Caso Simone Biles e os atletas olímpicos expostos ao adoecimento psíquico

 

Caso Simone Biles e os atletas olímpicos expostos ao adoecimento psíquico, artigo de Andréa Ladislau

Em uma competição de tamanha proporção como uma olimpíada, é inevitável que a tensão e pressão atinjam níveis surreais para o atleta que vem se preparando a alguns anos para conquistar resultados positivos e levar medalhas para seu país

Em tempos de Olimpíadas e Paraolimpíadas no Japão, um tema complexo e muito relevante desponta em meio às disputas por medalhas: a relação entre as emoções e o rendimento esportivo dos atletas. Ou melhor, o equilíbrio emocional dos competidores diante das pressões psicológicas por expectativas constantes por resultados positivos e superação de seus limites. Um assunto sério que nos leva a pensar em todos os aspectos físicos e psíquicos envolvidos nesse cenário mágico do esporte.

A discussão sobre a saúde mental dos atletas e as cobranças internas ou externas por uma alta performance veio à tona, principalmente, pelo fato de que a norte-americana Simone Biles (EUA) abandonou, essa semana, a final por equipes da ginástica artística, mesmo sendo uma das favoritas à medalha de outro, deixando em aberto sua presença na decisão.

Biles declarou: “Eu apenas não queria continuar. Não houve lesão, mas sim um pouco de orgulho ferido por uma prova ruim e um tanto mais de cuidado com a saúde mental”. Fortes palavras que, sem dúvidas, jogam para fora do tapete as omissões e negligências em relação a um assunto de extrema importância que é a saúde mental dos competidores: Não adianta estar 100% preparado fisicamente se a mente não estiver equilibrada e saudável. A saúde mental precisa estar em dia. Do contrário, a performance do atleta estará comprometida. Estamos lidando com seres humanos – e não máquinas preparadas apenas para conquistar títulos.

Fato é que, em uma competição de tamanha proporção como uma olimpíada, é inevitável que a tensão e pressão atinjam níveis surreais para o atleta que vem se preparando a alguns anos para conquistar resultados positivos e levar medalhas para seu país.

A grande questão é: será que estes atletas estão mesmo sendo preparados de forma adequada para esse turbilhão emocional que vai da euforia (quando a medalha chega) ou a frustração e tristeza (quando a medalha não vem)? Estão preparados para as perdas?

O único objetivo em uma grande disputa é a vitória. Mas existem outros ingredientes que fazem parte do caldeirão olímpico e que devem ser considerados e avaliados com muita cautela visando o bem-estar físico e mental do atleta, pois, além do talento e da potencialização das habilidades esportivas, o emocional saudável do competidor também é fundamental para que, nos momentos mais decisivos, este consiga se sentir seguro e preparado psicologicamente para trabalhar questões internas que influenciam no seu alto rendimento e na performance esperada por todos.

São anos de preparação, treinos, cobranças, privações, disciplina rigorosa, suor, dor e exaustão para superar seus próprios limites. O físico é extremamente cobrado, assim como a mente – que precisa estar alinhada para suportar possíveis adversidades que possam surgir. Entre elas: uma lesão inesperada, o baixo rendimento e até uma triste derrota. Um dos maiores temores é o medo do fracasso, do julgamento de fãs, familiares, amigos, do treinador e delegação, além da perda por patrocínios, castigos, afastamentos da equipe e exclusão da competição. Fatores altamente relevantes que podem despertar sentimentos nocivos que, se não forem tratados ou acompanhados adequadamente por um profissional de saúde mental, certamente influenciarão negativamente na construção da personalidade, da autoestima e na capacidade de absorção de desafios por parte deste atleta.

