Aumenta o número de mortes e diminui o número de nascimentos no Brasil

 

Aumenta o número de mortes e diminui o número de nascimentos no Brasil, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Os dados das estatísticas do Registro Civil, do IBGE, confirmam que houve aumento dos óbitos, redução dos nascimentos e redução dos casamentos no Brasil em 2020. Este quadro deve se repetir em 2021

“Não há vivos, há os que morreram e os que esperam a vez”
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

O IBGE divulgou, no dia 18 de novembro, as estatísticas do Registro Civil mostrando que o número de óbitos chegou a 1,52 milhão em 2020, montante 15% superior aos 1,33 milhão de falecimentos de 2020, conforme mostra o gráfico abaixo. É um recorde de mortes anuais jamais registrado anteriormente. O número de mortes no Brasil já vinha aumentando em função do maior número de habitantes e do envelhecimento populacional, mas deu um salto em função da pandemia da covid-19.

O Portal da Transparência do Registro Civil mostra que o montante de 2020 já foi superado em 2021, pois no dia 18 de novembro, os registros já indicam 1,55 milhão de mortes. Porém, se a pandemia estiver sobre controle em 2022, o número de óbitos deve voltar para o patamar abaixo de 1,5 milhão de óbitos.

número de óbitos no brasil 2003 2020

 

As estatísticas do Registro Civil do IBGE também apontam para uma redução do número de nascimentos, conforme mostra o gráfico abaixo. Em 2003 nasceram 3,4 milhões de bebês no Brasil e o número de nascimentos ficou acima de 3 milhões até 2015. Em 2016 houve uma queda abrupta em decorrência da epidemia da Zika, quando o número de nascimentos caiu de 3,1 milhões para 2,9 milhões (queda de 5%). Mas houve recuperação nos dois anos seguintes e uma nova queda em 2018 para a casa de 2,9 milhões de bebês. De 2019 para 2020 a queda foi de 2,9 milhões para 2,73 milhões (redução de 5% dos nascimentos). Portanto, o efeito da pandemia da covid-19 sobre a queda dos nascimentos foi semelhante ao efeito da epidemia da Zika.

número de nascidos vivos brasil 2003 2020

 

No início da pandemia, no primeiro trimestre de 2020, muitas pessoas e muitos curiosos diziam que a pandemia trancaria os casais dentro de casa e, sem ter o que fazer, haveria um aumento da frequência das relações sexuais e, em consequência, o Brasil e o mundo passariam por um baby boom, ou seja, um grande aumento do número de nascimentos.

O erro deste palpite infeliz é que a hipótese do baby boom desconsidera a racionalidade das pessoas e a dimensão psicológica da pandemia. Não há estudos definitivos, mas as primeiras evidências sugerem que não houve aumento das relações sexuais durante as fases mais duras do distanciamento social e das quarentenas, pois o stress da doença e os conflitos internos do dia a dia dos casais pode ter contribuído para a queda da libido. Mas acima de tudo, atualmente, há uma separação entre sexualidade e reprodução, pois os casais e as pessoas fazem uso de métodos contraceptivos.

Desde o início da pandemia eu já havia apontado para a possibilidade de um “baby bust” (queda da natalidade), pois as pessoas e os casais pensariam duas vezes em ter filhos num momento em que a transmissão do SARS-CoV-2 estava descontrolada e o sistema de saúde colapsado. No dia 16 de março de 2020 dei uma entrevista, para o jornal Valor, descartando a hipótese do baby boom e dizendo que o mais provável seria a queda da natalidade.

Os dados das estatísticas do Registro Civil, do IBGE, confirmam que houve aumento dos óbitos, redução dos nascimentos e redução dos casamentos no Brasil em 2020. Este quadro deve se repetir em 2021. Mas, provavelmente, o número de óbitos deverá cair e o número de nascimentos deverá aumentar um pouco em 2022. Todavia, a transição demográfica brasileira indica que, no longo prazo, os óbitos vão aumentar e o número de nascimentos vai diminuir. Na década de 2040, o Brasil entrará numa fase de decrescimento populacional que prosseguirá pelo restante do século.

José Eustáquio Diniz Alves
Doutor em demografia, link do CV Lattes:
http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. Demógrafo descarta ‘baby boom’ provocado pelo coronavírus. Por Bruno Villas Bôas, jornal Valor, 16/03/2020
https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/03/16/demgrafo-descarta-baby-boom-provocado-pelo-coronavrus.ghtml

ALVES, JED. O impacto da pandemia da covid-19 na dinâmica demográfica brasileira, Portal do Envelhecimento, 12/03/2021
https://www.portaldoenvelhecimento.com.br/o-impacto-da-pandemia-da-covid-19-na-dinamica-demografica-brasileira/

ALVES, JED. O envelhecimento populacional no contexto da pandemia, 08/05/2021
https://www.youtube.com/watch?v=kvbxIrenLAs

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/11/2021

 

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