O sentido social da conservação da biodiversidade

Enquanto a conservação for tratada como um tema especializado, distante das preocupações sociais mais amplas, a perda da biodiversidade continuará avançando em silêncio
Reinaldo Dias
Articulista do EcoDebate, é Doutor em Ciências Sociais -Unicamp
Especialista em Ciências Ambientais – USF
Pesquisador associado do CPDI do IBRACHINA/IBRAWORK
http://lattes.cnpq.br/5937396816014363
reinaldias@gmail.com
A crise da biodiversidade é amplamente reconhecida como um dos grandes desafios ambientais do nosso tempo. Relatórios, diagnósticos e alertas científicos se acumulam, apontando para a perda acelerada de espécies e a degradação de ecossistemas em diferentes regiões do planeta. Ainda assim, essa realidade raramente se traduz em mobilização social ou debate público à altura de sua gravidade. Em muitos casos, a extinção ocorre de forma silenciosa, registrada em documentos técnicos, mas distante do cotidiano da sociedade.
Esse distanciamento revela um problema que vai além da degradação ambiental em si. Ele indica que, para grande parte da sociedade, a conservação deixou de fazer sentido como questão coletiva. Quando proteger espécies é percebido como tarefa exclusiva de especialistas, e não como uma responsabilidade compartilhada, mesmo os melhores esforços técnicos se tornam frágeis.
Este artigo parte dessa constatação para discutir por que a crise da biodiversidade é também uma crise social e política — e por que criar um sentido social para a conservação é condição essencial para que ela se sustente no longo prazo.
Quando a conservação perde sentido social
A conservação da biodiversidade nem sempre fracassa por falta de conhecimento científico. Em muitos casos, o problema é outro. A proteção das espécies deixa de fazer sentido para a sociedade. Quando isso acontece, a extinção deixa de ser percebida como uma perda coletiva e passa a ser tratada como um tema distante, restrito a relatórios técnicos e debates especializados.
Nas últimas décadas, a conservação se consolidou como um campo altamente técnico, apoiado em diagnósticos detalhados, categorias de ameaça e planos de ação bem estruturados. Esses instrumentos são fundamentais, mas têm um limite claro. Sozinhos, não mobilizam a sociedade. Quando a conservação se comunica apenas por meio de dados, siglas e documentos oficiais, ela tende a se afastar da vida cotidiana das pessoas e do debate público mais amplo.
Esse distanciamento ajuda a explicar por que muitas espécies entram em colapso populacional sem provocar reação social significativa. Há casos em que alertas científicos foram feitos com antecedência, planos de conservação foram formalmente elaborados e, ainda assim, a perda de habitat avançou. A ausência de mobilização social e de pressão política faz com que esses instrumentos permaneçam frágeis, facilmente ignorados diante de interesses econômicos ou mudanças de governo.
Um exemplo emblemático desse processo é o do mutum-do-nordeste (Pauxi mitu), ave endêmica da Mata Atlântica nordestina. Apesar de alertas científicos precoces e de esforços técnicos relevantes, incluindo programas de reprodução e manejo, a espécie foi declarada extinta na natureza. Sua trajetória revela como a conservação, quando permanece restrita a instituições especializadas e não se transforma em causa socialmente reconhecida, torna-se frágil diante da perda contínua de habitat, da ausência de pressão pública e da instabilidade das políticas ambientais. Nessas situações, a extinção não ocorre por desconhecimento, mas porque a sociedade não foi chamada a reconhecer aquela perda como algo que lhe diz respeito.
Outro fator que contribui para a perda de sentido social é a forma fragmentada como as espécies ameaçadas costumam ser apresentadas. Cada espécie aparece como um problema isolado, desconectado dos conflitos territoriais, das desigualdades sociais e das decisões políticas que moldam o uso do território. Esse enquadramento dificulta a compreensão de que a extinção não é um evento natural inevitável, mas o resultado de escolhas concretas sobre desenvolvimento, exploração econômica e prioridades públicas.
Quando a conservação perde esse vínculo com a realidade social, instala-se um silêncio coletivo. A extinção não gera indignação, não ocupa espaço no debate político e tampouco se traduz em cobrança institucional. A perda da biodiversidade passa a ser vista como algo lamentável, porém distante, quase abstrato. Nesse cenário, conservar deixa de ser uma responsabilidade compartilhada e se transforma em uma tarefa delegada a especialistas, sem respaldo social suficiente para se sustentar no longo prazo.
Em última instância, a perda do sentido social da conservação enfraquece sua capacidade de produzir mudanças reais. Políticas sem apoio social organizado tornam-se vulneráveis a retrocessos, cortes de recursos e flexibilizações normativas. Reconhecer esse limite é essencial para compreender que a crise da biodiversidade não é apenas um problema ecológico, mas também um problema social e político, que exige mais do que boas intenções ou soluções técnicas isoladas.
