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Breve apresentação para entender o pensamento e a produção de Paulo Freire

 

Paulo Freire
Copyright – Paulo Freire / Instituto Paulo Freire

Breve apresentação para entender o pensamento e a produção de Paulo Freire, artigo de Sérgio Ribeiro

O ato de educar e aprender é um ato político sempre. Seja para manter a estrutura social dominante e o status quo ou para se formar cidadãos críticos

Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997) é o acadêmico brasileiro mais conhecido, reconhecido e estudado internacionalmente, sendo o terceiro nas áreas humanas em todo o mundo em citações. Paradoxalmente, em território nacional seu nome e sua obra foram apropriados, tanto por segmentos políticos da esquerda quanto da direita. Contudo, seja em termos laudatórios ou para detrações, a obra freiriana carece de estudos mais críticos e não muitos se dedicam a esta tarefa, relegando assim seu autor ao embate de representações. A propósito, Freire teve sua obra proibida na comunista Alemanha Oriental, pela sua defesa do livre pensamento.

Para entender o pensamento e a produção de Paulo Freire alguns cuidados iniciais devem ser tomados. Em primeiro lugar, a tão alardeada “Metodologia Paulo Freire” foi um programa de alfabetização para adultos, e não para crianças, tendo como projeto piloto uma comunidade de cortadores de cana-de-açúcar, na cidade de Angicos, RN, no início da década de 1960.

O resultado foi a alfabetização de 300 adultos, no período de 40 dias em aulas noturnas. Cabe destacar que essa ação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) foi adotada pelo Programa Nacional de Alfabetização e durou até 1964. O método consistia em, a partir da realidade e necessidades locais, tendo por base o próprio vocabulário, alfabetizar o adulto tendo como ponto de partida o seu próprio mundo (um exemplo do uso deste método foi a alfabetização pela leitura da Bíblia). Contudo, o objetivo não era apenas ensinar a ler textos, e sim, ensinar a ler o mundo.

Para se entender o pensamento freiriano na Pedagogia do Oprimido, sua obra mais conhecida, mas que reflete seu pensamento no início de sua trajetória acadêmica, se faz necessário um conhecimento a priori da filosofia hegeliana, marxista, fenomenológica e existencialista. Neste livro é perceptível a adoção de uma análise que busca interpretar a sociedade como um reflexo que tem por base o modo de produção. Também é presente a tese da luta entre opressores e oprimidos e a necessidade que o indivíduo tem de ter consciência de si, de classe e do mundo em que vive, vendo a si mesmo como agente transformador da realidade à sua volta e construtor da sua história.

Contudo, o pensamento de Freire se desenvolve, teses são revistas e outras ideias são mais bem elaboradas. Podemos citar a sua denúncia ao que ele chamava de “educação bancária”, ou seja, os alunos apenas como repositórios passivos de conteúdo, sem a necessidade de elaborá-los e sobre eles refletir. Neste sentido, sua análise é de que não existe educação neutra. O ato de educar e aprender é um ato político sempre. Seja para manter a estrutura social dominante e o status quo ou para se formar cidadãos críticos, reflexivos, capazes de assumirem o controle de suas próprias vidas e de transformar a realidade social em que estão inseridos.

Deve-se destacar ainda que, para Freire, não existe educação no autoritarismo e no totalitarismo, apenas reprodução. Aprender é um ato dialógico, em que professor e aluno caminham juntos, descobrem juntos e aprendem juntos, ou seja, ela deve ser democrática e dialógica. Não significa o desprezo pelo conteúdo, e sim não ensinar o conteúdo apenas pelo conteúdo.

Entre 1964 e 1980 Paulo Freire viveu exilado no Exterior, onde lecionou em renomadas universidades do mundo, como em Harvard e Cambridge, trabalhou como assessor na ONU para a Agricultura e Combate à Fome e em Genebra, no Concílio Mundial de Igrejas (CMI). Como secretário da Educação em São Paulo, criou o Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos que serviu como base para o conhecido EJA (Educação de Jovens e Adultos). Atualmente, os estudos em Aprendizagem Transformadora têm por base os estudos de Paulo Freire e, recentemente, o sociólogo da educação, o britânico Michael Young, professor na London School, em palestra no Brasil afirmou que “nenhum país no mundo tem um educador tão conhecido e reconhecido mundialmente, e que faríamos bem em prestar atenção um pouco mais nisso”.

Pode-se não concordar com Paulo Freire, mas para isso deve haver a honestidade intelectual de se refutar à mesma altura e com as mesmas qualidades de estudo e argumentos, num ambiente em que o debate das ideias seja livre e democrático e sem preconceitos.

A simples estigmatização sem o devido conhecimento de sua obra em nada contribui para a educação. Aliás, nunca houve um método Paulo Freire nas escolas, mesmo porque, em sua fase mais produtiva, nem no Brasil ele estava. Os imensos gargalos educacionais do nosso país se devem muito mais ao fato de que a educação nunca foi um projeto de Estado. Inclusive, culpar o socialismo ou políticas de esquerda pelo mau desempenho nesta área é desconhecer o contexto geral.

Basta olharmos para as sociais-democracias escandinavas, para Rússia, China e mesmo Cuba e vermos que a questão exige um debate bem mais amplo. Mas, retomando, ninguém seria laureado com mais de 30 doutorados honoris causa e com diversos centros de estudo ao redor do mundo com o seu nome, como na Finlândia, Dinamarca, EUA, Alemanha, Reino Unido, entre outros países, se não tivesse o seu valor. Aliás, infelizmente, como ocorre com boa parte dos talentos brasileiros, muitos destes são mais reconhecidos no Exterior do que em seu país.

Por fim, a obra de um acadêmico deve ser estudada em seu todo, no seu próprio contexto e com honestidade. Mesmo porque, o próprio autor revê suas teses ao longo de sua trajetória e produção. Freire trabalhou com alguns princípios marxistas de interpretação da realidade social, mas também trabalhou com outros teóricos e a eles se alinhou.

Defendeu uma escola pública de qualidade, igualdade de oportunidades, uma formação reflexiva e crítica, lutou pelo reconhecimento e dignificação do ofício de professor, nunca pôs o seu talento a serviço das elites e sempre se importou com aqueles que estiveram à margem da sociedade. Desagradou muitos que estavam à sua direita ou à sua esquerda. Mas deixou o seu legado e o reconhecimento de uma obra inegável.

Sérgio Ribeiro é coordenador e professor do curso de História da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 06/05/2021

 

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