Neste rol de dores emocionais, entram a insegurança, o estresse, a ansiedade, a frustração, o pânico, a exaustão, os distúrbios alimentares, a insônia, as mudanças bruscas de humor, falta de autoconfiança, falta de autocontrole, falta de concentração, falta de motivação e a saudade pelo distanciamento da família, dos amigos e a geração infinita de expectativas, além do medo do monstro impiedoso do fracasso. Claro que não podemos nos esquecer que, por sermos seres individuais, cada um irá reagir e responder de forma individualizada a cada desafio que for surgindo. Inclusive, alguns competidores até preferem vivenciar situações de pressão, por se sentirem ainda mais motivados, enquanto outros entendem que, tanto a pressão quanto a ansiedade, são grandes vilões do seu desempenho pessoal.

Essa pressão psicológica, sem dúvida, irá influenciar o comportamento, o resultado final e o ritmo do competidor, tanto que ao longo da história dos jogos olímpicos tivemos alguns campões de medalhas que não figuravam entre os favoritos e que, por conta disso, não experimentavam o peso massacrante das cobranças externas e internas por uma vitória. Enquanto alguns favoritos de diversos países podem ter perdido a tão sonhada medalha pela falta do equilíbrio emocional tão precioso no momento da disputa.

A performance ideal do atleta, segundo especialistas do esporte e da saúde mental, passa por uma equação que contemple motivação, autoconfiança, autocontrole, concentração, foco e suporte emocional adequado para gerir emoções e administrar as frustrações, comuns em um ambiente competitivo. Por este motivo, a preparação física deve andar de mãos dadas com a preparação mental desde o primeiro momento em que o indivíduo opta por participar de eventos esportivos, visando evitar adoecimentos psíquicos que suscitem sofrimento por ansiedade, surgimento de distúrbios alimentares, transtornos depressivos, transtornos de estresse pós-traumático, devastação da autoestima ou até mesmo pensamentos suicidas.

O problema ainda tem um lado negro e oculto, do qual tivemos notícias pela mídia ao longo dos anos nas grandes competições: os abusos no esporte. Violências contra os atletas, seja ela verbal, psicológica ou até mesmo física. Uma cultura insana que acredita que vale tudo para se conquistar o pódio. Uma epidemia de dor que provoca depressão, suicídio e traumas permanentes e severos em pessoas que trocam o sonho do sucesso pelo pesadelo do medo e da frustração.

E o que fazer para mudar esse ciclo de horror? Promover a cultura do diálogo; acolher o atleta para que se sinta confortável em respeitar seu limite; potencializar o cuidado permanente e o acompanhamento da saúde mental dos competidores; trabalhar emoções; facilitar a fala e provocar a escuta sensível; motivar pelo esforço e respeito; incentivar a autoconfiança e o autocontrole, associados ao foco e concentração; e desenvolver a autoestima e a consciência de si mesmo. Sem esquecer um ponto muito importante: o incentivo a denúncias de abusos e violência.

Portanto, o caso da ginasta Simone Biles não pode passar despercebido. O momento pede reflexões mais profundas sobre o assunto, visto que o corpo precisa ser percebido como um todo e não apenas de forma fragmentada. A conexão mente e físico – e a valorização do modo de gerir emoções, estruturas mentais e comportamentais – é a mola mestra para uma compreensão correta da prevenção do adoecimento psíquico do indivíduo, seja ele um competidor ou não.

Afinal, a vida do ser humano vale muito, e a interação entre o corpo e a mente nos mostra, cada vez mais, que uma competição saudável é aquela em que se leva em conta não somente as habilidades técnicas, mas também habilidades mentais estruturadas, onde o conjunto da obra irá propiciar indivíduos mais leves, felizes, cientes de sua força e com maior capacidade de interação e absorção de adversidades.

Enfim, por trás de cada atleta existe um indivíduo único que busca no esporte a superação de seus limites e uma vitória como recompensa pelo seu desempenho. Entretanto, essa busca pode e deve ser melhor trabalhada considerando o fator psíquico e emocional envolvido.

Dra. Andréa Ladislau, doutora em psicanálise.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/07/2021

 

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