Educação ambiental, comunicação e a disputa pelo sentido da conservação
Se a conservação das espécies depende da construção de um sentido social compartilhado, a educação ambiental e a comunicação pública tornam-se elementos centrais desse processo. No entanto, seu papel é frequentemente tratado de forma simplificada, como se informar ou sensibilizar fosse suficiente para gerar engajamento social duradouro. A experiência mostra que não é.
Grande parte das iniciativas de educação ambiental ainda se concentra na transmissão de informações sobre espécies ameaçadas, ciclos naturais ou boas práticas individuais. Embora essas ações tenham valor, seus efeitos tendem a ser limitados quando não conseguem conectar a biodiversidade às experiências concretas das pessoas, aos conflitos territoriais e às decisões políticas que moldam a realidade ambiental. O risco é transformar a conservação em um tema abstrato, percebido como importante, mas distante.
A comunicação exerce papel semelhante. Espécies ameaçadas ganham visibilidade quando conseguem ocupar espaço na mídia, em campanhas educativas ou em narrativas simbólicas. Essa visibilidade, no entanto, não é automática nem neutra. Ela depende de escolhas editoriais, enquadramentos narrativos e da capacidade de traduzir a complexidade da conservação em histórias compreensíveis para o público mais amplo.
Um exemplo ilustrativo é o da Arara-azul-de-Lear (Anodorhynchus leari). Por muitos anos, a espécie esteve restrita ao conhecimento de especialistas e à preocupação de poucos pesquisadores. Sua situação começou a se alterar quando passou a ser incorporada a ações de educação ambiental, projetos comunitários e narrativas públicas que a apresentavam não apenas como uma ave ameaçada, mas como parte da identidade do território onde vive. Ao ganhar visibilidade e reconhecimento social, a espécie deixou de ser apenas um problema técnico e passou a integrar o imaginário coletivo, criando condições mais favoráveis para sua proteção.
Esse exemplo ajuda a entender que a comunicação não cria, por si só, políticas de conservação, mas pode alterar profundamente o modo como a sociedade percebe uma espécie. Quando a biodiversidade é apresentada apenas como dado científico ou alerta distante, ela dificilmente mobiliza. Quando é associada a histórias, territórios e pessoas reais, a conservação se torna mais inteligível e socialmente relevante.
Ainda assim, é importante reconhecer os limites desse processo. A visibilidade midiática, quando desvinculada de políticas públicas consistentes e de enfrentamento das causas estruturais da perda de biodiversidade, tende a produzir mobilizações pontuais e passageiras. Campanhas bem-sucedidas podem gerar reconhecimento simbólico sem, necessariamente, alterar as pressões econômicas ou os conflitos territoriais que ameaçam as espécies.
Criar um sentido social para a conservação, portanto, exige ir além da sensibilização. Implica disputar narrativas, explicitar responsabilidades e conectar a proteção das espécies a escolhas coletivas sobre desenvolvimento, justiça social e futuro comum. Quando educação ambiental e comunicação conseguem cumprir esse papel, elas deixam de ser ferramentas acessórias e passam a atuar como pilares da conservação socialmente sustentada.
ONGs, comunidades e a legitimidade social da conservação
A construção de um sentido social para a conservação não depende apenas de informação ou visibilidade pública. Ela se fortalece, sobretudo, quando a proteção das espécies passa a fazer parte da vida cotidiana dos territórios onde essas espécies existem. Nesse processo, organizações da sociedade civil e comunidades locais exercem um papel decisivo na transformação da conservação em uma prática socialmente legítima.
ONGs atuam frequentemente como mediadoras entre diferentes mundos. Elas traduzem o conhecimento científico em ações concretas, articulam políticas públicas em contextos institucionais frágeis e criam pontes entre pesquisadores, gestores e populações locais. Quando esse trabalho é desenvolvido em diálogo direto com as realidades locais, a conservação deixa de ser percebida como algo imposto de fora e passa a ser reconhecida como uma responsabilidade compartilhada.
A participação das comunidades locais é um elemento central dessa legitimidade. Comunidades que vivem nos territórios onde estão as espécies ameaçadas acumulam conhecimento, experiência e vínculos históricos com o ambiente. Quando são tratadas apenas como receptoras de regras ou restrições, a conservação tende a gerar resistência. Quando são reconhecidas como protagonistas, ela ganha enraizamento social e maior capacidade de se sustentar ao longo do tempo.
