Geoengenharia e as tecnologias para captura de CO2 da atmosfera

 

Geoengenharia e as tecnologias para captura de CO2 da atmosfera, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

A captura de carbono não é uma bala de prata, mas sim uma tecnologia que pode complementar o esforço para diminuir a quantidade de CO2 na atmosfera

A concentração de CO2 na atmosfera continua aumentando, a despeito de todo os tratados e promessas estabelecidas pela governança global. Porém, as soluções apontadas e os acordos assinados não tem sido capazes de frear e reverter as emissões de gases de efeito estufa. A Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano (ou Conferência de Estocolmo) foi realizada na capital da Suécia em 1972, quando a concentração de CO2 na atmosfera estava em 330 partes por milhão (ppm) e a população mundial era de 3,85 bilhões de habitantes.

Vinte anos depois, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, também conhecida como Eco-92 ou Cúpula da Terra, aconteceu na cidade do Rio de Janeiro em 1992 e naquela ocasião a concentração de CO2 tinha passado para 360 ppm e a população mundial já tinha ultrapassado 5 bilhões de habitantes. A 1ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (a COP1) aconteceu na cidade de Berlim em 1995. Dois anos depois, em 1997, aconteceu a COP3, quando foi assinado o Protocolo de Kyoto, no Japão. Naquele ano a concentração de CO2 estava em 367 ppm e a população mundial tinha passado para quase 6 bilhões de habitantes.

No aniversário dos 70 anos da ONU, foi realizado a COP21, quando foi assinado o Acordo de Paris que é um tratado ocorrido no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (CQNUMC). O acordo foi negociado na capital da França e aprovado em dezembro de 2015. Entre as principais medidas estão a redução das emissões de gases estufa, a fim de conter o aquecimento global abaixo de 2º C e, preferencialmente, abaixo de 1,5º C, e garantir a perspectiva do desenvolvimento sustentável. Naquele ano a concentração de CO2 estava em 404 ppm e a população mundial tinha ultrapassado 7,3 bilhões de habitantes.

No final de 2021 foi realizada a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, na cidade de Glasgow, na Escócia. A tarefa mais urgente da COP26 foi traçar metas mais ambiciosas de redução de gases de efeito estufa para evitar um aquecimento global acima de 1,5º C. No ano passado a concentração de CO2 estava em 419 ppm e a população mundial estava chegando a 8 bilhões de habitantes. Portanto, a curva de Keeling continua a aumentar a despeito de todo debate da governança global, pois o crescimento demoeconômico do mundo continua em sua marcha incessante e desregrada.

De fato, as emissões globais de CO2 estavam em 2 bilhões de toneladas em 1900, passaram para 6 bilhões de toneladas em 1950, chegaram a 25 bilhões de toneladas no ano 2000 e atingiram 36 bilhões de toneladas entre 2019 e 2021. Em consequência do efeito estufa, as temperaturas do Planeta estão subindo e acelerando as mudanças climáticas e seus efeitos danosos sobre a vida na Terra.

crescimento das atividades antrópricas e aceleração da curva de keeling

 

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) divulgou mais um relatório (04/04/2022) mostrando que o quadro das emissões de CO2 continua desfavorável, pois será muito difícil reduzir a liberação de gases de efeito estufa (GEE) até 2030. Reduzir as emissões imediatamente é absolutamente necessário, mas não suficiente, pois os gases do efeito estufa, por meio do efeito de retroalimentação, continuarão sendo liberado pelo degelo e outros processosl naturais e continuarão se acumulando na atmosfera por longos períodos. Assim, o mundo precisa se tornar “carbono neutro” por volta de 2050 (para estabilizar o aquecimento em 1,5ºC) ou 2070 (para o limite de 2ºC). Isso significa que todo o carbono lançado por atividades humanas na atmosfera precisa ser reabsorvido de alguma forma, seja por vias naturais ou tecnológicas. Para cada molécula de carbono que sobe, uma outra precisa sair da atmosfera.

Assim, o mundo precisa reduzir as emissões, mas também precisa capturar carbono da atmosfera. Engenheiros da Universidade de Delaware desenvolveram um método para capturar efetivamente 99% do dióxido de carbono do ar usando um sistema eletroquímico alimentado por hidrogênio, conforme artigo publicado na revista Nature Energy. Além de aumentar o desempenho geral da tecnologia de captura de carbono, o novo método também pode permitir a produção comercial de células de combustível mais sustentáveis.

Depois de vários reveses, hoje em dia, a equipe conta com um sistema mais compacto, capaz de filtrar maiores quantidades de ar. De acordo com os pesquisadores, seu protótipo inicial do tamanho de uma lata de refrigerante é capaz de filtrar cerca de 10 litros de ar por minuto e remover cerca de 98% do CO2. Além disso, eles descobriram que uma célula eletroquímica menor, medindo 2 polegadas por 2 polegadas, poderia ser usada para remover continuamente cerca de 99% do CO2 encontrado no ar que flui a uma taxa de aproximadamente dois litros por minuto. O protótipo da equipe foi projetado para eliminar o CO2 do escapamento de um veículo, embora também possa ser usado para várias outras aplicações, incluindo aeronaves, espaçonaves e submarinos.

Embora o novo sistema tenha um grande potencial para melhorar a captura de carbono como um todo, alguns cientistas alertaram que a captura de carbono não será suficiente para evitar a crise climática. Há vários grandes projetos de captura de carbono que estão atualmente em andamento, incluindo uma nova instalação de captura de carbono na Escócia que pretende remover até 1 milhão de toneladas de CO2 da atmosfera por ano.

Mas a captura de carbono não pode se tornar uma “distração perigosa” que mine os esforços para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Ou seja, a captura de carbono não é uma bala de prata, mas sim uma tecnologia que pode complementar o esforço para diminuir a quantidade de CO2 na atmosfera.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:
LIN SHI. A shorted membrane electrochemical cell powered by hydrogen to remove CO2 from the air feed of hydroxide exchange membrane fuel cells, Nature Energy, 03 February 2022

IPCC. Climate Change 2022: Mitigation of Climate Change, IPCC, 04/04/2022
https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg3/

ALVES, JED. Aula 11 AM088: Decrescimento demoeconômico e capacidade de carga do Planeta, IFGW, 11/04/21
https://www.youtube.com/watch?v=QVWun2bJry0&list=PL_1__0Jp-8rhsqxcfNUI8oTRO1wBr86fh&index=9

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 27/04/2022

 

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