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Como quem comunica o clima determina a ação do público

 

Estudo global com 6.500 pessoas revela que credibilidade do mensageiro, mais do que os fatos científicos, é o fator decisivo para o engajamento climático.

Pesquisa publicada na revista Global Environmental Change mostra que clareza, valores compartilhados e sinceridade são os pilares da confiança, que varia drasticamente entre crentes e céticos das mudanças climáticas.

Um estudo internacional com quase 6.500 pessoas em 13 países revela que a confiança no comunicador é mais crucial do que a mensagem científica para aceitação e ação sobre mudanças climáticas. Descubra quais fontes e características são consideradas confiáveis e como engajar diferentes públicos.

Estudo global com 6.500 pessoas revela que credibilidade do mensageiro, mais do que os fatos científicos, é o fator decisivo para o engajamento climático

A crise da confiança no coração da crise climática

Enquanto as evidências científicas sobre as mudanças climáticas se tornam cada vez mais sólidas e urgentes, um desafio paralelo e igualmente crítico se intensifica: convencer o público a aceitar esses fatos e agir de acordo com eles.

A ciência por si só não é suficiente. O elemento humano da comunicação — especificamente, em quem as pessoas confiam para falar sobre o clima — surge como o determinante mais poderoso para a ação coletiva.

Um estudo abrangente publicado na renomada revista Global Environmental Change, intitulado “Who do we trust on climate change, and why?”, investiga precisamente essa dinâmica. Baseado em pesquisas com 6.479 participantes de 13 países, o trabalho oferece um mapa detalhado da confiança global em comunicadores climáticos.

Os resultados são claros: a aceitação da informação e a disposição para agir dependem menos da precisão dos dados e mais das características percebidas de quem os apresenta.

Esta análise mergulha nas descobertas da pesquisa para explicar porque a confiança é o alicerce da ação climática e o que isso significa para cientistas, jornalistas, ativistas e qualquer pessoa que queira engajar o público neste debate decisivo.

O mapa global da confiança: quem o público realmente escuta?

O estudo primeiro mapeou quais fontes de informação sobre mudanças climáticas são consideradas mais confiáveis pelo público em geral. Os resultados revelam uma hierarquia de confiança que prioriza a proximidade social e a percepção de integridade:

  1. Cientistas do clima: Continuam sendo a fonte com maior autoridade epistêmica, especialmente para quem já acredita na ciência climática. Eles representam a expertise técnica e a precisão factual.

  2. Amigos e família: Surpreendentemente, ou talvez não, as redes pessoais ocupam um lugar de extrema confiança, frequentemente superando instituições formais. Esta categoria representa a confiança baseada em identidade e experiência compartilhada.

  3. Pessoas como Eu (“People like me”): A confiança em pares sociais reforça que a proximidade e a similaridade de valores são critérios poderosos, muitas vezes superando credenciais acadêmicas ou cargos oficiais.

No outro extremo do espectro, figuras públicas tradicionais enfrentam uma significativa crise de credibilidade neste tema:

  • Líderes empresariais e da indústria: Frequentemente classificados como os menos confiáveis, refletindo a percepção pública de um conflito de interesses entre lucro e proteção ambiental.

  • Políticos e agências governamentais: Também obtêm pontuações baixas de confiança, indicando um déficit de credibilidade institucional no tema climático.

  • Líderes religiosos: Em muitos contextos, são vistos como fontes pouco relevantes ou confiáveis para informações climáticas.

Esta hierarquia demonstra que a confiança não é um reflexo automático da autoridade formal. Em vez disso, ela flui para onde as pessoas percebem autenticidade, alinhamento de valores e ausência de motivações ocultas.

As 4 características que constroem confiança

A pesquisa foi além de listar fontes e investigou quais características intrínsecas de um comunicador o tornam confiável. Quatro atributos emergiram como os pilares universais da credibilidade no contexto climático:

  1. Clareza na comunicação: A capacidade de explicar informações complexas de forma acessível e compreensível. Jargões técnicos e ambiguidade erodem a confiança rapidamente.

  2. Valores compartilhados (“Shared Values”): A percepção de que o comunicador opera a partir de um conjunto de princípios éticos e preocupações comunitárias similares aos do público. Este é talvez o fator mais subjetivo e poderoso.

  3. Sinceridade e autenticidade: A convicção de que o comunicador acredita genuinamente no que diz e não está apenas desempenhando um papel ou seguindo um roteiro.

  4. Respeito por visões opostas: A disposição de ouvir e engajar-se civilizadamente com perspectivas diferentes, sem desdém ou descaso. Esta característica é fundamental para alcançar públicos divididos.

