Baixa fecundidade nos EUA assusta os pronatalistas e conservadores

 

Baixa fecundidade nos EUA assusta os pronatalistas e conservadores, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Diferentemente das pragas da idade das trevas ou das doenças contemporâneas que ainda não compreendemos, a praga moderna da superpopulação é solúvel pelos meios que descobrimos e com os recursos que possuímos. O que falta não é conhecimento suficiente da solução, mas consciência universal da gravidade do problema e educação dos bilhões que são suas vítimas” Martin Luther King (1966)

[EcoDebate] Os pronatalistas e conservadores de todos os tipos estão assustados com a diminuição do ritmo de crescimento populacional nos EUA e nem o presidente Joe Biden fica livre dos ataques do fundamentalismo. A taxa de fecundidade (filhos por mulher) está caindo nos EUA. Houve uma grande queda na grande depressão dos anos 1930 e uma recuperação após a 2ª Guerra Mundial (quando houve um baby boom entre 1945 e 1965). A fecundidade voltou a cair nas décadas de 1970 e 1980, teve uma pequena recuperação entre 1980 e 2008 e voltou a cair depois da crise financeira iniciada com a quebra do banco Lehman Brothers.

Dados do Center for Disease Control and Prevention (CDC) mostram que o número de nascidos vivos atingiu um pico em 1990, com 4,16 milhões de nascimentos, chegou a 4,06 milhões em 2000 e atingiu o zênite de 4,32 milhões de nascimentos em 2007. Portanto, as novas gerações já apresentam uma tendência de adotar famílias menores. E esta realidade foi agravada pela pandemia da covid-19, conforme mostra o gráfico abaixo

queda da natalidade nos EUA

Com as restrições à migração adotadas durante o governo Donald Trump e com a crise pandêmica de 2020, o ritmo de crescimento demográfico caiu ainda mais. Matéria de Eliana Dockterman, na revista Time (15/10/2020), mostra que muitas americanas jovens estão adiando a gravidez e outras estão, inclusive, desistindo de ter filhos. O resultado é que no ano de 2021 deve nascer menos 500 mil bebês, fazendo o número de nascidos vivos cair para 3,3 milhões de crianças no ano que vem, número equivalente àqueles da década de 1970 quando a população dos EUA era muito menor.

Um menor crescimento demográfico dos EUA, no segundo pais mais poluidor do mundo, é uma boa notícia para o meio ambiente. Porém, o fundamentalismo religioso e o conservadorismo aproveitam este fato para espalhar o medo do decrescimento populacional e reforçar a agenda pronatalista e antineomalthusiana.

Até as primeiras políticas na área de direitos sexuais e reprodutivos adotadas por Joe Biden – o segundo presidente católico dos EUA e um dos mais religiosos de todos os tempos – estão sendo contestadas pela Conferência dos Bispos dos EUA.

O primeiro desafio do novo governo é reverter o legado desastroso de Donald Trump na área dos direitos humanos. No plano doméstico, ele desrespeitou as obrigações legais que permitem que as pessoas que temem por suas vidas solicitem refúgio, separou crianças migrantes de seus pais, empoderou supremacistas brancos, agiu para minar o processo democrático, e fomentou o ódio contra as minorias raciais e religiosas. Ele também fechou os olhos para o racismo sistêmico nas intervenções policiais, removeu proteções legais para pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT), revogou proteções ambientais sobre ar e água limpos e procurou enfraquecer o direito à saúde, especialmente o direito à saúde reprodutiva e sexual. Donald Trump tinha restabelecido uma política que se originou na era Reagan, proibindo a concessão de ajuda americana a provedores de saúde no exterior que discutem o aborto, mesmo não estando relacionada com a opção pelo planejamento familiar.

