As Primeiras Transposições da Serra do Mar: A Trilha dos Tupiniquins e o Caminho do Padre José

 

As Primeiras Transposições da Serra do Mar: A Trilha dos Tupiniquins e o Caminho do Padre José, artigo de Álvaro Rodrigues dos Santos

A TRILHA DOS TUPINIQUINS

Já é fato bastante conhecido e comprovado que nossos índios, no período pré-colonial, mantinham intenso intercâmbio entre diferentes tribos e culturas. Esse intercâmbio era proporcionado por caminhos permanentes, conhecidos, conservados e defendidos. Dessas estradas antigas, a mais conhecida seguramente é o Caminho do Peabiru.

Esse caminho, uma trilha de cerca de 1,40m de largura, partia do Planalto do Piratininga seguindo inicialmente pelo Vale do Ribeira, alcançando os estados do Paraná e Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, estendendo-se ao Paraguai, Bolívia e Peru, em um comprimento total próximo a 3 mil quilômetros.

Há controvérsia entre os historiadores sobre a autoria da abertura do Peabiru. Alguns defendem a veracidade da mitologia indígena segundo a qual o Peabiru foi aberto por Sumé, herói do povo carijó, em sua fuga dos Tupinambás rumo ao Peru. Outros argumentam que a trilha teria sido aberta pelos próprios incas para exploração de outros territórios e para acesso ao Oceano Atlântico.

Em 1533 Tomé de Souza, Governador Geral da Colônia, proíbe o tráfego pelo Peabiru para dificultar a ação dos espanhóis.

Quando Martin Afonso de Souza, comandando a primeira expedição portuguesa efetivamente colonizadora, aportou em São Vicente no ano de 1531, já encontrou por aqui, totalmente integrados e com grande poder sobre os índios locais, os antigos degredados João Ramalho, Antônio Rodrigues e Cosme Fernandes, conhecido como “Bacharel”, comandando um já intenso tráfico de escravos índios e trocas comerciais com navegantes que aportavam nossas costas.

Nossos índios não habitavam o litoral, apenas vinham à orla nos meses frios de junho, julho e agosto para fugir do frio, pescar a tainha e o parati e recolher mariscos, que levavam salgados para suas aldeias no Planalto. Tinham os índios a Serra como uma fantástica e providencial proteção natural contra ataques a suas aldeias do Planalto. Tanto é verdade que Martin Afonso de Souza, com todo o poder que lhe foi deferido pelo Rei João III, foi obrigado a aceitar um acordo com João Ramalho pelo qual os portugueses só poderiam subir a Serra com a explícita aprovação dos índios comandados por Tibiriçá, de quem João Ramalho desposou uma das filhas, Bartira.

Pois bem, tanto as cruéis atividades dos primeiros degredados que por aqui se estabeleceram, como esse trânsito indígena sazonal, utilizavam, para a transposição da escarpa da Serra, uma trilha simples, mais tarde batizada pelos colonizadores como Trilha dos Goytacases ou Trilha dos Tupiniquins.

barreira da serra do mar

A fantástica barreira da Serra do Mar

quadro de benedito calixto mostrando martin afonso de souza desembarcando em 1532

Quadro de Benedito Calixto mostrando Martin Afonso de Souza desembarcando em 1532 de canoa em Piaçaguera para subir ao Planalto com João Ramalho pela Trilha dos Tupiniquins. Nessa época, João Ramalho comandava o tráfico de escravos índios a partir de São Vicente e do Planalto, onde estava instalado seu sogro e “sócio”, o cacique Tibiriçá. (Foto reproduzida de fascículo da coleção “Grandes personagens da nossa história”, São Paulo: Abril Cultural, 1969-70)

mapa antigo mostrando a trilha dos tupiniquins e o caminho do padre josé

Mapa antigo mostrando a Trilha dos Tupiniquins e o Caminho do Padre José. A Trilha desenvolvia-se pelo vale do Rio Mogi, o Caminho do Padre José utilizou a vertente direita do Rio Perequê.

Na verdade a Trilha dos Tupiniquins era também considerada um “ramal” litorâneo do Caminho do Peabiru. Em seu trajeto para o Planalto, essa trilha adentrava a Serra através do Vale do Rio Mogi, costeando muito provavelmente sua vertente direita (há historiadores que a situam na vertente esquerda) até a região de Paranapiacaba. Desse local, um ramal possibilitava a comunicação com o Vale do Paraíba, via Mogi das Cruzes, sendo que a trilha principal seguia até o local que hoje corresponderia ao centro antigo de São Paulo, via região do ABC paulista.

Se em regiões planas o caminho do Peabiru mantinha uma largura média de cerca de 1,40m de largura, conforme atestam vestígios ainda existentes no estado do Paraná e em Santa Catarina, as trilhas na Serra eram certamente bem mais estreitas, permitindo, conforme amplamente descrito por seus sofridos caminhantes portugueses, não mais que a passagem de um só homem de cada vez.