Estes pilares funcionam como um filtro psicológico através do qual toda mensagem climática passa. Uma informação, mesmo que cientificamente impecável, será recebida com ceticismo se vier de uma fonte percebida como obscura, com valores distantes, insincera ou desdenhosa.

Como os públicos avaliam a confiança de forma diferente

Uma das descobertas mais importantes do estudo é que não existe um perfil único de comunicador confiável. A confiança é profundamente “contingente ao público”. As prioridades de quem já acredita nas mudanças climáticas e de quem é cético são dramaticamente diferentes.

  • Para os “Crentes” (Believers): A confiança é construída principalmente sobre competência e expertise. Cientistas do clima e organizações ambientais são as fontes preferidas porque representam o ápice do conhecimento especializado. A precisão factual e a autoridade científica são seus critérios primários.

  • Para os “Céticos” (Skeptics): A confiança é construída principalmente sobre afinidade e valores compartilhados. Eles desconfiam profundamente das instituições científicas e governamentais, frequentemente vistas como parte de um establishment distante. Em vez disso, depositam mais confiança em “pessoas como eu”, amigos, familiares ou figuras da mídia alternativa que parecem representar seus valores e visão de mundo. Para eles, a sinceridade e o respeito por suas visões são mais importantes do que diplomas acadêmicos.

Este abismo explica por que campanhas de comunicação baseadas apenas em mais dados científicos frequentemente falham em alcançar os céticos. A mensagem pode ser factualmente perfeita, mas se o mensageiro for percebido como pertencente a um grupo com valores opostos, a mensagem será rejeitada. É um conflito de identidade social, não um déficit de informação.

Construindo pontes de confiança para a ação climática

Com base nessas evidências, o estudo sugere que estratégias de comunicação eficazes devem abandonar a abordagem de “tamanho único” e adotar uma comunicação segmentada e estratégica:

  • Para engajar o público em geral: Encontrar e capacitar “mensageiros de confiança” que já possuam credibilidade dentro de comunidades específicas. Isso pode incluir líderes comunitários, profissionais de saúde locais, agricultores respeitados ou figuras religiosas progressistas. A mensagem deve ser transmitida com clareza absoluta e enfatizar valores comuns, como proteção da saúde da família, segurança econômica local ou cuidado com a comunidade.

  • Para consolidar e motivar quem já acredita: Continuar a fortalecer a voz da ciência, mas humanizando os cientistas. Histórias pessoais, transparência sobre o processo científico e foco em soluções práticas aumentam a confiança. Aproveitar as redes de “amigos e família” para espalhar informações corretas através do boca a boca confiável.

  • Para dialogar com públicos céticos: Evitar confrontos frontais baseados apenas em fatos. Priorizar comunicadores que compartilhem identidades ou valores com esse público. Uma mensagem sobre eficiência energética pode ser mais eficaz vinda de um veterano militar falando sobre segurança nacional, ou de um líder religioso, do que de um cientista climático. O respeito genuíno pelo interlocutor é a porta de entrada.

Do laboratório para a comunidade

O estudo “Who do we trust on climate change, and why?” oferece uma lição crucial: na comunicação climática, o mensageiro é a mensagem. A batalha pela ação climática não será vencida apenas em laboratórios e relatórios do IPCC, mas no campo subjetivo da confiança interpessoal e comunitária.

Isso exige uma mudança de paradigma. Em vez de apenas difundir mais informações, esforços de comunicação devem investir em construir e mapear redes de confiança, identificar os mensageiros credíveis dentro de cada segmento social e equipá-los com mensagens claras e autênticas. O caminho para a ação climática global é pavimentado não apenas com dados, mas com diálogos confiáveis, mensageiros respeitados e uma comunicação que reconhece e honra os valores diversos de seu público. A credibilidade, conclui a pesquisa, é o recurso mais escasso e mais valioso na luta contra o tempo pelas soluções climáticas.

Referência:

Who do we trust on climate change, and why?
Sarah MacInnes, Matthew J. Hornsey, Christian Bretter, Samuel Pearson, Kelly S. Fielding, David Bersoff
Global Environmental Change
Volume 96, March 2026, 103096
https://doi.org/10.1016/j.gloenvcha.2025.103096

 

Citação
EcoDebate, . (2026). Como quem comunica o clima determina a ação do público. EcoDebate. https://www.ecodebate.com.br/2026/01/14/como-quem-comunica-o-clima-determina-a-acao-do-publico/ (Acessado em fevereiro 6, 2026 at 12:37)

in EcoDebate, ISSN 2446-9394

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