Brasil apresentou grande queda da mortalidade infantil mas tem muito espaço para avançar
Mortalidade infantil – O Brasil fez muito, mas fez menos do que outros países com o mesmo nível de desenvolvimento
Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
O Brasil conseguiu reduzir de forma significativa a mortalidade infantil nos últimos 80 anos. A Taxa de mortalidade infantil estava em torno de 250 óbitos para cada 1 mil nascidos vivos no início da década de 1940.
Segundo informações das Tábuas de Mortalidade 2024, do IBGE, divulgadas em novembro de 2025, a taxa de mortalidade infantil, para ambos os sexos, ficou em 12,3 por mil em 2024.
Isto significa que o Brasil conseguiu reduzir em 20 vezes a mortalidade infantil em 80 anos. Sem dúvida, foi uma vitória expressiva.
Mas os dados do IBGE também mostram que a taxa de 12,3 óbitos para cada 1 mil crianças nascidas vivas está ligeiramente acima à taxa de 12,1 óbitos para cada 1 mil crianças nascidas vivas em 2019, antes da pandemia da Covid-19. Isto significa que existe uma estagnação da taxa de mortalidade infantil no último quinquênio. Em outros países do mundo os avanços foram ainda mais significativos.
O gráfico abaixo, do site Our World in Data, mostra que a taxa de mortalidade infantil no Brasil era muito alta e estava em 250 por mil (ou 25%). Porém, o Chile e a Coreia do Sul tinham taxas bem mais altas e acima de 350 por mil (ou 35%). Os três países reduziram rapidamente as taxas de mortalidade infantil.
Na década de 1950, o Chile e a Coreia do Sul já tinham taxas menores do que as brasileiras e continuaram avançando de maneira mais veloz. Em 2023, a taxa de mortalidade infantil estava em 14 por mil no Brasil, 7,2 por mil no Chile e apenas 2,8 por mil na Coreia do Sul. Os números sul-coreanos são espetaculares.

Portanto, o Brasil avançou, mas poderia ter avançado muito mais. E as principais causas do atraso do país para garantir uma maior sobrevivência das crianças podem ser sintetizadas nos seguintes pontos:
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Saneamento básico: o Brasil tem uma elevadíssima percentagem de domicílios sem acesso ao saneamento básico integral (tratamento de água, esgoto e coleta de lixo). Na ausência destes serviços, a população mais pobre do país fica sujeita às doenças infecciosas que se propagam no esgoto a céu aberto, no lixo e na água de má qualidade.
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Alto índice de gravidez indesejada na adolescência: apesar da queda nos últimos anos, o Brasil ainda tem taxas elevadas de gravidez na adolescência, muitas delas frutos de violência sexual contra meninas e jovens. As taxas de mortalidade infantil são maiores entre as mães adolescentes, especialmente na periferia das grandes cidades brasileiras.
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Falta de cobertura universal e baixa qualidade da atenção pré-natal + parto assistido. As fragilidades do sistema público de saúde faz com que os óbitos neonatais representam grande parte das mortes infantis. Intervenções de baixo custo (atenção pré-natal de qualidade, parto assistido, reanimação neonatal, banho e amamentação precoce) reduzem mortes de recém-nascidos.
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Educação feminina e redução da pobreza estrutural: a educação das mulheres reduz a mortalidade infantil via melhor uso dos serviços de saúde e práticas de cuidado. A redução da pobreza também reduz a mortalidade infantil, pois boas condições financeiras garantem a saúde materno-infantil.
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Reduzir as desigualdade sociais: o Brasil é um dos país mais desiguais do mundo, com grandes iniquidades espaciais, de classe, raça, gênero e geração. Uma sociedade mais igualitária traria melhores condições de vida para todas a população brasileira e reduziria a mortalidade infantil.
O Brasil fez muito, mas fez menos do que outros países com o mesmo nível de desenvolvimento. Mas, para ter uma taxa de mortalidade abaixo de 10 óbitos por 1 mil nascidos vivos é preciso combinar redução da pobreza, com aumento da educação de qualidade, infraestrutura adequada de saneamento, transporte e comunicação e programas de saúde que estabeleçam cobertura universal e de qualidade na atenção pré-natal, parto e pós-natal, além de intervenções neonatais de alto impacto.
José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382
Referências:
ALVES, JED. Brasil 2042: Enfrentando a Nova Revolução Demográfica, Ecodebate, 23/08/2024
https://www.ecodebate.com.br/2024/08/23/brasil-2042-enfrentando-a-nova-revolucao-demografica/
ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século XXI (com a colaboração de GALIZA, F), ENS, maio de 2022
https://prdapi.ens.edu.br/media/downloads/Livro_Demografia_e_Economia_digital_2.pdf
Liane THEDIM. Em um mundo mais velho, jovens também deveriam lutar contra etarismo, Valor, 30/04/2025 https://valor.globo.com/25-anos/noticia/2025/04/30/em-um-mundo-mais-velho-jovens-tambem-deveriam-lutar-contra-etarismo.ghtml
ALVES, JED. Os desafios de um Brasil mais velho. 25 anos do Valor Econômico, 30/04/2025
https://infograficos.valor.globo.com/especial/conversas-necessarias.html
ALVES, JED. JN: Levantamento do IBGE mostra que expectativa de vida no Brasil aumentou para 76 anos, entrevista ao Jornal Nacional, 29/11/2025
https://www.youtube.com/watch?v=fX97WIzczqM
IBGE. Expectativa de vida chega a 76,6 anos em 2024, IBGE, 28/11/2025
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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