Crises de clima, biodiversidade e poluição devem ser enfrentadas em conjunto

 

 

 

Mudanças climáticas 

Crises de clima, biodiversidade e poluição devem ser enfrentadas em conjunto – novo relatório do PNUMA

 

· Alcançar as metas climáticas e de biodiversidade, reduzir a poluição e atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável requer a mobilização de toda a sociedade.

· Mudar as visões de mundo e colocar a natureza no centro das tomadas de decisão é a chave para alcançar uma mudança transformadora.

· Os planos de recuperação da COVID-19 são uma oportunidade imperdível para investir na natureza e alcançar emissões líquidas zero até 2050.

Por Roberta Zandonai, PNUMA Brasil

O mundo pode transformar sua relação com a natureza e enfrentar simultaneamente as crises do clima, da biodiversidade e da poluição para garantir um futuro sustentável e prevenir futuras pandemias, afirma um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) que propõe um plano abrangente para enfrentar a tríplice emergência global.

O relatório “Fazer as Pazes com a Natureza” expõe a gravidade dessas três crises ambientais com base em avaliações globais, incluindo as do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), bem como o relatório Panorama Ambiental Global (Global Environment Outlook) do PNUMA, o Painel Internacional de Recursos do PNUMA e novas descobertas sobre o surgimento de doenças zoonóticas, como a COVID-19.

Os autores avaliam as ligações entre os múltiplos desafios ambientais e de desenvolvimento e explicam como o progresso científico e o desenvolvimento de políticas ousadas podem abrir caminho para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável até 2030 e um mundo neutro em carbono até 2050, revertendo ao mesmo tempo a tendência de perda de biodiversidade e reduzindo a poluição e o desperdício. Seguir esse caminho significa inovar e investir somente em atividades que protejam tanto as pessoas quanto a natureza. A restauração dos ecossistemas e a melhoria da saúde humana, assim como um clima estável, estão entre as chaves do sucesso.

“Ao reunir as últimas evidências científicas mostrando os impactos e ameaças da emergência climática, da crise da biodiversidade e da poluição que mata milhões de pessoas a cada ano, [este relatório] mostra claramente que a nossa guerra contra a natureza destruiu o planeta”, disse o Secretário-geral da ONU, António Guterres, no prefácio do relatório. “Mas também nos guia para um caminho mais seguro, propondo um plano de paz e um programa de reconstrução do pós-guerra”.

“Ao transformarmos a forma como vemos a natureza, podemos reconhecer seu verdadeiro valor. Ao refletir este valor em políticas, planos e sistemas econômicos, podemos canalizar investimentos em atividades que restauram a natureza e são recompensadas por ela. Ao reconhecer a natureza como uma aliada indispensável, podemos deixar a engenhosidade humana à serviço da sustentabilidade e assegurar nossa própria saúde e bem-estar ao lado do planeta”, complementou Guterres.

Em meio a uma onda de investimentos para revitalizar as economias atingidas pela pandemia da COVID-19, o projeto comunica a oportunidade e a urgência de uma ação ambiciosa e imediata. Ele também estabelece os papéis que todos, desde governos e empresas até comunidades e indivíduos, podem e devem desempenhar. Este ano de 2021, com as próximas reuniões da Convenção de Clima (UNFCCC COP 26) e de Biodiversidade (CBD COP 15), é particularmente crucial. Nestas reuniões, os governos precisarão estabelecer metas sinérgicas e ambiciosas para salvaguardar o planeta, reduzindo quase pela metade as emissões de gases de efeito estufa nesta década, e conservando e restaurando a biodiversidade.

Enfrentar as três ameaças globais simultaneamente

O crescimento econômico trouxe benefícios desiguais em termos de prosperidade para uma população mundial em rápido crescimento, deixando 1,3 bilhões de pessoas pobres. Enquanto isso, a extração de recursos naturais triplicou, e os níveis prejudiciais criaram uma emergência planetária. Apesar de uma queda temporária nas emissões devido à pandemia, a Terra está caminhando para um aquecimento global de pelo menos 3°C neste século. Mais de 1 milhão das 8 milhões de espécies vegetais e animais estimadas estão em alto risco de extinção, e as doenças causadas pela poluição matam cerca de 9 milhões de pessoas prematuramente a cada ano. A degradação ambiental está impedindo avanços rumo à redução das desigualdades, à promoção do crescimento econômico sustentável, ao trabalho para todas e todos, a sociedades inclusivas e pacíficas e ao fim da pobreza e da fome.