Um exemplo ilustrativo desse processo pode ser observado no caso do Boto-cor-de-rosa boliviano (Inia boliviensis). A proteção dessa espécie, que habita rios da Bolívia e enfrenta pressões relacionadas à degradação dos ambientes aquáticos, tem avançado sobretudo onde organizações locais e comunidades ribeirinhas passaram a atuar conjuntamente. Iniciativas de monitoramento participativo, educação ambiental e valorização cultural do animal contribuíram para que o boto deixasse de ser visto apenas como um elemento da fauna e passasse a ser reconhecido como parte do patrimônio natural e social da região.
Esse tipo de experiência revela que a legitimidade da conservação não se constrói apenas por decretos ou planos formais. Ela emerge quando as pessoas se reconhecem como parte do processo e quando a proteção da espécie se conecta a valores locais, modos de vida e perspectivas de futuro. Onde isso ocorre, a conservação tende a resistir melhor a mudanças políticas, cortes de recursos e pressões econômicas.
Por outro lado, quando projetos de conservação são conduzidos de forma excessivamente centralizada, sem diálogo efetivo com as comunidades, eles permanecem dependentes de financiamentos instáveis e de arranjos institucionais frágeis. Mesmo iniciativas tecnicamente bem elaboradas podem se dissolver rapidamente se não houver uma base social capaz de defendê-las. Nesses casos, a conservação existe no papel, mas não se consolida como causa coletiva.
A experiência acumulada em diferentes contextos indica que políticas de conservação duradouras são aquelas que combinam conhecimento científico, atuação de organizações comprometidas e protagonismo comunitário. É nessa articulação que o sentido social da conservação se torna mais robusto, transformando a proteção das espécies em uma prática socialmente reconhecida, e não apenas em uma obrigação técnica ou administrativa.
Conclusão
A crise da biodiversidade costuma ser descrita como um problema ambiental de grandes proporções, mensurado por taxas de extinção, perda de habitats e colapsos ecológicos. No entanto, como este texto buscou demonstrar, essa crise não pode ser compreendida apenas a partir de seus indicadores biológicos. Ela expressa, de forma cada vez mais evidente, uma crise de sentido social, a dificuldade coletiva de reconhecer a conservação como uma questão que atravessa a vida cotidiana, as decisões políticas e os projetos de futuro.
Espécies não desaparecem apenas porque seus ambientes são degradados, mas também porque sua existência não é socialmente reconhecida como relevante. Quando a conservação se mantém restrita ao campo técnico, dissociada dos territórios, das comunidades e do debate público, ela se torna frágil. Planos existem, diagnósticos se acumulam, mas faltam indignação social, pressão política e continuidade institucional. A extinção, nesse contexto, deixa de ser percebida como um fracasso coletivo e passa a ser naturalizada como custo inevitável do desenvolvimento.
Ao longo do texto, diferentes dimensões desse problema foram exploradas. A tecnocratização excessiva da conservação contribui para seu afastamento da sociedade; a comunicação e a educação ambiental, quando limitadas à sensibilização abstrata, raramente produzem engajamento duradouro; e políticas que ignoram o papel das comunidades tendem a perder legitimidade e sustentação. Em contrapartida, experiências que articulam conhecimento científico, participação social e reconhecimento simbólico mostram que é possível construir vínculos mais sólidos entre biodiversidade e sociedade.
Criar um sentido social para a conservação não significa substituir a ciência por emoção, nem reduzir a complexidade dos problemas ambientais. Significa, antes, reconhecer que a proteção das espécies envolve escolhas coletivas, disputas territoriais e responsabilidades políticas. Conservar é decidir que tipos de território queremos, quais modos de vida consideramos legítimos e que futuro estamos dispostos a defender.
Enquanto a conservação for tratada como um tema especializado, distante das preocupações sociais mais amplas, a perda da biodiversidade continuará avançando em silêncio. Transformá-la em causa pública exige mais do que boas intenções ou campanhas pontuais. Exige integrar a conservação ao debate sobre justiça social, desenvolvimento e democracia. É nesse terreno social, político e simbólico que se decide, em última instância, o destino das espécies ameaçadas.
Fontes consultadas
BirdLife International – Dados e análises sobre conservação de aves, espécies ameaçadas e iniciativas de proteção com participação social.
IUCN – Red List of Threatened Species – Avaliações globais sobre o estado de conservação das espécies e os principais fatores de risco à biodiversidade.
IPBES – Relatórios de síntese sobre biodiversidade, serviços ecossistêmicos e os vínculos entre perda ambiental e fatores sociais.
Poliseres – Plataforma de jornalismo ambiental dedicada à conservação da biodiversidade, com foco em espécies ameaçadas, iniciativas comunitárias e atuação de organizações da sociedade civil.
UNEP – Publicações sobre biodiversidade, educação ambiental, comunicação pública e governança ambiental em escala global.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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