A China está sorrindo da “curva do sorriso”
Estratégia de terceirização que prometia lucros “limpos” se tornou armadilha geopolítica: China lidera 57 das 64 tecnologias de ponta enquanto América corre para resgatar sua indústria
A teoria que dividiu o mundo entre “cérebro” e “mãos” completou 30 anos revelando seu maior paradoxo: quem ficou com a manufatura conquistou também a inovação, deixando potências ocidentais em corrida desesperada por reindustrialização.
Artigo de José Eustáquio Diniz Alves
A “curva do sorriso” (Smiling curve) é uma representação gráfica que indica como o valor agregado varia ao longo das diferentes etapas de lançamento de um produto no mercado, em uma indústria de manufatura, especialmente aquelas relacionadas à tecnologia da informação (TI).
A ideia central é simples: se colocarmos no eixo horizontal as etapas da produção e, no eixo vertical, o valor agregado (lucro, salários qualificados, conhecimento), a curva assume o formato de um sorriso (U). Antes da produção, o valor agregado é alto, pois envolve atividades como Pesquisa e desenvolvimento (P&D), Design, Engenharia e Propriedade intelectual. Depois da produção, o valor agregado também é alto pois envolve atividades como Marketing, Branding, Logística avançada e Serviços pós-venda. No centro da curva, o valor agregado é baixo, envolvendo manufatura e montagem que são atividades intensivas em trabalho padronizado e, de certa forma, facilmente replicável.

A “curva do sorriso” foi popularizada por Stan Shih, fundador da Acer, nos anos 1990, ao analisar a indústria de computadores. Ele observou que quem fabrica o produto captura pouco valor e quem projeta, controla a tecnologia e domina a marca captura a maior parte do lucro. A curva do sorriso sugere que o valor não está em “fazer”, mas em “conceber, controlar e vender”.
Ela reflete três fatores estruturais: 1) Conhecimento e intangíveis – Patentes, software, design e marcas são difíceis de copiar e geram rendas elevadas; 2) Concorrência na manufatura – A produção física é altamente competitiva, com margens comprimidas e facilidade de deslocamento geográfico; 3) Poder de mercado – Empresas que controlam padrões tecnológico e canais de distribuição capturam a maior parte do excedente.
A Curva do Sorriso incentivou as diversas empresas americanas, especialmente de tecnologia, a terceirizar a produção na China para focar no design no Vale do Silício. A ideia era que os EUA ficariam com o lucro “limpo” e intelectual, enquanto a China ficaria com o trabalho “sujo” e de baixa margem. Desta forma, “offshoring” significa terceirizar as funções comerciais em outro país, sendo um processo frequentemente adotado para reduzir custos com mão de obra.
Mas após três décadas de desindustrialização nos EUA e do fortalecimento da capacidade manufatureira da China, os teóricos da administração de empresas começaram a perceber que a manufatura não é apenas “montagem”. Ela é um centro de aprendizado. Ao perder as suas fábricas, por conseguinte, os EUA perderam também a cadeia de inovação incremental que acontece no chão de fábrica. Perderam ainda a competitividade internacional e passaram a registrar grandes déficits comerciais, enquanto a China superou a marca histórica de um superávit comercial de quase US$ 1,2 trilhão em 2025.
A China não aceitou ficar presa na base da curva. Através de subsídios massivos e políticas industriais, o Gigante Asiático passou a produzir não só o produto final, mas todos os componentes (chips, baterias, telas). A escala chinesa reduziu tanto os custos que tornou a competição impossível para o Ocidente em setores como o de energia solar e veículos elétricos. A China provou que a eficiência na manufatura é, por si só, uma forma de alta tecnologia.
O governo americano lançou uma série de medidas tarifárias e protecionistas visando criar um movimento de “re-shoring” (como o Chips Act), buscando a reindustrialização dos EUA. A situação atual é basicamente uma admissão de que a Curva do Sorriso foi interpretada de forma perigosa. Os EUA estão tentando desesperadamente trazer a manufatura de semicondutores e baterias de volta para o seu território.

Mas agora, de repente, todos estão dizendo que os EUA precisam se reindustrializar. Dizem que a América se tornou perigosamente dependente da manufatura chinesa. Dizem que os EUA perderam as habilidades necessárias para uma economia industrial avançada. Dizem que a perda de capacidade de produção representa um risco à segurança nacional.
Porém, o valor da manufatura só apareceu baixo na Curva do Sorriso porque a venda de ativos americanos distorceu a captura de valor. O comércio da globalização, impulsionado pela entrada da China na OMC em 2001, tem sido a troca de ativos americanos por produtos chineses. A China vende produtos para o povo americano e empresta dinheiro para eles continuarem comprando.
A manufatura terceirizada não era simplesmente a parte fácil e de baixo valor da cadeia produtiva. Na verdade, era a parte mais difícil, que exigia maior qualificação e era mais difícil de replicar. Em um ambiente de doença holandesa, é exatamente por isso que ela foi terceirizada. Ao viver da venda de ativos, os Estados Unidos conseguiram manter os empregos divertidos, confortáveis e “criativos”, juntamente com o desemprego no “cinturão da ferrugem” (industrialização mais antiga dos EUA que perdeu competitividade – destacando-se os ramos siderúrgico, mecânico, metalúrgico, automobilístico, petroquímico, alimentício e têxtil).
