calor — hoje considerados o segundo maior risco climático para a biodiversidade. Em 2020, incêndios no Pantanal mataram cerca de 17 milhões de animais vertebrados, um dos episódios mais severos já registrados.

Segundo o artigo, uma onda de calor, inundação ou incêndio pode devastar populações animais. Estudos anteriores já sinalizaram esse fenômeno: 57% dos registros científicos indicam impactos negativos de eventos extremos sobre espécies; há 100 casos documentados de queda populacional acima de 25% e 31 registros de extinção local.

Mas cortar rapidamente as emissões pode evitar grande parte desses impactos. Em um cenário em que o aquecimento começa a reduzir na segunda metade do século, a parcela de habitats de animais terrestres exposta a múltiplos eventos até 2085 seria limitada a apenas 9%. “Ainda podemos fazer muita diferença se reduzirmos as emissões o mais rápido possível a partir de agora”, acrescentou Heinicke.

Eventos combinados ampliam danos
O principal alerta dos pesquisadores é o efeito combinado dos extremos. Hoje, eventos como seca, calor e incêndios já ocorrem de forma encadeada em diversas regiões. Quando múltiplos tipos de eventos extremos ocorrem em sequência, os impactos sobre espécies e habitats se acumulam. Até 2050, cerca de 14% dos habitats já enfrentarão múltiplos eventos, proporção que sobe para 36% até 2085.

Quando esses eventos acontecem em sequência, os impactos podem ser até 40% mais severos, acelerando perdas populacionais e degradando habitats. Estudos anteriores mostraram que, após os incêndios de 2019–2020 na Austrália, houve quedas entre 27% e 40% maiores em espécies de plantas e animais em áreas que haviam enfrentado seca imediatamente antes.

Impactos sobre espécies
O estudo é um dos primeiros a quantificar a exposição da fauna a incêndios florestais em escala global. No ano 2000, apenas 11 espécies de anfíbios tinham mais de 25% de seus habitats expostos ao fogo. Esse número pode chegar a quase 500 até 2085 no cenário de baixa emissão, mas ultrapassa 3.400 espécies na trajetória atual — quase sete vezes mais.

Espécies com áreas de distribuição pequenas enfrentam riscos particularmente elevados. O cacatua-negra-de-Carnaby perdeu cerca de 60% da população após uma onda de calor na Austrália.

Até 2085, quase 3.800 espécies de aves poderão ter mais de 75% de seus habitats expostos a ondas de calor no cenário do Acordo de Paris — número que ultrapassa 9.800 espécies na trajetória atual. Reduzir rapidamente o uso de combustíveis fósseis reduziria mais da metade desse impacto.

Modelagem de impactos para a biodiversidade
O artigo adota uma abordagem nova para analisar os impactos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade. Ele utiliza resultados de modelos de impacto climático, que fornecem dados sobre efeitos mais complexos além do aumento da temperatura, como áreas inundadas e projeções de incêndios florestais.

Para exemplificar: os autores conseguiram mostrar que, até 2050, em um cenário em que o aquecimento continua a aumentar na segunda metade do século, 74% dos habitats atuais de animais em terra estarão expostos a ondas de calor, 16% a incêndios florestais, 8% a secas e 3% a inundações fluviais.

“As projeções de incêndios florestais serem tão significativas é algo realmente notável. Não conheço outro estudo que tenha projetado a exposição de animais a incêndios dessa forma, então ver que há uma ameaça maior de incêndios do que, por exemplo, de secas, revela um ponto cego importante”, disse Katja Frieler, coautora do estudo, que lidera o Inter-Sectoral Impact Model Intercomparison Project e é chefe de departamento de pesquisa no PIK.

 

Citação
EcoDebate, . (2026). Limitar o aquecimento a 1,5°C pode evitar 75% dos impactos extremos à vida selvagem. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/04/30/limitar-o-aquecimento-a-15gradcelsius-pode-evitar-75-dos-impactos-extremos-a-vida-selvagem/ (Acessado em abril 30, 2026 at 09:42)

in EcoDebate, ISSN 2446-9394

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