O relatório mostra como essas três emergências ambientais estão interligadas e têm causas comuns – portanto, é necessário enfrentar as crises em conjunto para solucioná-las de forma eficaz. Os subsídios aos combustíveis fósseis, por exemplo, e os preços que deixam de lado os custos ambientais, estão impulsionando o desperdício de produção e consumo de energia e de recursos naturais – que estão na raiz desses três problemas.

Inger Andersen, Diretora Executiva do PNUMA, explicou que o relatório destacou a importância de mudar mentalidades e valores, e encontrar soluções políticas e técnicas que estejam à altura das crises ambientais da Terra.

“Ao demonstrar como a saúde das pessoas e a natureza estão interligadas, a crise da COVID-19 destacou a necessidade de uma mudança radical na forma como vemos e valorizamos a natureza”. Se integrarmos isto na tomada de decisões, seja de política econômica ou de escolhas pessoais, podemos trazer uma mudança rápida e duradoura rumo à sustentabilidade, tanto para as pessoas quanto para o meio ambiente. Os planos de ‘recuperação verde’ para economias afetadas pela pandemia são uma oportunidade única para acelerar a transformação”, afirmou.

Lançado na véspera da quinta Assembléia das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o relatório apresenta fortes argumentos para explicar o porque e de que forma medidas urgentes devem ser tomadas para proteger e restaurar o planeta e seu clima de uma forma holística.

O relatório expõe os resultados que uma mudança transformadora traria, e como a prosperidade, os empregos e uma maior igualdade seriam beneficiados. Mudanças de longo alcance exigem que repensemos como valorizamos a natureza, como investimos nela, como integramos esse valor nas políticas e decisões em todos os níveis, como revisamos subsídios e outros elementos dos sistemas econômicos e financeiros, e como incentivamos a inovação em tecnologias e modelos de negócios sustentáveis. O investimento privado maciço em mobilidade elétrica e combustíveis alternativos mostra como indústrias inteiras reconhecem os ganhos potenciais de uma rápida mudança.

Os autores também ressaltam que frear o declínio ambiental em todas as suas formas é essencial para o avanço de muitos dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, em particular para a redução da pobreza, segurança alimentar e da água e para a saúde de todos e todas.

Um exemplo é como a intensificação sustentável da agricultura e da pesca, associada a mudanças nos hábitos alimentares e à redução do desperdício de alimentos, pode contribuir para acabar com a fome e com a pobreza em todo mundo e ainda melhorar a nutrição e a saúde, ao mesmo tempo em que poupa áreas terrestres e marítima para a própria natureza.

 Com o objetivo de reforçar o apelo à ação, o relatório enfatiza a necessidade de que as partes interessadas em todos os níveis da sociedade estejam envolvidas na tomada de decisões. Também identifica dezenas de ações-chave que governos, empresas, comunidades e indivíduos podem e devem empreender a fim de criar um mundo sustentável.

 Por exemplo:

· Os governos podem incluir o capital natural em medidas de desempenho econômico, colocar um preço no carbono e transferir trilhões de dólares em subsídios de combustíveis fósseis, agricultura não sustentável e transporte para soluções de baixo carbono e amigáveis à natureza.

· As organizações internacionais podem promover abordagens de saúde unida (One Health) e metas internacionais ambiciosas para a biodiversidade, tais como a ampliação e melhoria das redes de áreas protegidas.

· As instituições financeiras podem deixar de conceder empréstimos para combustíveis fósseis e desenvolver financiamentos inovadores para a conservação da biodiversidade e a agricultura sustentável.

· As empresas podem adotar os princípios da economia circular para minimizar o uso de recursos e o desperdício e comprometer-se a manter cadeias de fornecimento transparentes e livres de desmatamento.

· Organizações não-governamentais podem construir redes de interessados para garantir sua plena participação nas decisões sobre o uso sustentável dos recursos terrestres e marinhos

· As organizações científicas podem ser pioneiras em tecnologias e políticas para reduzir as emissões de carbono, aumentar a eficiência dos recursos e levantar a resiliência das cidades, indústrias, comunidades e ecossistemas.

· Os indivíduos podem reconsiderar sua relação com a natureza, aprender sobre sustentabilidade e mudar seus hábitos para reduzir seu uso de recursos, reduzir o desperdício de alimentos, água e energia, e adotar dietas mais saudáveis.

· Para alcançar um futuro sustentável também é necessário aprender com a crise da COVID-19 a fim de reduzir a ameaça de doenças pandêmicas. O relatório salienta como a degradação de ecossistemas aumenta o risco de passagem de patógenos de animais para humanos, e a importância de uma abordagem de saúde única – ‘One Health’ – que considera a saúde humana, animal e planetária em conjunto.

NOTAS :

Leia o relatório e o sumário executivo aqui (em inglês)

Assista o vídeo sobre o relatório aqui

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/02/2021

 

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