Acontece que a manufatura possibilitou que a China acumulasse recursos financeiros, além de investir em educação de qualidade e em ciência e tecnologia. O resultado é que os celulares da Xiaomi e da Huawei são tão incríveis quanto o iPhone, porém mais baratos. Na verdade, existem mais de uma dúzia de fabricantes chineses de celulares que descobriram como fazer P&D, design, branding e marketing.
Da mesma forma, a China incubou mais de 100 fabricantes de veículos elétricos (VE) cuja competição acirrada está revolucionando a indústria automobilística global. Eles elevaram o padrão a um nível tão alto que os mercados ocidentais impuseram tarifas altíssimas em um momento de pânico para proteger as montadoras tradicionais.
Não cabe apenas considerar que a Curva do Sorriso estava errada. O problema é que ela não mede habilidades, dificuldade ou replicabilidade. Ela revela, na verdade, os efeito da taxa de câmbio sobrevalorizada nos EUA, em um mundo globalizado. Portanto, a reindustrialização dos EUA não será uma tarefa trivial, pois os norte-americanos deixaram as habilidades mais difíceis da cadeia de valor definharem.
De acordo com o Instituto Australiano de Política Estratégica, um think tank independente financiado pelo Departamento de Defesa Australiano, os Estados Unidos lideravam a China em 60 das 64 tecnologias de ponta, como IA e criptografia, entre 2003 e 2007, enquanto a China liderou os Estados Unidos em apenas três. No relatório mais recente, abrangendo 2019 a 2023, as classificações foram invertidas. A China liderou em 57 das 64 tecnologias-chave, e os Estados Unidos mantiveram a liderança em apenas sete (David Autor, Gordon Hanson, NYT, 14/07/2025).
Segundo o Professor John Mearsheimer, o erro estratégico fatal dos EUA foi transferir sua indústria para a China e garantir sua entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001. Os EUA acreditavam que, ao ajudar a China a enriquecer, ela se tornaria uma “stakeholder responsável” e, eventualmente, uma democracia liberal. Mas na realidade a China usou o crescimento econômico para construir um poderio militar formidável, sem mudar seu sistema político.
O momento exato em que o mundo deixou de ser unipolar (liderado apenas pelos EUA) e se tornou multipolar foi na década de 2010. Ele argumenta que, hoje, a China é a única ameaça existencial à hegemonia americana porque é a única nação com potencial para ser um “hegemon” regional na Ásia — algo que os EUA historicamente não permitiriam. O professor é enfático: os EUA “alimentaram o dragão”. Ao ajudar o crescimento chinês, os EUA criaram um rival que agora é um competidor direto e não depende mais das políticas americanas globais, pois há uma estratégia chinesa de desacoplamento e de “desamericanização” do comércio, do poderio militar e tecnológico, ideológico, educacional e da influência multilateral.
Em última análise, a trajetória da China demonstra que o “sorriso” da curva era, na verdade, uma armadilha de complacência para as economias desenvolvidas. Ao negligenciar o centro da curva, o Ocidente não apenas transferiu empregos, mas entregou o domínio do aprendizado tecnológico e da escala produtiva — ativos que não podem ser recuperados apenas com decretos ou tarifas. A China provou que o verdadeiro valor agregado não reside na abstração do design isolado, mas na simbiose entre o pensar e o fazer.
Enquanto os EUA tentam agora reconstruir seu tecido industrial em um cenário de competências definhadas, o superávit trilionário e a liderança em tecnologias de ponta confirmam a lição geopolítica deste século: quem domina o chão de fábrica acaba, inevitavelmente, redesenhando o futuro.
A China não está mais apenas produzindo para o mundo, ela está definindo os termos em que o mundo irá consumir, deixando claro que, na economia real, quem ri por último é quem detém a capacidade criar capital em casa e de transformar matéria em soberania.
José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382
Referências:
ALVES, JED. A China continua imbatível nas exportações, Ecodebate, 23/07/2025
https://www.ecodebate.com.br/2025/07/23/a-china-continua-imbativel-nas-exportacoes/
ALVES, JED. Transição energética da China e a reconfiguração do comércio internacional, Ecodebate, 10/12/2025 https://www.ecodebate.com.br/2025/12/10/transicao-energetica-da-china-e-a-reconfiguracao-do-comercio-internacional/
David Autor and Gordon Hanson. We Warned About the First China Shock. The Next One Will Be Worse, NYT, 14/07/2025
https://www.nytimes.com/2025/07/14/opinion/china-shock-economy-manufacturing.html
John Mearsheimer. The Exact Moment China Overtook the United States, GEO POLITICS, 20/12/2025
https://www.youtube.com/watch?v=iu8sQkOBa-k
Wang Wen. China’s De-Americanization Strategy, The Diplomat, 24/10/2025
https://thediplomat.com/2025/10/chinas-de-americanization-strategy/
in EcoDebate, ISSN 2446-9394
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