O autor do livro, em seus trabalhos na Serra do Mar, especialmente por ocasião dos estudos sobre o traçado da Rodovia dos Imigrantes, ao fim dos anos 60, caminhou floresta adentro por várias trilhas tidas ainda como remanescentes de trilhas indígenas. A comparar a Trilha dos Tupiniquins com essas, pode-se afirmar que eram caminhos muito estreitos, sem nenhum afrontamento às encostas, sem sequer a derrubada de uma árvore que pudesse vir a facilitar seus movimentos. Desviando de obstáculos, dando preferência a espigões e às linhas definidas pelas rupturas negativas de declive entre as encostas retilíneas e o início dos coluviões de meia encosta, essas trilhas eram suficientes para a locomoção típica do índio nessas regiões, qual seja, uma locomoção leve, rápida e que revelava uma total intimidade do índio com a natureza.

Enfim, pode-se dizer que conhecendo empiricamente o comportamento dos terrenos das encostas da Serra, para o estabelecimento de suas trilhas os índios se preocupavam mais com trajetos que lhes proporcionassem maior confiança (espigões e rupturas negativas de declive) do que com as condições técnicas da “pista” (boa largura, rampas suaves, etc.). Refletindo a praticamente nula intervenção nas encostas, não há informação relatada de algum problema geotécnico que tenha causado dano maior à Trilha dos Tupiniquins.

 

O CAMINHO DO PADRE JOSÉ

O aumento da presença e da ação portuguesa na colônia, e especialmente sua cultura escravagista, acabou por provocar a ira e a revolta de várias tribos indígenas que não se deixaram cooptar como os comandados do Cacique Tibiriçá, poderoso aliado e protetor dos colonizadores.

Entre as tribos indígenas que mais se empenharam no combate aos portugueses estavam os tamoios, que impunham seu domínio do litoral norte do Estado de São Paulo ao Rio de Janeiro. Foi justamente pelos freqüentes assaltos dos tamoios aos usuários da Trilha dos Tupiniquins que Mem de Sá, no ano de 1553, ordena a abertura de um novo caminho, mais a sudoeste, para a ligação entre a região vicentina e os campos de Piratininga, no Planalto. A partir de 1560 todo o tráfego para o Planalto começa a ser feito por essa nova trilha.

É incerta a maior responsabilidade pela abertura do novo caminho. Alguns historiadores a debitam ao arrojo e à dedicação do Padre Anchieta. Outros historiadores a relacionam com uma empreitada comandada por um rico dono de terras, João Perez, como paga do perdão pela morte de um escravo alheio.

Textos históricos afirmam que esse João Perez utilizou seus escravos indígenas na abertura desse novo caminho, optando pelo Vale do Rio Perequê, e aproveitando antiga trilha indígena que por lá existiu.

Tudo indica que, como o anterior (Trilha dos Tupiniquins), esse novo caminho obedecia às mesmas características técnicas das trilhas indígenas, sendo sofridamente percorrido pelos colonizadores, totalmente desacostumados a andares desse tipo. Mais ainda sofriam os escravos indígenas, pois, além das cargas, eram também obrigados a levar em seu ombros os feridos e os exaustos senhores.

Em uma de suas cartas, o Padre Simão de Vasconcellos descreve assim as agruras de suas viagens através do Caminho do Padre José:

O trilho é tal que põe assombro aos que hão de subir ou descer; o mais de espaço não é caminhar, é trepar de pés e de mãos, aferrados às raízes das árvores; não é caminhando que se faz a maior parte da viagem; é de rostos sobre as mãos e os pés, agarrando-se às raízes das árvores, em meio de rochedos pontiagudos e de terríveis precipícios, que eu tremia, devo confessá-lo, quando olhava para baixo; a profundeza do vale é aterrorizante e o número de montanhas que se elevam, umas por cima das outras, faz perder toda a esperança de chegar ao fim.

Uma vez galgada a Serra, os viajantes deviam atingir a Vila de São Paulo a pé ou com o auxílio de barcos. Nesse caso, dois caminhos se ofereciam, ou atingindo o Rio Pinheiros a partir de seus formadores, Rio Pequeno e Rio Grande, ou atingindo o Rio Tamanduateí, através dos rios de sua cabeceira.

O Caminho do Padre José, desgastado com o intenso aumento de tráfego e pesadas chuvas, teve de ser várias vezes recuperado, sendo que a cada dessas providências ia se intensificando o nível de interferência nas encostas, com pequenos cortes, aterros e estivas, iniciando o longo processo vicioso que caracterizaria por muito tempo os intentos de transposição viária da Serra: mais melhorias > maiores intervenções nas encostas > maiores desastres.

(Obs: Texto extraído do livro “A GRANDE BARREIRA DA SERRA DO MAR – da Trilha dos Tupiniquins à Rodovia dos Imigrantes”, do mesmo autor do artigo)

Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos (santosalvaro@uol.com.br)

  • Ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT e Ex-Diretor da Divisão de Geologia
  • Autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Diálogos Geológicos”, “Cubatão”, “Enchentes e Deslizamentos: Causas e Soluções”, “Manual Básico para Elaboração e Uso da Carta Geotécnica”, “Cidades e Geologia”
  • Consultor em Geologia de Engenharia, Geotecnia e Meio Ambiente
  • Articulista do EcoDebate

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 03/01/2022

 

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