O governo de Joe Biden, um dia depois da posse, promoveu a ruptura dos EUA com a aliança conservadora na qual o governo de Jair Bolsonaro apostou fortemente: nas questões de saúde sexual e direitos reprodutivos. Para tanto, o novo presidente revogou a “Política da Cidade do México” e defendeu o compromisso mais amplo de proteger a saúde das mulheres e promover a igualdade de gênero em casa e no mundo. Segundo o doutor Anthony Fauci, “Será nossa política apoiar a saúde sexual e reprodutiva de mulheres e jovens e os direitos reprodutivos nos Estados Unidos, bem como em todo o mundo”.

Mas esta guinada não agradou os setores mais conservadores da Igreja Católica Americana. A Conferência dos Bispos dos EUA, emitiu uma declaração prometendo que haverá áreas de “forte oposição” dos bispos em relação ao governo Biden. Os Bispos conservadores não deram trégua ao presidente Biden dizendo que ele segue certas políticas que promoveriam males morais e ameaçariam a vida e a dignidade humanas, mais seriamente nas áreas do aborto, da contracepção, do casamento e do gênero.

Ou seja, a pauta conservadores de costumes já se manifesta nos EUA. Não custa lembrar que a encíclica Humanae Vitae, do Papa Paulo VI, lançada no dia 25 de julho de 1968 e é uma das responsáveis pelas posturas equivocadas da Igreja na área dos direitos sexuais e reprodutivos. Embora, o Planejamento Familiar tenha sido reconhecido como um direito humano básico na Conferência de Direitos Humanos, ocorrida em Teerã, no dia 13 de maio de 1968 (comemorando os 20 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, da ONU).

A década de 1960 foi marcada pela Revolução Sexual e a luta contra o autoritarismo político e a moral conservadora, responsáveis por uma infinidade de interditos, tabus e repressões referentes à sexualidade, ao prazer, à masturbação, etc. O ano de 1968 também foi repleto de manifestações da juventude em todo o mundo defendendo a liberdade sexual como um direito ao prazer e a aceitação do sexo fora do casamento e das relações heterossexuais, procriativas e monogâmicas tradicionais. Assim, em 1968 que a igreja Católica marcou um gol contra quando divulgou a encíclica Humanae Vitae e se afastou das reivindicações e das aspirações desejadas pela juventude global ao defender uma concepção medieval da sexualidade e que repudia o uso de métodos contraceptivos modernos como um direito humano básico das pessoas e dos casais.

Desta forma, liderança da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos ao invés de avançar se volta para a tradição mais conservadora da Igreja e se alia com os setores mais atrasados da sociedade americana. O fato é que Biden tenta manter os compromissos históricos dos Estados Unidos com os direitos humanos.

O conservadorismo pronatalista está do lado equivocado da história e em oposição à sustentabilidade ambiental.

José Eustáquio Diniz Alves
Colunista do EcoDebate.
Doutor em demografia, link do CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2003298427606382

Referências:

ALVES, JED. Cai a natalidade e a fecundidade nos EUA depois da pandemia da covid-19, Ecodebate, 07/12/2020 https://www.ecodebate.com.br/2020/12/07/cai-a-natalidade-e-a-fecundidade-nos-eua-depois-da-pandemia-da-covid-19/

ALVES, JED. O antineomalthusianismo populacionista e o pronatalismo coercitivo, Ecodebate, 03/06/2020 https://www.ecodebate.com.br/2020/06/03/o-antineomalthusianismo-populacionista-e-o-pronatalismo-coercitivo-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. 50 anos da encíclica Humanae Vitae: sexo e reprodução no século XXI, Ecodebate, 18/07/2018
https://www.ecodebate.com.br/2018/07/18/50-anos-da-enciclica-humanae-vitae-sexo-e-reproducao-no-seculo-xxi-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

CDC, Births: Final Data for 2018, NVSS, Volume 68, Number 13, November 27, 2019
https://www.cdc.gov/nchs/data/nvsr/nvsr68/nvsr68_13-508.pdf

ELIANA DOCKTERMAN. Women Are Deciding Not to Have Babies Because of the Pandemic in USA, Time, 15/10/2020 https://time.com/5892749/covid-19-baby-bust/

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 18/02/2021

 

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